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Mundo

Coronavírus: o mundo depois de amanhã

Ler e ouvir Yuval Noah Harari nos ajuda a refletir sobre o que está por vir

Yuval Noah Harari, autor do aclamado ‘Homo Sapiens - Uma Breve História da Humanidade’.
Por Salus Loch
Foto Divulgação

As decisões tomadas nos próximos dias determinarão para que mundo ‘voltaremos’ quando a pandemia de coronavírus passar, descortinando, ainda, nosso futuro. Esse é o entendimento do escritor e professor Yuval Noah Harari, autor do aclamado ‘Homo Sapiens - Uma Breve História da Humanidade’.

Segundo ele, a primeira escolha deve se dar sobre a forma como vamos enfrentar a crise, que é mundial:

1 - se adotando o isolamento nacionalista, defendido por governos eleitos ou formados sob pilares populistas, que dividem sociedades em campos hostis e alimentam o ódio por nações estrangeiras e dentro de seu próprio território, negando, de quebra, o papel da ciência e da mídia, ou;

2 - se preferindo a cooperação e solidariedade internacionais, permitindo o compartilhamento de equipamentos, recursos humanos, materiais e conhecimento, somando forças para salvar vidas.

 

União de forças

"Em tempos normais, você pode governar um país com o apoio de apenas 51% da população. Mas, em um momento como esse, o governo precisa representar e cuidar efetivamente de todos", destaca para emendar que o antídoto contra a covid-19 não é a segregação, mas a união de forças num mundo globalizado.

De igual modo, segundo Harari, as nações também deverão optar se preferem superar a tempestade por meio de controle e vigilância totalitária/centralizada - um verdadeiro Big Brother, antecipado por George Orwell, em seu estupendo ‘1984’ (escrito em 1949); ou via solidariedade e empoderamento dos cidadãos, com respeito à democracia - porque (na democracia), há pluralidade de vozes e ideias.

 

Ciência e política

Sob tal ponto de vista, Yuval Harari alerta que a pandemia levanta questões tanto científicas quanto políticas. Para o historiador, temos em mãos a tecnologia e o poder econômico para superar a atual crise. "Não é a Idade Média. Não é a peste negra.             Não é como se as pessoas estivessem morrendo e não tivéssemos ideia do que as está matando e o que pode ser feito", escreveu em recente artigo. A pergunta, provoca Harari é: como usamos esses poderes? E essa, ele pontua, é principalmente uma questão política.

Animais sociais

Conforme o pensador israelense, contudo, quaisquer que sejam os resultados de nossas escolhas, continuaremos sendo ‘animais sociais’ - e aqui, por linhas tortas, repetimos Platão, para quem “as coisas mudam, mas seus modelos são eternos”.

O vírus, ao explorar a melhor parte da natureza humana - nosso instinto pela compaixão e empatia por aqueles que adoecem -, tira vantagem, observa Harari. Justamente por isso, é hora de agir com a cabeça, e não apenas com o coração; mesmo que o tempo não jogue a nosso favor. “A crise nos obriga a tomar decisões muito importantes e tomá-las rapidamente”, frisa o escritor, trazendo à mente célebre passagem de Albert Camus, que disse: “em tempos de peste (que dá nome ao seu livro escrito em 1950), em primeiro lugar a eficácia”.

Sejamos, pois, eficazes, eficientes e maduros em relação aos caminhos que seguiremos - na política e na vida.

O futuro não está predeterminado

Mantendo a lucidez em meio ao ambiente turbulento da pandemia, Yuval Noah Harari faz com que suas ideias sejam convergentes com outras vozes - do polêmico filósofo esloveno, Slavjoj Zizek, à revista The Economist. Enquanto que em relação ao primeiro a conexão se dê em virtude do entendimento de que seja necessária a criação de uma cooperação global (que Zizek chama de‘sociedade alternativa’); a afinidade com o periódico inglês nasce da certeza de que as novas tecnologias serão implantadas de forma cada vez mais veloz e definitiva. A justificativa é simples: o planeta está tendo um curso intensivo em e-commerce, pagamentos digitais, trabalho remoto e ensino a distância - sendo que a própria universidade de Harari (em Jerusálem) foi tragada 100% para o universo online em uma semana.

A mesma tecnologia, todavia, não pode ser utilizada com o intuito de trazer a ficção de Orwell à tona, uma vez que, para Harari, temos de lembrar algumas diretrizes sobre vigilância - com destaque à perspectiva de que ela possa ser usada não apenas para que os governos monitorem as pessoas; como também no sentido inverso. “Precisamos vigiar as pessoas, mas, ao mesmo tempo, as pessoas precisam vigiar o governo e ver o que ele está fazendo”, arremata.

Assim é Yuval Noah Harari, um autor que transcende universos políticos, empresariais e acadêmicos. Um pensador que merece ser lido e ouvido, antes, durante e depois do amanhã. Até porque, ele nos ensina: é preciso saber escolher, afinal, o futuro não está predeterminado.

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