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Geral

“Sem chão” para viver

Falta de piso tátil nas calçadas de Erechim dificulta a rotina e às vezes põe em perigo a vida de quem não enxerga

Um dos pontos críticos no centro da cidade
É perigoso e difícil andar em frente a Feira do Produtor e Mercado Popular
“A gente vai porque tem que ir, porque não tem como ficar parado, se obriga a ir"
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

De olhos abertos já se corre risco para atravessar a rua, imagine agora de olhos fechados. Ninguém tem dúvida de que é muito perigoso. Quando não se consegue enxergar, a vida passa a ser construída de outro jeito, no entanto, ainda assim, tem direito de ser vivida. Para o deficiente visual, a maneira de se orientar na cidade é pelo seu bastão, seguindo o piso tátil, pequenos pontos no chão alinhados que desenham o trajeto a ser seguido. Essa é a realidade de erechinenses com deficiência visual. Quando o piso tátil acaba, inicia uma batalha contra o vazio e, literalmente, o deficiente visual começa a catar as migalhas do espaço nas calçadas e ruas para tornar a sua vida viável.       

Segundo o presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Erechim (Adeve), Antônio Marcos Pumi, os passeios de Erechim ainda deixam muito a desejar para os deficientes visuais, muitos locais não têm ainda o piso tátil e acesso para cadeirante. “Para nós é indispensável o piso tátil, porque nos desvia de lixeiras, postes, tudo que for obstáculo. É claro onde está sendo feito corretamente”, afirma. Isso porque, explica Pumi, tem lugares em que o piso tátil não foi feito de forma certa, aí ao invés de ajudar prejudica o deficiente visual.

Ele cita o exemplo da rodoviária, local de uso público com grande movimento que não tem piso tátil de acesso, e o deficiente visual não consegue chegar até lá dentro sem antes passar por muitos obstáculos. “As travessias na rodoviária são muito complicadas”, observa.

Segundo Pumi, o piso tátil feito no Hospital Santa Terezinha ficou bom. “No Hospital de Caridade tem muitos locais que a gente se atrapalha, mas é melhor que nada”, comenta.

Conforme ele, outro ponto ruim na área central da cidade, que envolve um órgão público, é a agência dos Correios da Rua Nelson Ehlers que não tem piso tátil. “Por que não fazem aquela quadra dos Correios?”, questiona.  

Um local perigoso para o deficiente visual transitar, bem no centro da cidade, fica na Avenida Presidente Vargas, atrás da Catedral, observa Pumi. “Ali é complicado atravessar, é só por Deus e com a ajuda dos outros”, destaca.

O passeio em frente à Feira do Produtor é outro ponto que traz perigo para quem tem deficiência visual, enfatiza Pumi, isso porque não tem piso tátil e muito trânsito de veículos.

Fora da área central da cidade, a Rua Neri Reichmam, é outro exemplo de lugar difícil para o deficiente visual caminhar porque não tem passeio e nem piso tátil, com movimento de muitos carros e caminhões em frente à sua casa. Quando ele sai tem que ir para a rua e a sua bengala não capta os caminhões. “Por mais que tente, a gente entra embaixo dos caminhões, é como motoqueiro, o para-choque é a nossa cara”, explica.

Pumi enfatiza que ainda hoje é difícil se locomover em Erechim. “A gente vai porque tem que ir, porque não tem como ficar parado, se obriga a ir. Ainda falta fazer bastante coisa, tanto para nós quanto para os cadeirantes, porque tem locais inacessíveis”, ressalta.

O presidente da Adeve lembra que não nasceu com deficiência visual, ficou assim depois de um acidente quando tinha 17 anos. Estava indo para um jogo de futebol de fim de semana e perdeu a visão. “Me adaptei e vivo assim há 26 anos. Ao longo do tempo qualquer um pode perder a visão ou ter uma deficiência, ninguém está livre disso, de um acidente, um tombo ou perder um membro”, comenta.

Ele elogia os motoristas, cobradores e fiscais da empresa de transporte público de Erechim, que auxiliam muito os deficientes. “Isso é fantástico, é muito importante a ajuda deles”, ressalta. E acrescenta, “outro dia estava fora do ponto de ônibus, fiz sinal com a bengala e o motorista parou para entrar. Soube que eu estava esperando para pegar o ônibus”.

Poder público

Segundo o Chefe de Divisão de Passeios Públicos de Erechim, Deni Sperotto, todo passeio é de responsabilidade do proprietário, assim como, a colocação do piso tátil. Deni explica que, segundo lei municipal, a área central da cidade tem prazo para se adequar até 2020. No entanto, Erechim tem ainda muitos problemas a serem enfrentados.

Ele ressalta que a sua preocupação como Chefe da Divisão de Passeios são com os deficientes visuais, físicos e idosos. Conforme Deni, os pontos principais para o passeio ficar regularizado é ter piso tátil, acesso para cadeirantes na esquina e não deixar degraus ao longo da calçada.

Deni ressalta que todo dia está disponível para orientar o cidadão a fazer o passeio da forma correta. “Qualquer dúvida é só ligar na prefeitura que a gente vai ao encontro dele”, conclui.

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