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Ensino

Como ler mais na era das redes sociais?

Atrair leitores em tempos digitais é uma responsabilidade compartilhada entre três atores fundamentais: a família, a escola e a sociedade, ressalta a educadora Lúcia Pagliosa em entrevista

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Para a educadora, o consumo de conteúdos rápidos altera significativamente a maneira como as pessoas
Educadora, pesquisadora e membro da AEL, Lúcia Pagliosa.
Por Vivian Mattos
Foto Vivian Mattos

Com o crescente consumo de conteúdos rápidos e superficiais nas redes sociais, a leitura de textos longos e reflexivos tem se tornado cada vez mais desafiadora. A 6ª edição da pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", realizada pelo Instituto de Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), aponta que 53% dos brasileiros não leem livros. 
Para entender sobre o tema, a redação do Jornal Bom Dia entrevistou a educadora, pesquisadora e membro da Academia Erechinense de Letras (AEL), Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa.

 

Livros digitais
Segundo Lúcia, os livros digitais são adquiridos de forma rápida e a preços acessíveis, alcançando até locais onde não há bibliotecas ou livrarias — muitas das quais, aliás, já desapareceram até mesmo em grandes centros. Além disso, é possível encontrar obras digitais em “sebos”, incluindo raridades ou livros fora de edição. Muitos desses títulos são até disponibilizados gratuitamente.

 

E-books
Ela destaca que os e-books e dispositivos como o Kindle oferecem a conveniência de carregar inúmeras obras, permitindo a leitura em diversos momentos, como em salas de espera, filas, deslocamentos no transporte público ou até mesmo na praia. 

 

Contraponto
Por outro lado, ela observa que a leitura em tablets, computadores ou celulares pode ser interrompida por chamadas, notificações e mensagens, o que dificulta a concentração. “Li alguns artigos que afirmam que a leitura digital pode reduzir a capacidade de leitura profunda e crítica, pois muitas vezes se torna mais superficial”, comenta.
No entanto, Lúcia não compartilha totalmente dessa visão. “Não tenho convicção desse pensamento, até porque admito que a simples mudança do suporte utilizado para leitura não muda a profundidade e a criticidade do conteúdo lido” afirma, ressaltando ainda que, no futuro, estudos de neurociência podem fornecer respostas mais precisas sobre o tema.

 

Cansaço visual
A educadora também destaca pontos como o cansaço visual causado pela leitura digital e a falta da experiência sensorial proporcionada pelo livro físico. "Embora tenha convivido a maior parte da minha vida com o livro impresso, aprecio muito a acessibilidade e a instantaneidade com que o livro digital nos chega", comenta. Contudo, ela alerta que, como qualquer tecnologia, é necessário equilíbrio, já que a instantaneidade também traz vulnerabilidades. "Reitero o que disse anteriormente: a falta do hábito de leitura não se deve ao suporte em que ela ocorre", conclui.

 

Gratificação imediata
As redes sociais e o consumo de conteúdos rápidos têm alterado significativamente a maneira como as pessoas se relacionam com a leitura. De acordo com Lúcia, muitos usuários da internet são expostos a textos curtos e atrativos, que oferecem gratificação imediata, mas tornam difícil a concentração em textos mais longos e complexos. 

 

Sistema de recompensa
Ela também ressaltou, citando o artigo "O impacto dos vídeos curtos no nosso sistema de recompensa", publicado no Caderno Vida do Zero Hora, em 18 de janeiro, que estudos realizados por neurologistas e psicólogos confirmam que o excesso de estímulos das plataformas digitais compromete a leitura profunda e crítica. Esse fenômeno resulta em dificuldades para reter informações e para organizar argumentos de maneira consistente.
"Muitos já devem ter notado a quantidade de resumos de obras que, antes lidas na íntegra, agora são condensadas em vídeos de poucos minutos. No trajeto entre minha casa e a Universidade, consigo 'conhecer' a obra de um autor best-seller. Não é difícil perceber que essas plataformas atraem por sua abordagem popular e pela leveza das obras, que se alinham perfeitamente ao formato rápido da internet", destacou.

 

Acomodação
Para Lúcia, incentivar o hábito da leitura não é uma tarefa simples, mas a acomodação diante dessa realidade é a pior escolha. Ela acredita que atrair leitores em tempos digitais ao alcance de todos, é tarefa, de igual responsabilidade, de três fundamentais atores: da família, da escola, da sociedade.
“Famílias que não dão o exemplo de leitura dificilmente formarão filhos leitores; um professor que não lê ou não compartilha com os alunos os prazeres da leitura anula a alegria da aprendizagem; amigos que não se envolvem em conversas enriquecedoras sobre livros, facilmente serão seduzidos pelas fake news”, reflete.

 

Mudanças de comportamento
Ela também acredita que as mudanças de comportamento, especialmente no contexto das redes sociais, devem ser mediadas pelo diálogo, sempre orientado pela razão e respaldado por estudos que indicam os caminhos mais eficazes. 
“Não podemos esquecer que as emoções precisam estar em movimento para que as mudanças ocorram. Como escreveu Bruno Bettelheim em uma de suas obras, ‘aprender é um ato volitivo; só aprende quem tem vontade de aprender’. Eu sempre acrescento a essa frase: para aprender, você precisa se sentir querido por quem lhe propõe a aprendizagem e a mudança. Assim, aprender a ser um leitor sistemático e eficiente, em tempos de tantos atrativos digitais, exige habilidade, paciência, persistência, exemplo e amor. Qualquer que seja nossa atividade, ela não sobrevive sem esse último”, conclui.

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