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Geral

Para biólogo, as atividades urbanas e domésticas são mais prejudiciais à qualidade da água

Biólogo e professor da Universidade Regional Integral (URI) Luiz Hepp, que compõe a equipe do Labora
Por Amanda Mendes
Foto Amanda Mendes

A qualidade da água desperta preocupação em diversos setores da sociedade, ou, pelo menos, deveria, considerando sua importância na dinâmica e conservação dos seres vivos. A interferência das ações humanas está afetando as dimensões sociais, de saúde pública e, sobretudo, ambientais. Para entender melhor o alcance da intervenção humana nos rios da região Alto Uruguai, a reportagem do Jornal Bom Dia conversou com o biólogo e professor da Universidade Regional Integral (URI) Luiz Hepp, que compõe a equipe do Laboratório de Biomonitoramento da instituição. 
Na oportunidade, o docente revelou dados sobre a qualidade da água, os principais impactos das ações humanas e como podemos reverter o quadro de degradação dos recursos naturais. 
Jornal Bom Dia: Atualmente, como o professor analisa a qualidade da água na região? 
Luiz Hepp:
De maneira geral a qualidade de água próxima aos centros urbanos está muito complicada, considerando que não temos sistemas de tratamento de esgoto. Assim, a carga orgânica que retorna aos rios diminui sua qualidade. Já nas zonas rurais, o uso de produtos químicos, que precisariam ser controlados e minimizados, e, a remoção das matas ciliares, estão impactando de maneira negativa, pois são essas matas que protegem os corpos hídricos, ou seja, sem essa proteção, o rio estará sujeito a receber diversos tipos de materiais.  
Todavia, a qualidade de água dos nossos rios varia muito em questão de volume hídrico e características diretas ou indiretas das atividades antrópicas. Os estudos indicam uma qualidade que varia de aceitável para fraca. Nós temos rios em boas condições e, por outro lado, rios em péssimas condições, então se fosse fazer uma média, no geral estaríamos em regular, mas devemos ficar alertas para algumas questões. 
Jornal Bom Dia: Por exemplo? 
Luiz Hepp:
Principalmente o tratamento de esgoto e a manutenção da mata ciliar. Mas a região tem fatores que são benéficos, por exemplo, nossos rios são pequenos, que pode ser observado como algo ruim, em termos de quantidade. Contudo, como são pequenos eles têm a profundidade baixa, com isso, a correnteza promove um choque das pedras, que resulta em aborbulhamento constante da água, produzindo uma oxigenação que ajuda a degradar a matéria orgânica e melhora os índices de qualidade. 
Jornal Bom Dia: Quais são as atividades antrópicas que mais afetam os rios do Alto Uruguai? 
Luiz Hepp:
Em nossa região três ações estão alterando os recursos hídricos: a agricultura, as indústrias e as atividades urbanas vinculadas ao dia a dia. 
No caso das atividades agrícolas, talvez o grande problema seja o uso excessivo de agrotóxicos e de substâncias químicas, que inevitavelmente acabam chegando ao solo e, consequentemente, na água. 
Já nas indústrias a legislação é bem rigorosa, prevendo estações de tratamento de efluentes. Dessa forma, usam a água nos processos industriais seja da rede pública ou de lençóis freáticos, mas tratam e devolvem para o corpo receptor. E todo esse processo é regulamentado e fiscalizado. 
Já as ações cotidianas que devem despertar mais preocupações, pois estas não possuem sistemas de tratamento. E essa é a grande diferença, abrimos a torneira e pegamos a água limpa, mas quando devolvemos ela cai no ralo com resíduos em forma de esgoto. 
Quando falamos em atividades urbanas e domésticas, esse é o grande problema, porque os resíduos gerados são ricos em matéria orgânica que tem uma capacidade de deterioração muito forte da qualidade de água e a falta de tratamento de esgotos impossibilita esse tratamento. 
Contudo, é preciso ressaltar que a legislação brasileira define que os sistemas de tratamento de resíduos não devem eliminar todo o problema, mas minimizar ao máximo. 
Jornal Bom Dia: Como a interferência humana tem afetado a natureza? 
Luiz Hepp:
O que mais tem chamado a atenção é a perda de serviços ecossistêmicos ou ambientais que a natureza presta. Por exemplo a polinização, a qual é fundamental para a fecundação e produtividade das plantas, mas se usarmos pesticida, o que faz? Mata os insetos, que são os polinizadores.  
São serviços ambientais, como a água, que estamos acabando intencionalmente ou não, até por desconhecimento ou descuido, e já podemos observar as consequências: alterações climáticas, índices muito altos de doenças, entre outros. 
Jornal Bom Dia: Na sua opinião, se as atividades urbanas e domésticas são as que mais afetam, por que a preocupação com os recursos hídricos ainda não está tão presente na população? 
Luiz Hepp:
Muitas vezes as pessoas não se preocupam com isso porque pegamos a água da torneira e está tudo limpo. Mas temos que levar em consideração que a barragem de captação da Companhia Rio-grandense de Saneamento (Corsan) recebe água de rios, que estão em uma bacia hidrográfica que pode estar sendo impactada pelas nossas atividades. 
Quando reclamamos da água, nunca paramos para pensar que o grande problema está sendo gerado por nós. Eu diria que antigamente a população era desinformada mas hoje há acesso às informações, o que acontece é que não estamos usando para ter esse cuidado, esse olhar mais criterioso com as questões de meio ambiente. 
Jornal Bom Dia: O que podemos fazer em nosso dia a dia para minimizar os impactos de nossas atividades? 
Luiz Hepp:
A primeira prática em termos do cotidiano é não desperdiçar e pensar alternativas de otimização. Não tem necessidade de lavar a calçada todos os dias, por exemplo. Quando vai lavar a roupa é bom recolher a água no tanque para lavar a calçada, ou seja, tem fins menos nobres que podem reutilizar a água. As pessoas que tem máquina de lavar louça, ela consome muita água, então não a utilize se não estiver cheia, para quando for usá-la esteja com sua capacidade máxima. Além disso, é importante tomar banho mais rápido e escovar os dentes com a torneira fechada. Sobretudo, a melhor alternativa é racionar, usar com cuidado e sabedoria. 
Outra questão que deve ser destacada é que os corpos hídricos não obedecem aos limites políticos, eles são de todos. Então, é nossa responsabilidade esse cuidado. 


Saiba mais sobre o Laboratório de Biomonitoramento da URI
Atualmente, o laboratório conta com 13 pesquisadores entre estudantes de graduação, mestrandos e professores doutores. De acordo com Hepp, há mais de 20 anos o espaço visa a produção de conhecimento científicos, bem como, a formação de recursos humanos. 
As pesquisas revelam como se comportam os recursos hídricos da região, para assim traçar alternativas de recuperação e conservação da água. Sobretudo, os conhecimentos produzidos têm por objetivo fundamentar as decisões de governança, além de aproximar os gestores públicos e a comunidade com a Universidade. 

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