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Geral

O Dia D, 75 anos depois

Tão logo Hitler assumiu o poder na Alemanha, na década de 1930, a bandeira com o símbolo Nazista pas
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Os olhos de boa parte do mundo estão voltados à Europa que nesta quinta-feira – 6 de junho – lembra  o famoso ‘Dia D’, quando há 75 anos tropas aliadas desembarcaram na Normandia, no norte da França. A ação é considerada decisiva para o desfecho da Segunda Guerra Mundial, 11 meses depois – com consequências percebidas até hoje, inclusive por aqui.

O que foi o ‘Dia D’ e quem participou?

Reconhecida como a maior intervenção militar executada simultaneamente por céu, terra e mar, a Operação Overlord, a partir do o ‘Dia D’, foi uma ação liderada pelo Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, com o apoio de tropas francesas, contra as forças alemãs estabelecidas na costa da França marcando o início da liberação da Europa Ocidental, então ocupada pelo governo Nazista de Adolf Hitler.
Cerca de 7 mil navios e embarcações estiveram envolvidas, tendo como ponto de partida Picadilly Circus, na Inglaterra, empregando 156 mil homens e 10 mil veículos com destino a cinco praias ao longo de trechos selecionados cuidadosamente no litoral francês – num planejamento que se estendeu por cerca de um ano.

As praias de Utah e Omaha (que registrou as maiores perdas) foram acessadas por volta das 6h30min por combatentes dos EUA; Gold (Ouro) e Sword (Espada) ficaram sob a responsabilidade dos compatriotas de Winston Churchill, com desembarque realizado às 7h30min; enquanto os canadenses atracaram em Juno, às 8h.

Os desembarques, contudo, não teriam sido possíveis sem o apoio de forças aéreas e navais massivas; além de boa dose de dissimulação Aliada – responsável por fazer com que os nazistas acreditassem que a ação ocorreria em outra região da costa francesa, onde mantiveram por um tempo longo de mais boa parte de suas forças.

Apesar do êxito da ação, somente no ‘Dia D’ cerca de 4,4 mil soldados do Reino Unido, EUA e Canadá morreram e outros 9 mil ficaram feridos ou jamais foram encontrados. Pelo lado alemão, as perdas não são conhecidas, mas estima-se entre 4 e 9 mil homens. Milhares de civis franceses também pereceram, principalmente como resultado dos bombardeios realizados pelas forças Aliadas.

Você sabia?

# Inicialmente, o ‘Dia D’ estava previsto para 5 de junho, considerada a data mais propícia por combinar, em tese, mar calmo, lua cheia e maré baixa. Todavia, uma tempestade atrasou o plano em 24 horas.

Como foi a Operação

As tropas aerotransportadas foram deixadas atrás das linhas inimigas na madrugada, enquanto milhares de navios se juntaram na costa da Normandia para o ataque principal.

Os líderes militares alemães acreditavam que os ataques iniciais eram apenas uma tática diversionista. Até o fim daquele 6 de junho, por volta da meia noite, os Aliados haviam assegurado as cabeceiras de praia e avançado por Gold, Juno, Sword e Utah.

O que aconteceu na sequência?

Embora tivessem conseguido uma posição na França no final do ‘Dia D’, os Aliados seguiram por algum tempo ameaçados de serem empurradas de volta ao mar. Para garantir posições, precisaram seguir construindo forças, via reforços, mais rápido do que os alemães poderiam suprir suas defesas.

O progresso através das ruas estreitas e cidades firmemente defendidas da Normandia foi lento, quando entrou em campo, definitivamente, a superioridade aérea Aliada – com a qual foi possível superar a resistência nazi; embora o custo em vidas tenha sido alto.

Na época em que Paris foi libertada, no final de agosto de 1944, cerca de 10% dos 2 milhões de soldados Aliados que haviam chegado à França estavam mortos, feridos ou desaparecidos.

Enquanto isso, na Inglaterra as rádios tocavam a música ‘When the lights go on again (Quando as Luzes voltarem a acender-se), tornada popular por Vera Lynn, uma das mais célebres cantoras britânicas dos anos 40 – que evocava o espírito de esperança na vitória sobre as forças do Eixo, lideradas por Hitler.

Efeitos da Guerra no Brasil – e em Erechim

A mesma rádio que repercutia o sucesso de Vera Lynn servia para informar o mundo dos acontecimentos no campo de batalha.

Em Erechim – que teve sua primeira emissora radiofônica constituída apenas em 1947 – as informações chegavam pelas ondas da Guaíba, de Porto Alegre (ouvida por muitos de forma clandestina), ou pelas páginas do jornal ‘A Voz da Serra’, de Estevam Carraro, que já na edição de 7 de junho repercutia o ‘Dia D’ e suas primeiras consequências, num feito jornalístico digno de aplausos.

Em sua página inicial, mais do que informar a respeito dos primeiros movimentos dos Aliados, ‘A Voz da Serra’ estampava uma espécie de editorial, reproduzido a seguir:

“Todo o mundo civilizado exulta com a invasão da Fortaleza da Europa na madrugada de 6 do corrente pelas gloriosas forças das Nações Unidas.

