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‘Se estão indo dessa vida em solidão, sem um último adeus’

Registro é da médica erechinense Paola Pasquali, que está encarando a COVID-19 na linha de frente na Espanha

Paola Pasquali realizando intervenção cirúrgica de traqueostomia em paciente covid em leito de UTI.
Por Salus Loch
Foto Hank Levine/Divulgação

Depois de se formar em Medicina na Universidade de Caxias do Sul (UCS) e fazer residência no Núcleo de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço de São Paulo, a erechinense Paola Pasquali optou por construir sua trajetória profissional fora do Brasil. Por sete anos, a médica atuou na Alemanha e, agora, mora na Espanha - para onde foi buscando uma vida mais ‘simples, tranquila e alegre perto do mar’.

A tranquilidade, contudo, foi rompida após o surto do novo Coronavírus na Europa e, especialmente, na Espanha - país com o terceiro maior número de mortes causadas pela COVID-19 (mais de 18,5 mil, até a quarta-feira (14)) em todo o mundo. Nessa entrevista exclusiva, Paola conta um pouco como são seus dias e defende as medidas de isolamento social.

 

BD - Como é o dia a dia de um médico na Espanha?

Paola - A situação na Espanha não é homogênea. As Comunidades Autônomas de Madrid e Catalunia estão acumulando quase 50% dos casos. Onde eu vivo, na Comunidade Valenciana, conseguimos evitar o colapso do sistema sanitário e temos menos óbitos porque respondemos antes e com mais eficiência ao estado de alarme e distanciamento social. Há cerca de duas semanas, a situação era angustiante, a medida que os pacientes chegavam em urgências, os leitos foram sendo ocupados, e em menos de uma semana os hospitais já estavam lotados. Ninguém media esforços ou contabilizava as horas extras, porque essa pandemia nos invadiu como um tsunami... E nessa hora, todos dormem menos, trabalham mais, se esquecem de comer. ‘Sobrevivemos’ aos dias… Todos vivemos uma situação nova e é impressionante como diariamente  aprendemos algo sobre a doença. Aprendemos também a lidar com sentimentos fortes e inevitáveis e como manter o equilíbrio e a serenidade que temos que transmitir aos pacientes. E todos nos fortalecemos uns aos outros como podemos. São tempos de muita criatividade e solidariedade.

 

BD - Um dos sintomas da doença é a perda do olfato e do paladar. Você, como otorrino, tem encontrado muitos pacientes nesta situação? Qual é o perfil deles?

Paola - Comecei a receber pacientes com essa queixa já em fevereiro e isso chamou minha atenção porque era mais frequente que o normal. Até então, não relacionávamos com o coronavírus. Somente em março foi publicado um estudo confirmando que a perda súbita do olfato pode ser o primeiro ou o único sintoma da covid-19. Afeta principalmente jovens, adultos e crianças. Deixar de sentir o cheiro ou o gosto do café, por exemplo, deve servir de alerta como possível evidência do vírus. Nestes casos, a conduta é respeitar o isolamento social como se fosse um paciente testado positivo e somente procurar os serviços de saúde em caso de piora ou agravamento dos sintomas, febre alta ou falta de ar. A perda do olfato é reversível e recuperável conforme o sistema imunológico combate o vírus.

 

BD -  Por que a Espanha chegou num estágio com tantos casos e mortes? O governo demorou para agir?

