Tem uma frase de um autor desconhecido, que a cada dia se torna mais real. “Não coloque limite nos seus sonhos. Coloque fé”. Mas mais do que isso, é preciso agir em busca da realização dos objetivos. Foi assim que a erechinense Sueli Tomazelli Pelicioli, conquistou nesta sexta-feira (18), a tão sonhada graduação em Direito pela Universidade Regional Integrada (URI) de Erechim.
Ver alguém chegando ao ponto alto de sua vida, pode ofuscar as dificuldades que existiram logo abaixo, mas somente quem enfrenta uma trajetória de momentos bons e ruins, sabe o preço que uma conquista tem.
Com 17 anos, em 1992, a jovem estava cursando o 3º ano do Ensino Médio, Técnico em Contabilidade, quando precisou adiar seus planos em função de uma gestação. “Casei e fui morar no interior para cuidar da minha família. Residi no Distrito de Capo- Êre por 25 anos, me tornei agricultora, produtora de leite, mãe de duas filhas e avó”, conta.
Embora sua vida tenha mudado, a vontade de permanecer estudando sempre prevaleceu em seu coração. “Em 2009, 17 anos após, consegui concluir em seis meses o Ensino Médio. Frequentava as aulas uma vez por semana, no sábado, onde terminava meu serviço na ordenha e me dirigia até a cidade. Fiquei muito feliz com aquela conquista, principalmente quando tinha que preencher qualquer declaração onde me perguntavam a escolaridade e finalmente podia marcar como Ensino Médio completo”, revela.
No fim de 2016, novamente a vida de Sueli teve uma reviravolta, seu casamento chegou ao fim. “Além disso, tive um problema de coluna muito grave, duas hérnias de disco na cervical, chorava de dor e não podia mais trabalhar no campo. Por isso, vim morar na cidade, mas enquanto fazia tratamento da coluna para melhorar a dor, sentia falta dos meus afazeres, era muito difícil ficar sem minha antiga rotina da qual era apaixonada, principalmente minhas vacas, com isso acabei entrando em depressão”, expõe.
Após dois anos, já aos 44 anos, encontrou um amigona saída do mercado que a aconselhou a voltar a estudar. “Nesse mesmo dia, resolvi agir. Fui para minha casa e decidi que iria cursar uma faculdade, não sabia qual, mas teria que ser presencial. Vi uma propaganda da URI que tinha vagas para o curso de Direito e fui ver como funcionava. Fiz o vestibular no sábado e na segunda já comecei”, lembra.
A filha mais velha de Sueli, também é formada em Direito, e a incentivou no processo, que no início não foi nada fácil. “A idade de certa forma me limitava, mas as mudanças são constantes, principalmente com relação a tecnologia. Enfrentei desafios, mas me esforcei muito, fiz amizades e meus colegas me consideravam como uma mãe. A própria turma ficou conhecida como a turma da Sueli, motivo de orgulho pra mim”, brinca.
No terceiro semestre da faculdade, a ex-produtorarural iniciou a busca por um estágio na área. “Consegui após algum tempo no Juizado Especial Cível (JEC), onde permaneci por um ano e dois meses. Logo após, fui chamada para assumir uma vaga na Justiça Federal de Erechim, também de estágio, local em que fiquei até o último dia da faculdade”, ressalta.
Sueli relembra o quanto os colegas de trabalho e superiores foram importantes durante esse processo, e que se tornaram amigos. “Sempre tive muito comprometimento com as tarefas e atividades, e o apoio deles era fundamental. São amigos verdadeiros que permanecerão para sempre em minha vida”, expressa.
“Hoje com 49 anos, acredito que nunca é tarde para aprender o que se quer. Estou realizando um sonho, colar grau na faculdade de Direito e aprovada no Exame da Ordem dos Advogados (OAB),que consegui ainda cursando o último semestre da faculdade”
Para finalizar, a advogada deixa um conselho às mulheres mais experientes que por não serem jovens, não possuem coragem para recomeçar. “Toda mulher, inclusive a do campo, mãe, avó, com a idade que tiver, pode tudo. Hoje me sinto imensamente feliz, grata e realizada, pois nunca é tarde para aprender, sempre há tempo, não há mais tempo apenas quando se morre. Se amem e nunca desistam de vocês. Sei que cada uma tem uma trajetória diferente, mas sei também que todas temos um momento que precisamos nos decidir, parar de se lamentar, sair do fundo do poço, sacudir a poeira e enfrentar os desafios. Um dia você olhará pra trás e verá que o problema era bem pequeno, pois você se tornou gigante”, finaliza.