A formidável campanha, meditada e empreendida por grandes cabos de guerra, é o rebate de libertação para os povos que sofreram os horrores das hordas nazistas e é o sentimento de Vitória das Forças Puras, defensora do Direito e da Razão. É, outrossim, o marco inicial da Vitória sobre a opressão e o barbarismo.

A cooperação do Brasil para a estrutura de derrota do nazismo foi imensa e de suprema e decisiva importância.

Mais que quaisquer outros sentimentos, que falem os fatos – as bases do Nordeste, sobressaindo-se Natal, sem as quais não teria sido possível a invasão da África; a borracha amazônica suprindo a enorme necessidade de pneus e outros artefatos; as forças aladas da Força Aérea Brasileira, em serviços de patrulha e de campanha; o Corpo Expedicionário com suas unidades adextradas (sic) para a luta imediata, são todos esses fatores ponderosíssimos que o Brasil ofereceu à causa da Justiça e da Liberdade.

O glorioso pavilhão auri-verde tremula vitorioso nas asas heróicas que despejaram suas cargas fatais no prelúdio e na sustentação da invasão.

Por tudo isso, é com imenso jubilo que o povo brasileiro, reunido em torno de seu grande chefe, o eminente snr. (sic) Getúlio Vargas, acompanha, com o mais justificado orgulho, a marcha gloriosa dos Exércitos da Libertação que esmagando o inimigo cruel estabelecem um primado de respeito às liberdades populares e de dignidade entre os povos”.

O professor e historiador Enori Chiaparini lembra de efeitos, feitos e consequências do período da Segunda Guerra no mundo, no país e também em Erechim e região.

Em âmbito internacional, Chiaparini pontua que o combate foi um processo global com impactos transformadores nas relações sociais, políticas e econômicas, inclusive das áreas distantes das frentes de combate. Avanços, no pós-guerra, foram percebidos em setores como saúde e transporte. A bomba atômica – que impactou do ‘mendigo ao papa’, mostrou que o homem poderia ser o principal causador da destruição do planeta. De quebra, o fim do conflito deflagrou o embate entre Estados Unidos (capitalista) e União Soviética (comunista), no período caracterizado como ‘Guerra Fria’ e que chegou ao fim mais de quatro décadas depois.

No contexto tupiniquim, o historiador faz referência ao apoio do presidente Getúlio Vargas às forças Aliadas, a partir de aproximação com os EUA – decisão que impacta até hoje as relações (em caráter subserviente) do Brasil com Tio Sam. O conflito teve consequências, também, na consolidação da engenharia institucional de regulação estatal das relações de trabalho da ‘Era Vargas’ e no processo de industrialização nacional.

Localmente, o historiador narra passagens que misturam apreensão, tensão e personagens marcantes. Entre estes elementos, Enori Chiaparini pontua prisões de moradores de Erechim que, nascidos na Itália e Alemanha, acabaram trancafiados no porão do atual prédio da prefeitura (antigo presídio) pelo simples fato de se comunicarem na língua materna – o que era proibido pelo presidente Vargas. Ouvir rádio também era algo vetado pela legislação vigente no país, o que ocasionou o recolhimento de dezenas de aparelhos e de seus donos para os porões do palácio.

O racionamento/falta de combustível e outros bens de primeira necessidade também castigava a cidade – quando se fez perceber a importância do padre Benjamin Busatta que, em viagem à Capital do Estado, trouxe sal e querosene a ‘Campo Pequeno’, minimizando sofrimentos e angústias.

Conta o professor Chiaparini, ainda, que um alemão, morador das imediações do bairro São Cristóvão, ‘muito fanfarrão, alegre e bem desabusado’ tinha uma carretinha e, ao deslocar-se para o centro da cidade, fazia saudação à sua pátria; até que foi preso e conduzido de trem a Porto Alegre. Lá lhe arrancaram os bigodes com alicates, fio por fio.

Questionado se a história registraria casos de perseguição dos descendentes de Hitler a judeus e outras minorias locais, Chiaparini diz não ter notícia deste tipo de acontecimento, embora na década de 30 a bandeira nazista tremulava no alto do prédio que servia de sede para o vice-consulado alemão, na Avenida Maurício Cardoso.

Centro de Espionagem

Erechim era sede de um centro de espionagem dos movimentos dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, sob os cuidados do major Luiz Vieira Fagundes. Nomeado pelo coronel Py como chefe do serviço secreto, delegado de polícia e delegado de trânsito, Fagundes tinha plenos poderes para exercer seu trabalho. No entanto, se por aqui o resultado da espionagem não foi dos mais relevantes, ele viria a descobrir em Iraí uma cédula nazista ‘de peso’, num hotel.

Em entrevista a Chiaparini, Luiz Vieira Fagundes conta que, a partir de suas informações, a Polícia prendeu o dono do hotel, envolvido no esquema, e um segundo elemento (capitão do exército alemão). Também foram apreendidos materiais de propaganda nazista, remetidos ao DOPS, em Porto Alegre. Tal material teria servido para orientar o presidente Getúlio Vargas nos rumos a serem tomados em relação à posição brasileira na Segunda Guerra, eis que o país, naquele momento, ainda não havia decidido se lutaria a favor ou contra o Eixo.

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