O debate sobre maus-tratos a animais costuma ser associado a cães e gatos, mas o problema também atinge animais de produção, como bovinos, suínos, ovinos e aves. No Centro Clínico Veterinário da URI Erechim, o professor Rodrigo Grando, do curso de Medicina Veterinária, alerta que a prevenção e a correção de práticas inadequadas no campo dependem de conhecimento técnico, conscientização e manejo adequado.
Segundo ele, a análise de maus-tratos é baseada nas chamadas “cinco liberdades do bem-estar animal”:
- Liberdade de fome e sede — os animais não devem passar fome ou sede.
- Liberdade de desconforto — devem viver em ambiente que proporcione conforto e bom desempenho.
- Liberdade de dor, lesões e doenças — o ambiente precisa ser saudável para prevenir patologias.
- Liberdade para expressar o comportamento natural da espécie — os animais devem poder agir conforme suas características próprias.
- Liberdade de estresse e medo — não devem sofrer com esses sentimentos.
"Qualquer violação a essas liberdades pode caracterizar maus-tratos", ressalta Rodrigo.
Desafios no campo
De acordo com o professor, embora empresas integradoras de aves, suínos e bovinos tenham avançado significativamente no cuidado com o bem-estar animal, fatores climáticos ainda representam desafios importantes. Frio intenso, geadas, escassez de água no verão e períodos de seca podem comprometer o fornecimento de alimento e água, impactando a saúde e a produtividade dos animais.
Entre os sinais mais comuns de maus-tratos, Rodrigo cita magreza extrema, baixa massa muscular, feridas na pele, restrição ao acesso à água e aspecto debilitado. “A capacitação dos produtores é essencial para prevenir casos e garantir condições adequadas de criação”, afirma.
O caso das ovelhas resgatadas
No Campus II da URI Erechim, quatro ovelhas — duas fêmeas e dois machos — vivem sob os cuidados da equipe acadêmica e docente. Elas foram encaminhadas pela Polícia Civil em situação de restrição alimentar e apresentavam anemia e emagrecimento progressivo.
Após dois anos de recuperação, estão saudáveis e aguardam definição judicial sobre o destino final. “Enquanto permanecem conosco, recebem alimentação e água adequadas, além de acompanhamento constante”, explica o professor.
Formação prática e multiplicação do conhecimento
O tema do bem-estar animal está presente em disciplinas como Bem-Estar Animal, Prática de Manejo de Animais e Clínica Médica de Grandes Animais. O trabalho prático no centro clínico permite que os acadêmicos apliquem o conteúdo aprendido em sala, formando profissionais conscientes e preparados para atuar no campo.
“O papel do médico veterinário formado na URI é ser propagador da importância do bem-estar animal nas propriedades rurais. Nenhum sistema de produção será eficiente se não houver respeito e cuidados adequados”, destaca Rodrigo.
Para ele, além de ser um compromisso ético, garantir o bem-estar animal é também um diferencial competitivo para uma produção mais sustentável e responsável.