A abertura da Feira do Livro de Erechim caiu coincidentemente em um Dia do Trabalhador: esta sexta-feira. E se considerássemos, com Carl Gustav Jung, que esse encontro não é uma coincidência comum, mas uma "sincronicidade"? Uma coincidência significativa?
Esse exercício, note o caro leitor/a, abre e mobiliza toda uma biblioteca. Vejamos: uma possibilidade é adornar essa sincronicidade com o célebre poema "Perguntas de um trabalhador que lê", de Bertolt Brecht (1935). Com ele e com as ideias de desnaturalização, invisibilização e ironia histórica, lembramos que o que sustenta o mundo é o que não aparece.
“Perguntas de um trabalhador que lê
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem a ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os levantou? Sobre quem triunfaram os césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios.
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritavam pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos
Quem venceu, além dele?
Uma vitória em cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava suas despesas?
Tantos relatos.
Tantas perguntas.”