Em tempos de conectividade constante, o uso excessivo de celulares tem gerado preocupações sobre seus efeitos na saúde mental e no desempenho acadêmico dos estudantes. A psicóloga Vitória Matte, compartilha suas análises sobre a abstinência do celular em jovens, apontando os sinais e consequências dessa prática. Para complementar a discussão, as professoras Odete Roitman e Catia Regina Scariot também relatam suas experiências nas escolas que lecionam sobre a proibição do uso do celular em sala de aula, destacando os benefícios observados no rendimento dos alunos.
Sinais e impactos no comportamento
Segundo a psicóloga Vitória Matté, a abstinência do uso do celular pode ser percebida em jovens através de diversos sinais, como irritabilidade, ansiedade, alterações no sono, dificuldade de concentração e dificuldade em lidar com frustrações. Esses sintomas ocorrem porque, ao ficarem sem os estímulos constantes das telas, os adolescentes experimentam uma espécie de "vazio" e reagem com resistência. "O uso excessivo de celulares ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, neurotransmissor associado ao prazer. Quando esse estímulo é interrompido, os jovens podem ficar ansiosos e irritados", explica a psicóloga.
O impacto do excesso de tempo nas telas vai além do emocional. "O uso prolongado do celular pode afetar as habilidades cognitivas dos estudantes, como memória, atenção e controle de impulsos. Além disso, pode contribuir para o desenvolvimento de obesidade, distúrbios do sono e aumento da ansiedade e da depressão", alerta Vitória.
Proibição do uso do celular e o desempenho escolar
A professora Odete Roitman, que trabalha nas escolas estaduais de Erechim, José Bonifácio e Haidée Tedesco Reali, observou que os alunos aceitaram positivamente a regra de guardar os celulares ao chegarem na escola, sem resistência, percebendo que, sem o dispositivo por perto, não sentem vontade de usá-lo. “Um detalhe que me chamou a atenção é que, como temos pouco tempo de aula, apenas dois ou três alunos costumam trazer o celular e, nesses casos, é necessário que guardem. Os outros já nem trazem o celular para a escola”, diz Odete.
Catia Regina Scariot é professora do Ensino Fundamental II na Escola Municipal Luiz Badalotti, atuando na instituição há 20 anos. Mesmo antes da implementação da legislação que proíbe o uso de celulares em sala de aula, a instituição já estabelecia normas internas relacionadas ao tema.
“Nossa escola já tem uma cultura bem estabelecida de não permitir o uso de celular. Desde a educação infantil, os alunos são orientados de que a escola é um ambiente destinado à socialização e interação entre colegas, além de atividades lúdicas para as crianças menores. Durante os períodos de recreio, são promovidas atividades que incentivam essa interação, afastando os alunos das possíveis distrações proporcionadas pelos celulares”, menciona Catia, “Esse sistema funcionou bem, e, até hoje, ele ainda continua funcionando. No retorno das aulas no início do ano, não senti dificuldades com os alunos que já são da nossa escola, pois essa regra já está bem estabelecida”.
Os benefícios da restrição do celular para os estudantes
A psicóloga Vitória Matté observa que a redução no uso do celular pode resultar em diversos benefícios para os estudantes. "Com menos tempo na tela, eles tendem a melhorar a concentração e a produtividade nas atividades escolares, o que contribui para um melhor desempenho acadêmico. Além disso, ao interagir mais com os colegas e participar de atividades fora do ambiente virtual, eles desenvolvem habilidades sociais mais saudáveis e uma maior capacidade de regulação emocional", afirma.
Outra vantagem mencionada é a melhoria na qualidade do sono, que muitas vezes é prejudicada pelo uso excessivo de dispositivos eletrônicos antes de dormir. "Com a redução do uso do celular, muitos estudantes relatam dormir melhor e acordar mais descansados, o que impacta positivamente sua disposição e atenção durante as aulas", destaca a psicóloga.
Desafios e soluções para um uso consciente da tecnologia
No entanto, Vitória Matté alerta que a transição para um uso mais equilibrado da tecnologia deve ser feita de forma gradual, para não causar impactos emocionais negativos. "É importante que pais e professores ajudem os jovens a estabelecer limites, mas de maneira que respeite o processo natural de adaptação", explica. A psicóloga sugere que atividades ao ar livre, práticas esportivas e momentos em família sejam incentivados como alternativas saudáveis ao uso do celular.
Além disso, ela ressalta a importância de se discutir a educação digital nas escolas, com debates sobre os impactos das telas e sobre como usá-las de forma saudável. Para Vitória, "o equilíbrio é fundamental. A tecnologia deve ser uma aliada da educação, e não um obstáculo."