Doença terminal
Quem já viveu algum caso de doença terminal na família sabe o quão dolorido é o processo. Por mais que se saiba qual será o resultado, faz-se de tudo para que o segundo seguinte seja postergado. É como se a briga fosse contra o relógio, numa esperança última de que o milagre pudesse encontrar o doente e fazer a vida voltar a ser como dantes.
Respeito
São inúmeras as famílias, pacientes, crianças, pais, amigos e pessoas que, de um modo geral, padecem diariamente deste problema. Mas hoje, peço imensas desculpas a quem, como eu, está ou já esteve diante de uma situação destas. Peço desculpas porque hei de fazer uma comparação, em que o comparado parece não ter feito nada para merecer a cura, o milagre, o tratamento digno ou seja lá que adjetivo ou substantivo poderíamos utilizar para não faltar com o respeito. Refiro-me ao Brasil, o nosso “país do futuro”, como há tempos escreveu Stefan Zweig.
O livro
A obra do escritor austríaco, nascido em 1881, previa que o Brasil seria o país do futuro, razão do título. Publicado em 1941, curiosamente em meio à Segunda Guerra Mundial, o livro descrevia o Brasil como sendo “o país ideal”, uma espécie de refúgio pacífico contra a barbárie europeia. Profético ou não, em parte isso tudo aconteceu, por ocasião de toda a imigração acolhida pela pátria amada. Para o autor, a miscigenação, a tolerância racial e as belezas naturais seriam as fortalezas que consolidariam o Brasil como uma promessa de civilização harmoniosa e próspera.
A doença
Infelizmente, no meio do caminho, o Brasil adoeceu. Uma recaída à velha política coronelista, ao “patriarcado nocivo”, fez com que o centro do poder criasse uma espécie de resposta autoimune ao que hoje vemos amarelado no artigo 37 da nossa Constituição Federal de 1988. Valores ditos constitucionais, como a legalidade, a impessoalidade, a moralidade, a publicidade e a eficiência não puderam criar raízes, senão nos combalidos livros de Direito Constitucional, palavra que dá até calafrios hoje em dia. E o Brasil adoeceu. Ditadura, anistia, nova república, democracia, PT e Bolsonarismo. E foi assim que chegamos ao fundo do poço.
O verdadeiro golpe
Se em Oito de Janeiro diziam ter havido um golpe, hoje sabemos bem que golpe foi este. Chegamos ao ponto de duvidar da democracia, de acreditar que o Brasil precisa de uma revolução, de que o respeito às leis já não é suficiente para manter o país vivo. Os médicos que cuidam deste paciente (sem querer ofender a classe), como último “recurso”, foram pouco a pouco mostrando as suas verdadeiras faces diabólicas. E o país está assim, à beira da morte, dominado por uma metástase de facções criminosas. Milhões de brasileiros que de quatro em quatro anos dirigem-se ao exercício da cidadania, ao sufrágio universal, encontram-se agora totalmente descrentes e desamparados, à espera de um final que possa lhes trazer de volta a dignidade. Do oito de janeiro, para “os oito” de abril.
A morte
Pobre Brasil. Pobres brasileiros. Iludidos, enganados, sacrificados. Milhões de almas boas, sedentas de um governo minimamente honesto e probo, estão agora diante da morte do país. Uma nação enganada por instituições ocupadas por demônios cabulosos, como nos tempos mais sombrios da História. O Brasil não é mais o país do futuro. O Brasil que conhecíamos ficou no passado e o que conhecemos hoje, infelizmente, está moribundo. Sorte de quem acredita em reencarnação. Sorte de quem acredita que o que aqui se faz, ali adiante se paga. Mas não será com dinheiro roubado. Será com muito sofrimento. Essa meia dúzia há de pagar caro pelo sofrimento de milhões de brasileiros. Que assim seja!