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Geral

A Ironia do Sapateiro de Bruxelas

Alcides Mandelli Stumpf.
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

 

A ironia é figura de retórica largamente aplicada pelo Sapateiro de Bruxelas, que, por vezes tantas, diz o contrário do que realmente quer dar a entender. Desse modo faz uso de palavras ou frases no sentido oposto ou diverso do que deveria realmente empregar; uma espécie de bisca, nos mais das vezes sutil, outras provocadoras e mordazes.

Ao professar esse meio paradoxal de comunicação, as mensagens são claras para uns e obscuras para outros; inteligentes para alguns e indelicadas para tantos mais.

Embora o calçadista não pratique a zombaria para ofender ou maltratar ninguém, muitas vezes fere e atinge alvos indevidos. Suas falas funcionam qual balas perdidas: se assimiladas pelos maus, é entendida como natural; se literalmente interpretadas pelos mansos, sugere incontida deselegância.

Seu humour sense tende a ser malvisto entre os sisudos e mal-amados. No entanto é bem aceito e festejado junto aos alegres amigos de café. Soa diferente, amável e discreto, como um sorriso na hora certa ou uma mudança brusca no olhar.

O artesão, leitor voraz, diz admirar Tolstói, Eça de Queiróz e Machado de Assis entre outros autores sagazes. Para ele, Eça soube criticar a sociedade com deboches, sarcasmos e raras artimanhas de narrativas. “A mesma pessoa pode ser um vilão ou um anjo, um sábio ou um idiota, ter força ou fraqueza” - segundo Tolstói.

Lima Barreto, contemporâneo e de algum modo rival de Machado, era leve na forma e incisivo no conteúdo. Por outra, o Bruxo do Cosme Velho, com refinada erudição tergiversava sobre a infâmia da escravidão e as mazelas políticas da época.

Mas a seu ver nenhum cronista de costumes se iguala ao impiedoso Nelson Rodrigues com seus dramas e humores. Rodrigues criou tipos célebres: O Idiota da Objetividade, O Cretino Fundamental, A Granfina de Nariz de Cadáver entre outros ícones da sátira nacional.

O Sapateiro não esquece de elogiar Antônio Maria, Stanislaw Ponte Preta e Carlos Heitor Cony, a nata dos intelectuais cafajestes do Rio de Janeiro nos anos dourados.

O nosso escritor maior, Gladstone Osório Mársico, é igualmente festejado pelo seu texto impecável que alia a crítica social à reflexão e ao riso.

Embora não sendo psiquiatra, desconfio que no fundo, bem lá no fundo, o velho Sapateiro não passa de um ser dotado de extrema autocrítica. Usa a ironia para identificar e mitigar seus defeitos e fraquezas – o que aliás não é incomum nessas personalidades neuróticas.

Enfim, segundo o Mestre, os contrastes tornam os acontecimentos mais aceitáveis.

Para terminar a conversa cita Proudhon em alta e provocante voz: “Ironia verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição e do poder (...) do fanatismo dos reformadores de superstição deste grande universo, e da adoração de mim mesmo”!

 

Alcides Mandelli Stumpf

Médico   

 

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