Nessa semana, o Paulo Bittencourt me enviou o link de um perfil no Instagram que trazia a notícia de que o Papa Leão XIV, em sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas”, citou J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, em um trecho do documento que trata do fenômeno da Inteligência Artificial – o que é extraordinário. Mais precisamente, o Papa menciona o bruxo Gandalf, personagem central na literatura e na mitologia da “Terra-Média” de Tolkien, e uma das encarnações mais célebres do sábio Merlin na cultura contemporânea. Na passagem em questão, que recomendaria prudência frente ao desenvolvimento das tecnologias de IA e que temeria um processo de “desumanização tecnológica”, é feita uma citação direta de uma fala de Gandalf: “Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que está ao nosso alcance pelo bem dos dias que nos coube viver.”
Depois, Leão XIV acrescenta: “A civilização do amor não nasce de um gesto único e espetacular, mas de uma soma de fidelidades pequenas e tenazes, que fazem frente à desumanização.” Isso, caro leitor/a – pense -, dá “pano para a manga” para mil colunas de jornal, com duas mil abordagens diferentes, em dez mil direções. Neste texto, porém, eu só quero dividir contigo o jeito como a notícia me bateu na hora em que a li, está bem? Porque ela já trazia um recorte. ‘Bora lá...
Eu tinha, naquele dia, feito uma anotação sobre um livro de Deng Ming-Dao em que há um poema: “Espasmos de rocha liquefeita ergueram um cone de três milhas de altura/ Chuva e vento fenderam cem dedos altaneiros /Com o tempo, árvores rivalizaram nas fissuras/ Um milhão de anos depois, condores e cobras construíram morada/ Rocha poderosa, paredes talhadas, adornadas de líquens verde-amarelados e vermelhos/ O homem, ainda mais ínfimo sobre essas pedras./ Quanto tempo levará para ver Tao (o Caminho)?/ Até você não se achar mais importante.” No texto que se segue e que abre o poema, o autor comenta: “Em nosso egoísmo e nossa autoimagem como centro do universo, imaginamos que nossas vidas têm algum significado e importância quando colocadas ao lado de estrelas, montanhas e rios. Não têm. Não podemos esperar possuirmos algum significado na história do universo. Mas podemos aprender e ser uma parte melhor dele.”
Lendo a notícia sobre o Papa e Tolkien-Gandalf, eu bati na testa: ôpa! Busquei a anotação em meu caderno: em algum lugar de minha cabeça, fiz uma conexão entre as duas coisas. Qual seria? Talvez, o elo mais profundo entre os dois textos seja a questão da escala moral e (vá lá) espiritual do humano. É como se ambos rejeitassem a fantasia do humano como centro, controlador e medida de todas as coisas. Ambos apontam para uma sabedoria de escala.
Se o trecho de Deng Ming-Dao diz que tu começas a ver o Tao, o Caminho, quando deixas de se imaginar o centro do universo, a frase de Gandalf-Tolkien diz algo semelhante por outro... caminho: “Não nos cabe dominar todas as marés do mundo.” Quer dizer: não controlamos o fluxo inteiro da História, do cosmos, do tempo ou mesmo da técnica. O que nos cabe é a fidelidade (ah!, essa palavra) ao fragmento, ao caco de mundo que atravessamos. Anne Tsing diria: trata-se de habitar corretamente a parte do todo que se relaciona conosco, e não controlar o todo (se é que há um “todo”).
Então. Tao: “Tu não és o centro; Gandalf: “Tu não controlarás todas as marés”. Encíclica, ou uma certa tradição cristã contemplativa: “A civilização do amor nasce de fidelidades pequenas e tenazes”. Tudo aqui, parece estar apontando para uma ética da presença e da perseverança. Uma ética da medida e da escala, talvez pudéssemos dizer. Tem uma delicadeza, também, aí. Um deslocamento, uma quebra do imaginário heroico clássico do domínio absoluto.
Na próxima semana, daremos continuidade a este longo argumento, está bem? Encontramo-nos aqui.