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Expressão Plural

Dois poemas de Borges (I)

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Gerson Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

Trago neste sábado, para partilhá-lo com o caro leitor/a, um poema seminal de Jorge Luís Borges, publicado em 1972 em livro intitulado “O Ouro dos Tigres”. E o faço em razão de que Michelle Peixoto, bem na pegada de nosso tempo e chamando o escritor argentino na chincha, comentou-o, atualizando-o, magistralmente – usando a própria linguagem e a forma do poema no espaço de comentários de meu Instagram. Aí estão o texto de Borges, cujo título, “tu”, é com minúscula mesmo, e a maiúscula nota de Michelle:

 

"tu

 

Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.

Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível.

Não é menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho que anteontem à noite sonhaste.

Esse homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou as constelações, o homem que erigiu a primeira pirâmide, o homem que escreveu os hexagramas do Livro das mutações, o forjador que gravou runas na espada de Hengist, o arqueiro Elinar Tambarskelver, Luis de León, o livreiro que engendrou Samuel Johnson, o jardineiro de Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmara letal, com o tempo, tu e eu.

Um só homem morreu em Ílion, no Metauro, em Hastings, em Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg.

Um só homem morreu nos hospitais, em barcos, na árdua solidão, na alcova do hábito e do amor.

Um só homem fitou a vasta aurora.

Um só homem sentiu no paladar o frescor da água, o gosto das frutas e da carne.

Falo do único, do uno, do que está sempre só."

 

 A nota:

 

 “Esse homem também é Eva, Lilith, Maria, Helena, Safo. A primeira mulher a semear e cultivar uma semente, a que descobriu o pão no Egito, a que inventou o vinho na Grécia. Todas as que cuidaram das crianças e das plantações em cada guerra. As que trouxeram sementes, cantos e rezos dentro dos cabelos das Áfricas para as Américas. As que costuraram seus terços em bainhas durante a Revolução Russa. As que deram à luz filhos bastardos no Oriente Médio (estupradas pelos romanos), nos Andes (estupradas pelos espanhóis), nas Savanas (estupradas pelos franceses e ingleses). As que procuram seus netos roubados pela ditadura na Argentina. As que tiveram seus pés deformados na China. Seus clitóris decepados e seus grandes e pequenos lábios costurados na África muçulmana. As escravas que tiveram seus dentes arrancados pelas senhoras. As cientistas e filósofas e artistas e escritoras que foram queimadas, linchadas, internadas em manicômios ou relegadas ao anonimato. E as que agora se negam a permanecer no lado escuro do Ser - sob o risco de serem ainda vilipendiadas ou assassinadas: Marielles, Malalas, Michelles, Cristinas, Angelas, Mayas. São também esse homem uno. Que fere e ofende a si mesmo a cada mulher que não reconhece como si próprio.”

 

 Que beleza, hein?

 

 Na semana que vem, o poema “um leitor” (também com minúscula), do livro “Elogio da Sombra”, de 1969.

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