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Expressão Plural

Quíron, o centauro ferido

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

            Eu me encontrei em uma circunstância em que tive de conceber, pontualmente, um arco de dez aulas de Antiguidade. E eu precisei de uma primeira aula singular, única, com início, meio e fim, que representasse um corte entre o que vinha sendo feito e o que eu faria. Com um tema original, que mobilizasse o meu interesse. Saí para uma caminhada e voltei acompanhado de Quíron, o centauro – saído de uma bruma, uma cerração feita de mitologia, história, literatura, pedagogia, astrologia e outras cabalas.

            Ele mesmo: Quíron. O ser entre mundos, o mestre de heróis, o curador ferido, o conhecedor de todas as medicinas, o imortal que carrega uma dor incurável. Filho de Cronos e da ninfa Filira, Quíron nasce como um ser híbrido, meio homem, meio cavalo, condição que o impede de alcançar o Olimpo, apesar de imortal. Um ser liminar entre natureza (floresta) e cultura, instinto e razão, solidão e cuidado. Quíron é o próprio deslocamento, a própria diferença. A “espécie companheira” de si mesmo. Ele é a encarnação simbólica de quem não pertence inteiramente a nenhum lugar – não um lobo, mas um centauro solitário, como o Firenze de Hogwarts fitando as estrelas, ou como a constelação de sagitário de todos os céus. Quíron é sábio, contido, estudioso e atento: marcados pela violência e pelo excesso, os centauros o exilam. Será ferido acidentalmente por uma flecha disparada por Hércules, embebida no sangue da Hidra de Lerna, o veneno mais poderoso da Terra. E será professor de Asclépio, de Jasão, de Aquiles. Do próprio Pátrocolo.

            Seria justamente essa posição de liminaridade, de diferença, de não pertencimento, de vulnerabilidade, de atravessamento, o que faria com que ele compreendesse tão bem e tão profundamente a vida, o mundo e os outros? Quíron ensina medicina, ética, caça, música – ensina a paideia grega toda. Sua pedagogia tem corte existencial: formar um herói (na linguagem daqueles contextos) é ensiná-lo a lidar com a vida, com o mundo e consigo mesmo. Como ele próprio havia feito a partir de sua dor – a dor de sua ferida. Quíron estará ensinando que toda consciência emerge da dor? É isso? Quíron é Freud? É House (também ferido em uma perna)? Para professores, o que Quíron ensina é bem claro: ele não ocupa o centro de nenhuma narrativa da Antiguidade, mas é condição de sustentação de todas as narrativas em que está presente.

            Desafiando a própria ideia grega (e não só) de destino, Quíron dá um drible: renuncia à própria imortalidade, abre mão da eternidade. Não suportando mais, talvez (ou plausivelmente), sua dor, troca seu destino pelo de Prometeu, permitindo a liberdade do titã acorrentando, punido por dar o fogo aos homens. Diz-se que Quíron terá introduzido um elemento ético em sua história, fazendo com que seu sofrimento perene passasse a ter consequência para além de si próprio. Se o destino pode ser trabalhado, ressignificado, negociado – então somos um tantinho mais livres, não é mesmo?

            No Tao Te King – outra paideia inteira -, há uma imagem recorrente: a madeira torcida que sobrevive porque não serve ao uso comum. Uma coisa que não se encaixa nos padrões do mundo, mas que, às vezes, guarda um tipo raro de visão. Yoda, como Obi-Wan, ensina depois da perda, não antes O xamã que atravessou a doença, o terapeuta que conhece o abismo, os professores cansados que ainda conseguem escutar. Talvez por isso o Centauro continue retornando.

            Eu não sei bem se tudo isso faz sentido pra ti, caro leitor/a, mas sei que é importante tu saberes o lugar que Quíron ocupa em teu mapa astrológico. Dali, virá o eco de um sopro muito antigo sobre onde se encontra a tua dor e sobre o que fazer com ela. Ah! E sei também que eu voltei com uma ideia de aula daquela caminhada. E com um fio de dor no tornozelo.

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