No dia 8 deste dezembro que expira, fez 45 anos da morte de John Lennon e eu quero, à maneira de Belchior, fazer um “comentário a respeito de John”, está bem?
Há uma sequência no documentário “John e Yoko: Above us only sky” (Michael Epstein, 2018) em que um jovem hippie, ex-combatente no Vietnã e que se apresenta como Curt Claudio, consegue ter acesso a Tittenhurst Park, a casa-castelo em que John Lennon viveu de 1969 a 1971, e ao próprio Lennon, que o recebe. O diálogo que se segue, e seus silêncios, é pungente e acolhedor, e ao mesmo tempo duro e triste – e eu preciso de um parágrafo de contextualização antes de abordá-lo.
Vivia-se, naquele momento – meados de 1971 -, a ressaca do fim do sonho de transformação cultural profunda que a geração que viveu os Anos 60 havia sonhado. A dissolução dos Beatles, em 1970, foi percebida como uma expressão perfeita, acabada, dessa sensação de “fim de uma era”. Em sua primeira obra solo – o álbum sem título do próprio ano de 70, conhecido como “Plastic Ono Band” -, John Lennon havia enunciado, em “God”, o verso cuja parte final se tornaria histórica: “I was the dreamweaver/ But now I am John/ And so dear friends/ You just have to carry on.../ The dream is over” (Eu fui o tecelão do sonho/ Mas agora eu sou [só o] John/ E então, gente querida/ Vocês terão de prosseguir.../ O sonho acabou).
John Lennon lutava, naquele momento, contra a imagem de “guru” laico da contracultura que havia sido criada em torno de si – tendo inclusive cortado o cabelo bem curto, afastando-se da imagem “Jesus-Cristo-de-óculos” que trazia desde 1968 e que se tornaria um ícone da cultura pop. E agora estava ali, um homem há mais de uma década de certo modo isolado pela condição de super rock star, frente a frente com um jovem perplexo, desesperado, possivelmente em desespero psíquico, sujo e faminto, que lhe diz na lata: “Eu achei que se eu te encontrasse... só de te olhar eu saberia a verdade.” John pergunta: “A verdade sobre o quê?” O jovem está atônito, meio paralisado. Se John Lennon não sabe, a quem mais ele poderia recorrer? Ele havia se esforçado para chegar até ali – até aquela espécie de “última instância”. “Eu sou apenas um sujeito que escreve canções”, diz Lennon. “Dylan faz o mesmo, e outras pessoas também. Eu escrevo canções sobre a minha vida, entende? Se elas são relevantes para outras pessoas, isso é bom, mas continuam sendo apenas canções.” O olhar do jovem denuncia que ele não está inteiramente satisfeito – ele está nervoso, balbucia coisas, não articula direito o pensamento, há mais gente ali, há câmeras, o álbum “Imagine” está começando a ser feito.
“Em meu último disco, é como se eu estivesse acordando de um sonho. É preciso acordar, você [não] pode viver a vida inteira em um sonho...”. Há silêncio, muitos silêncios. John pergunta: “Você está com fome? Sim?” Volta-se para alguém: “Vamos servir alguma coisa para ele”. Todos vão até a cozinha, há um corte, e a gente vê o jovem Curt Claudio à cabeceira de uma mesa, molhando delicadamente o pão no café. Ele terá, depois, de sair dali e, eventualmente... prosseguir. Talvez escrever e cantar sobre si mesmo. Ou pintar, ou dançar. Ou fazer filosofia. Só mais um cara, como John. Como cada um/a de nós.
Eu fiquei imaginando: e se Moisés tivesse dito coisa semelhante a seus seguidores? E Jesus? E Maomé? E outros tantos?