Caminhar sem pressa - e preconceitos - pelas ruelas estreitas e escorregadias que cobrem cerca de 1km na área que pode ser considerada o coração da história humana é uma experiência (quase) indescritível.
A cidade antiga de Jerusalém revela-se intensa, inusitada e surpreendente a cada esquina. Sem falar que é um dos lugares mais controversos do mundo moderno - status que mantém, aliás, desde priscas eras.
No coração de judeus, muçulmanos e católicos, essa diminuta área entre as muralhas construídas em 1538 por Suliman, o Magnífico, faz convergir os mais variados (e primitivos) sentimentos. Ali se encontram, separados por poucos metros, locais de fé e devoção para os seguidores das três religiões monoteístas.
Para os judeus, a cidade antiga é sede de seu lugar mais sagrado: o Muro Ocidental (também conhecido como Muro das Lamentações), que é o último vestígio daquilo que certa vez fora o segundo Templo de Salomão.
Localizada acima do Muro Ocidental está a Esplanada das Mesquitas (chamada de Monte do Templo por judeus e cristãos) com seu imperativo Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa - espaços venerados pelos muçulmanos pois dali o profeta Maomé teria alcançado o céu. O local representa o terceiro destino mais sagrado para os seguidores do Islã, atrás apenas de Meca e Medina.
A poucos metros de ambas construções repousa a Igreja do Santo Sepulcro - local onde os católicos acreditam que Jesus teria sido crucificado e enterrado, o que torna o ambiente especial para os cristãos. Embora, também em Jerusalém - só que fora da cidade antiga, haja outro local que 'dispute' tal indicação, que é o Jardim da Tumba.
Controvérsias à parte, não é à toa que a Jerusalém leva a fama de 'Cidade Santa' e ferve de turistas e peregrinos, mais e menos fervorosos, provenientes de todos os cantos do mundo - movimentando a indústria do turismo, alimentando a fé e, claro, pavimentando o caminho para disputas que envolvem interesses diversos.
Os quatro bairros
Apesar de reduzida, a área da 'Old City of Jerusalem', que tem oito portões de entrada, é dividida em quatro bairros - onde, em meio à uma segurança armada e ostensiva (voltada para garantir a sensação de segurança dos visitantes), há uma população residente de cerca de 40 mil pessoas que se respeitam e, acreditem, vivem em aparente harmonia - embora o mesmo não possa ser dito de seus dirigentes, vide os permanentes desentendimentos, conflitos e refugas nas negociações de paz entre lideranças de Israel e da Palestina.
Mas, vamos aos bairros: há o Judeu, o Muçulmano, o Cristão e o Armênio. Cada um deles tem sua atmosfera própria, costumes, atrações e cheiros - entregando experiências únicas.
No bairro Judeu, percorrendo as apertadas e limpas vias, podem ser vistos aos montes judeus ultraortodoxos (Haredi), que ali vivem com suas famílias, seu penteado característico (no caso dos homens, com 'cachos' que despencam da 'suíça' parecendo escorregar entre os rostos barbudos), e um número cada vez maior de filhos. Por lá também há as Yeshivas (escolas próprias para o estudo da Torá - que constitui-se nos 5 primeiros livros da Biblía, e siginifica ensinamento, em hebraico.
O Muro Ocidental se encontra no bairro Judeu e é precedido por uma ampla praça. Equivalente a uma sinogoga, o Muro, no entanto, não permite que homens e mulheres ocupem o mesmo espaço - sendo separados por uma divisória (uma espécie de mureta). Para ter acesso ao Muro Ocidental, os homens devem cobrir sua cabeça (quipás - uma espécie de boina, são distribuídos gratuitamente aos visitantes); já as mulheres não podem ter pernas nem o colo à mostra. Outro costume do local é deixar entre as frestas do Muro um bilhete com pedidos, rezas, desejos ou agradecimentos (os papelotes, todavia, são periodicamente recolhidos e incinerados). Para quem quiser conhecer mais a respeito do antigo Templo de Salomão é disponibilizado o acesso a túneis, via praça principal, que contam - pelo subterrâneo - outros trechos desta história.
