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Expressão Plural

Livro dos Sonhos: sentido?

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

"Sabemos que isso que chamamos de mundo não tem um início significativo nem um fim compreensível, tampouco um propósito discernível nem um método em sua loucura." Quando topei com esse excerto de Alberto Manguel, lembrei que, dias antes, arrumando velhos papéis e bagunças diversas, eu havia achado um caderno dos tempos da Quarentena. Um Livro dos Sonhos. Inspirado na sentença de Manguel (e, na época, em Sidarta Ribeiro), faço o relato em feitio de crônica de um de meus sonhos anotados (junho de 2020) para, em uma segunda parte do texto, explorar com o caro leitor/a seus possíveis significados, está bem?

Eu estava em Porto Alegre, no centro, em um daqueles prédios antigos da Júlio de Castilhos que a gente sabe que são prédios comerciais, mas não sabe bem o que é que funciona ali exatamente. O sonho era em cinza, totalmente em cinza. Havia uma sala bem, bem grande, uma sala da qual não se via o fim, com diversas mesas brancas, compridas, talvez da mesma extensão da sala. Pessoas estavam sentadas às mesas, lendo e escrevendo. Não havia estantes de livros à vista como em uma biblioteca, mas outras pessoas passavam com uns carrinhos cheios de livros - como aqueles que a gente vê em presídio de filme americano. Era um ambiente de escritório de empresa, mas tudo era velho. Porto Alegre antiga.

Havia um lugar vazio - mas tinha um livro e papéis escritos naquele lugar - e eu fui levado até ali. Me sentei e olhei em volta. Do outro lado da mesa em que eu estava, à minha direita, estava um homem que era algum tipo de autoridade - um tipo de supervisor, mas ele também estava trabalhando. Ele me olhava. Todos os que estavam à minha volta olhavam para mim. Perguntei: “Como eu vim parar aqui?”. Ele: “Como qualquer pessoa vai parar em qualquer lugar?”. “Que lugar é este? Quem são essas pessoas?” Ele: “Elas trabalham aqui, e tu também, agora.” Olhei para o livro aberto à minha frente. Era o “Casa grande e senzala”, do Gilberto Freyre. “Só tem homens aqui. Por que só tem homens aqui? Que trabalho é esse que se faz aqui?” Ele: “Tu vais ler os apontamentos feitos sobre os livros e escrever as tuas impressões sobre eles.” Olhei para os papéis escritos à mão que estavam ao lado do "Casa grande...". De algum modo, eu sabia quem estivera trabalhando ali. Era um menino ainda, de talvez dezenove anos. “Onde está a pessoa que estava neste lugar?”. Ele: “Ele se suicidou.”

Olhei em volta, até onde a vista alcançava. Parecia que eu estava em um conto de Kafka, ou de Borges. Ou de Kafges. O homem voltou a falar: “Eventualmente, um funcionário comete suicídio. E trazemos pessoas para saberem o porquê. Tu és uma dessas pessoas.” Apanhei as folhas. “É isso que vocês fazem aqui? É um experimento sobre o suicídio?” Ele: “Tu tens de examinar os apontamentos que essa pessoa fez sobre todos os livros que ela leu enquanto esteve aqui. E descobrir as razões pelas quais ela se suicidou. As razões pelas quais qualquer um se suicida.” Eu senti que precisava sair daquele prédio. Mas não havia portas, janelas, nenhuma abertura à vista. Me levantei - me sentia forte e sabia agora que eu estava seguro. “Eu sei porque elas se suicidam. É porque tudo isso não faz sentido.” Todos os que ouviam se entreolharam. “Não faz o quê?”. “Sentido. Não faz sentido.”. Ele: “Essa palavra não existe.” “Sentido! Quer dizer significado, ou então direção. O que fazem aqui é mera leitura extensiva, horizontal. Sem mergulho, sem propósito, sem compreensão... Sem sentido!” Ele “Essa palavra não existe!”

“Ou então é o contrário: elas se suicidam precisamente porque entendem o sentido e não conseguem lidar com ele. Não tem pessoas que ajudam? Os índios dos Estados Unidos têm os “Spirit-helpers”, os “Espíritos-auxiliadores”. E os Bodhisatvas? Tem que ter ajuda, vocês não veem?!” O homem se levantou. Ainda perguntei: “E por que não tem mulheres aqui?” Então, eu me vi parado na rua, naquela esquina da Júlio de Castilhos que, atravessando, a gente vai dar no terminal de ônibus ao lado do Mercado Público. Fazia frio.

Pensei: eu sou o Jean-Claude Belmondo, em “Acossado”, ou o Mickey Rourke, em “Coração satânico”. Mas, de algum modo, eram os anos 1940, não os 50. Levantei a gola do sobretudo (nunca tive um sobretudo) e comecei a caminhar contra o vento. Avistei uma cafeteria. Murmurei para mim mesmo: "Preciso dar um jeito de voltar para Erechim." Quando abri a porta de vidro e senti o cheiro do café, acordei.

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