Preservar, ensinar e compartilhar. É com esse propósito que surgiu o grupo de canto indígena KO'Ê JU – Novo Amanhecer, ligado à Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Toldo Guarani, em Benjamin Constant do Sul. Formado por estudantes e membros da Aldeia Toldo Guarani, o grupo nasceu como uma extensão dos saberes tradicionais, e hoje representa uma importante ferramenta de valorização da identidade cultural guarani.
Sob a coordenação do professor Juliano de Castro – que também é morador da aldeia e Karaí, liderança espiritual da comunidade –, o grupo se dedica ao canto tradicional como forma de transmitir valores, preservar rituais e manter viva a memória coletiva do povo guarani.
“O nome KO'Ê JU não é escolhido por alguém, ele é revelado por Nhanderu (Deus) e compartilhado com a comunidade após diversos encontros na Opy, a “casa de reza”, explica Juliano. Os cantos também são revelações espirituais, repassadas pelo Karaí aos participantes, que ensaiam diariamente na Opy e, quando necessário, também na escola.
Tradição, identidade e pertencimento
A música, neste contexto, é mais do que expressão artística. “Por meio do canto, vem a saúde, a força e a coragem do povo guarani. Buscamos transmitir alegria, amor e a importância de não perder as tradições”, afirma o professor.
Aberto a toda a comunidade, o grupo reúne desde crianças da educação infantil até estudantes do ensino médio, além de adultos da aldeia. O envolvimento vai além dos ensaios: há incentivo das famílias, da escola, das lideranças locais e de toda a comunidade.
“A escola é o coração da comunidade”, afirma a diretora Aline Moreira de Andrade, que acompanha de perto o trabalho. “Apoiar o grupo é valorizar a cultura, a identidade e os saberes tradicionais do nosso povo. Esse projeto tem impacto direto na autoestima dos estudantes e no fortalecimento da educação indígena.”
Um canto que ecoa além da aldeia
Recentemente, o grupo teve a oportunidade de registrar seu trabalho em formato audiovisual, com a gravação de um clipe e sessões fotográficas. A experiência, segundo Juliano, foi emocionante e produtiva: “Foi uma sensação diferente, de valorização e alegria. A produção audiovisual é um passo importante para levar nossa cultura além dos limites da aldeia.”
A escola, em parceria com a comunidade, está agora focada na divulgação do clipe e na busca por espaços onde o grupo possa se apresentar. “Em abril fizemos várias apresentações e seguimos prontos para novos desafios”, afirma o professor.
Parcerias que sustentam o projeto
A iniciativa conta com apoio da 15ª Coordenadoria Regional de Educação, por meio da assessora de assuntos indígenas Claudia Arpini e da coordenadora Juliane Bonez. Também há suporte da Secretaria Municipal de Educação, da administração municipal e do Projeto do Plano Básico Ambiental – componente indígena, com a colaboração de Janete Mariano e Eluando Tonatto Mariano.
Essas parcerias são fundamentais para que o projeto continue crescendo e alcance novos espaços culturais e educacionais. “A intenção é evoluir sempre”, afirma a diretora Aline.
Educação com identidade
Além de promover o uso da língua materna, o projeto amplia as habilidades dos estudantes e os conecta à própria história. “Percebemos mudanças visíveis nos alunos que participam, desde o desenvolvimento emocional até o aumento do senso de pertencimento à cultura guarani”, relata a diretora.
Na escola Toldo Guarani, o canto do grupo KO'Ê JU ecoa como instrumento de aprendizado e transformação. É uma ponte entre o passado e o presente, entre os rituais da Opy e os projetos pedagógicos em sala de aula. Um novo amanhecer – como anuncia o nome do grupo – para a educação indígena.