Chegando ao bairro Muçulmano, que representa mais de 60% da população permanente da cidade antiga, o visitante perceberá um grande contraste em relação ao bairro Judeu. As vielas são mais movimentadas e repletas de vendedores capazes de comercializar de tudo. Ali, o cheiro dos narguilés se mistura a temperos e perfumes que, entre as crianças que correm atabalhoadas em meio a multidão, parecem se entrenhar na memória de quem cruza o mítico cenário.
O Domo da Rocha resplandece na chamada Esplanada das Mesquitas e está encravado no bairro Muçulmano, podendo ser visitado por todas as nacionalidades e crenças; no entanto, apenas muçulmanos podem entrar na Mesquita Al-Aqsa. Às mulheres valem as mesmas regras de vestimenta em relação ao Muro Ocidental; já os homens não precisam da quipá, porém, devem vestir calças compridas.
Na direção do bairro Cristão, construído ao redor da Igreja do Santo Sepulcro, nova mudança de 'atmosfera'. Ali vivem e convivem católicos, ortodoxos e outros praticantes do cristianismo. Por lá podem ser encontrados cerca de 40 locais sagrados e onde - respeitando a possível discordância existente em relação ao 'Jardim da Tumba' - estariam os 3 mais importantes pontos de peregrinação cristã do mundo: o lugar onde acredita-se que Jesus fora crucificado, o lugar no qual seu corpo foi sepultado e, imediatamente na entrada da Igreja do Santo Sepulcro, a pedra da unção, onde Maria teria recebido o corpo de Jesus após Ele descer da cruz.
No bairro Cristão podem ser vistos padres e batinas, além de infindável número de peregrinos vindos de diversas partes do globo. A legião de brasileiros que visita Jerusalém, e especialmente a cidade antiga, impressiona - sendo que o português pode ser facilmente ouvido nas esquinas e becos do local. Há muitas mensagens religiosas, lembrancinhas e badulaques de todos os tipos à venda.
O menor do bairros é o Armênio, onde se estabelecem cerca de 5% dos residentes da cidade antiga. Há famílias armenas, no entanto, que moram lá há mais de 2 mil anos. Entre as principais atrações estão a o Patriarcado Armênio e a Igreja de São Tiago, construída sobre as ruínas de uma igreja bizantina.
Saiba mais
- Enquanto uma Lei isralense de 1980 sustenta que Jerusalém é a capital indivisivel do Estado de Israel (incluindo nela a cidade antiga), os Palestinos seguem sua luta para garantir que a cidade antiga de Jerusalém seja a futura capital do país que eles ainda sonham em constituir - impasse que dificulta as negociações de paz entre os dois povos.
- A Via Dolorosa, rota pela qual Jesus carregou a cruz, percorre 14 estações, começando onde hoje é a Porta dos Leões e termina na Colina do Calvário ou Gólgota, na Igreja do Santo Sepulcro. Nove das estações estão ao longo dos 500m da Via Dolorosa, estando as 5 últimas dentro da Igreja do Santo Sepulcro.
- Israel 'tomou' o Muro Ocidental das mãos da Jordânia durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967 e anexou a cidade histórica ao seu território. A ONU, porém, não reconhece tal ação.
- A população total de Jerusalém - incluindo, claro, a moderna 'cidade nova' -, ultrapassa 1 milhão de habitantes.
- A divisão da cidade antiga de Jerusalém em 4 bairros passou a ser adotada por volta do século 19.
- O centro histórico de Jerusalém foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1981.
- Para quem quiser ter uma vista privilegiada da cidade antiga de Jerusalém, é recomendável uma caminhada pelas 'Ramparts Walk'.
- Ao longo do dia, como prevê o Alcorão, podem ser ouvidas, via auto-falantes espalhados pela cidade antiga, as 5 rezas mandamentais do Islã (antes do nascer do sol, meio-dia, tarde, no por do sol e à noite).
- Outro ponto legal de ser visitado na cidade antiga é a Torre de David - citadela defensiva da cidade próxima ao Portão de Jaffa.
- Foi devido a morte de Jesus e a institucionalização da fé cristã pelo imperador Constantino, no século VII, que Jerusalém ganhou a importância que tem hoje para o mundo cristão.