Paola - Embora o número de mortes seja elevado, conseguimos evitar a tempo o colapso total do sistema de saúde com as medidas de quarentena e planos de ação de emergência do governo. Em números reais, o percentual de vítimas deve representar cerca de 1,5% dos infectados. Mas, sim, a situação poderia ter sido menos grave se tivéssemos agido antes. O primeiro registro de paciente com covid-19 na Espanha foi nas Ilhas Canárias, em 31 de janeiro. Os primeiros casos no continente foram registrados em 24 de fevereiro, em três Comunidades diferentes (Madrid, Catalunia e Valenciana). E as medidas de estado de alerta e distanciamento social só foram impostas a partir de 14 de Março! Hoje, se sabe que aprovando as medidas 4 dias antes se teriam evitado 3 de cada 4 casos. Além disso, indo na contramão das orientações da OMS, a Espanha não testou massivamente a população, como fez a Alemanha (que faz 500.000 testes por semana). Como consequência,  a elevada proporção de pessoas assintomáticas não identificadas e a relevante transmissibilidade pré-sintomática do vírus foram responsáveis pela progressão exponencial da curva. Além disso, é evidente que uma maior detecção reduz as taxas de letalidade, e se supõe que os números reais de infectados na Espanha sejam dez vezes os oficiais. Assim, a proporção de mortos por infectados também é muito menor (entre 1-2%). Temos que destacar, ainda, a estrutura etária da população espanhola: é um dos países mais envelhecidos do mundo, 20% da população tem mais de 65 anos (na Itália, 23%). São quase 9 milhões de “mayores”, o que aumenta o risco de complicações e mortalidade. E por último, os fatores culturais. Sabemos que os jovens resistem melhor ao vírus e que 75% dos contágios são produzidos nos núcleos familiares. Os espanhóis têm uma conectividade social bastante intensa entre idosos e jovens. De todas as formas, sempre que existe uma crise global como essa, se buscam explicações sociológicas, tentando comparar as diferenças culturais entre países e continentes. São respostas mais fáceis que as vezes agradam, mas devemos ter prudência porque ainda não há dados suficientes para confirmá-las.

 

BD - Você atua num hospital da rede particular, hoje, a ‘serviço’ da rede pública. Imagina que isso possa acontecer no Brasil também?

Paola - Deveria. O modelo de saúde espanhol é composto pelo setor público e privado, igual ao brasileiro. O Sistema Nacional de Saúde espanhol, assim como o SUS, se caracteriza pelo acesso universal e gratuito a todo cidadão espanhol e está formado pelo conjunto de prestações sanitárias públicas financiadas pelo Estado. Desde o início da crise, se quebrou a barreira pública-privada e todos os recursos materiais, físicos e humanos do sistema privado estão à disposição do Sistema Nacional de Saúde e do Estado em prol de superar essa situação. Hoje, o sistema privado da Espanha é responsável pelo atendimento e acompanhamento de 20% dos casos da covid-19 do país.

 

BD -  Na Itália, médicos tiveram que escolher quem tratar (e assim permitir uma chance de sobreviver). Você já se deparou com isso na Espanha? Há protocolo dizendo o que fazer?

Paola - Não precisa ir até a Itália, em muitas comunidades da Espanha, quando há duas semanas os hospitais estavam à beira do colapso, muitos médicos tiveram que tomar essa decisão. Estamos diante de um problema de saúde pública sem precedentes históricos e trabalhamos sob critérios científicos, técnicos e éticos que, em situações como essa, se modificam com um dinamismo absurdo ao passo que conhecemos mais sobre a enfermidade. Não é fácil tomar decisões justas e igualitárias e existem muitos pontos de controvérsia em tempos de pandemia. Sendo assim, temos o respaldo de um protocolo sobre a recomendação de "limitação de esforço terapêutico para pacientes com suspeita de covid-19 e insuficiência respiratória aguda" com critérios baseados nas probabilidades de sobrevivência de cada paciente e essa decisão deve ser sempre individualizada e personalizada.

 

BD - Qual é a importância das medidas de distanciamento/isolamento social tendo como base a experiência espanhola e europeia?

Paola - Estamos diante de um problema de saúde pública sem precedentes onde a responsabilidade é dever de todos os cidadãos, aceitando, assim, a limitação de certas liberdades individuais. Antes das medidas de distanciamento social cada pessoa infectada contagiava em média 2,8 pessoas por dia, e assim por diante na velocidade exponencial que todos presenciamos. Com as medidas de quarentena, isolamento dos casos positivos, fechamento de escolas e universidades, proibição de reuniões de pessoas e eventos públicos, e os bloqueios locais e nacionais se reduziu o contágio pessoal para menos de 1/dia. Estima-se que com essas intervenções foram evitadas mais de 60 mil mortes em 11 países da Europa (estudo britânico de 31 de março). Na Espanha, logramos o objetivo de não colapsar o sistema sanitário. O pico da curva chegou 10 dias antes do previsto pelos estudos matemáticos e já faz mais de uma semana que o sistema de saúde respira com menos pressão nas urgências. Os hospitais e UTIs seguem em condições de atender aos enfermos e o número de altas e curados supera 50 mil. Por fim, são muitos números. Nesse número pode estar você, sua avó ou filho. De fato, essa “gripezinha” está matando toda uma geração. E o pior não é morrer, é como se morre. Se estão indo dessa vida em solidão, sem um último adeus.

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