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Rural

Mudanças climáticas já causaram mais de R$ 5,4 bilhões em prejuízos à agricultura familiar na região de Erechim

Pesquisa da Uergs aponta estiagens como principal evento climático extremo entre 1991 e 2024 e indica estratégias iniciais de adaptação para os produtores rurais

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Imagens do município de Aratiba no período de estiagem em 2024, registro do SUTRAF-AU.jpg
Professora da Uergs Campus Erechim, Zenicléia Deggerone.jpg
Gráfico.jpg
Por Gabriela de Freitas
Foto Arquivo pessoal; SUTRAF-AU; Zenicléia Deggerone

As mudanças climáticas têm provocado impactos econômicos expressivos na agricultura familiar da microrregião de Erechim ao longo das últimas décadas. Um estudo prévio desenvolvido pela professora doutora Zenicléia Angelita Deggerone, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) Campus Erechim, aponta que eventos climáticos extremos causaram prejuízos superiores a R$ 5,4 bilhões à agricultura e à pecuária regional entre 1991 e 2024.

A pesquisa, conduzida no âmbito das atividades de ensino, pesquisa e extensão da Uergs, analisou dados oficiais da Defesa Civil do Rio Grande do Sul e evidencia, segundo a professora, a elevada vulnerabilidade dos sistemas produtivos da agricultura familiar frente às variações do clima.

De acordo com o levantamento coordenado por Zenicléia Deggerone, as estiagens e secas configuram-se como o principal risco climático da região, com 278 registros no período analisado. Esses eventos afetam diretamente a produção agrícola, o abastecimento de água e a renda das famílias do campo, sendo recorrentes em praticamente todos os municípios da microrregião.

Além da escassez hídrica, o estudo aponta a ocorrência frequente de eventos relacionados ao excesso de chuvas. As enxurradas somaram 91 registros, enquanto as chuvas intensas contabilizaram 80 ocorrências. Conforme a pesquisadora, esses fenômenos estão associados a alagamentos, erosão do solo, danos à infraestrutura urbana e rural e prejuízos significativos às lavouras.

Os vendavais e ciclones, com 58 registros, também aparecem com destaque na série histórica analisada. Embora menos frequentes que as secas, esses eventos apresentam elevado potencial destrutivo, provocando destelhamentos, queda de árvores e interrupções no fornecimento de energia elétrica. Fenômenos como granizo, tornados e movimentos de massa tiveram menor número de ocorrências, mas, segundo a professora Zenicléia, exigem atenção pelo impacto localizado que causam.

Municípios mais afetados

O levantamento mostra que todos os municípios da microrregião de Erechim foram atingidos por eventos climáticos extremos no período analisado. Getúlio Vargas, Campinas do Sul, Marcelino Ramos e Barra do Rio Azul concentram o maior número de registros, indicando maior exposição histórica.

Em relação às perdas financeiras na agricultura, a pesquisa coordenada pela docente da Uergs estima prejuízo acumulado de aproximadamente R$ 4,72 bilhões. Quatro Irmãos lidera o ranking, com cerca de R$ 318,8 milhões, seguido por São Valentim e Getúlio Vargas, ambos com perdas próximas a R$ 290 milhões.

Na pecuária, as perdas somam cerca de R$ 678,8 milhões. Aratiba aparece como o município mais afetado, com prejuízo estimado em R$ 84,6 milhões, seguido por Barra do Rio Azul e Barão de Cotegipe. Erechim também figura entre os municípios com perdas expressivas.

Recomendações iniciais de adaptação

Diante desse cenário, a professora Zenicléia Deggerone destaca que o estudo apresenta recomendações iniciais de adaptação para a agricultura familiar. Entre elas está o manejo do solo, com a adoção do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças e outras culturas (SPDH+), prática que contribui para a conservação do solo e da água, reduzindo a evaporação e mantendo a cobertura permanente do solo.

No Rio Grande do Sul, projetos desenvolvidos pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF-RS) têm contribuído para a difusão dessas práticas. Na microrregião de Erechim, agricultores familiares dos municípios de Aratiba, Erval Grande, Itatiba do Sul e São Valentim vêm implantando lavouras de estudo, que servem como referência para a adaptação e consolidação do sistema nos contextos locais.

Outra estratégia apontada pela pesquisadora é a gestão hídrica, com armazenamento do excesso de água das chuvas para uso em períodos de estiagem. A diversificação produtiva, especialmente por meio de Sistemas Agroflorestais (SAFs), também é destacada como forma de reduzir riscos, proteger as lavouras e garantir reservas de valor para os agricultores familiares.

Alerta para planejamento e políticas públicas

Segundo Zenicléia Deggerone, os resultados do estudo indicam que a microrregião de Erechim enfrenta riscos climáticos múltiplos e crescentes, reforçando a necessidade de planejamento territorial, políticas públicas de adaptação climática e estratégias de gestão de riscos voltadas à agricultura familiar.

A pesquisa ressalta ainda a importância do fortalecimento do seguro rural, do apoio técnico continuado aos agricultores e da adaptação dos sistemas produtivos, com foco na ampliação da resiliência socioeconômica e na sustentabilidade da produção agropecuária no longo prazo.

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