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Mundo

Aracy, a virtuosa

Ao salvar judeus do nazismo durante o Holocausto, a brasileira Aracy de Carvalho Guimarães Rosa ganhou o nome de ‘Anjo de Hamburgo’. Agora, sua história vai virar minissérie

Aracy alterou documentos, distribuiu alimentos e ajudou os judeus a transferirem dinheiro para o Bra
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Cada indivíduo é responsável por suas escolhas e ações. Sob esta perspectiva, considerando o Holocausto (1933 - 1945), período no qual a Alemanha nazista exterminou de modo sistemático 6 milhões de judeus, temos:

- Os perpetradores, pessoas que executaram atos de extermínio;

- Os colaboradores, que, em troca de benefícios ou vantagens, colaboraram com os criminosos;

- Os espectadores, que assistiram quietos à barbárie;

- E os salvadores, que preferiram agir tentando preservar o maior número possível de judeus e outras minorias, colocando, muitas vezes, sua própria vida em risco.

Neste último grupo, milhares de pessoas, de diferentes origens e países, se destacam. O Museu do Holocausto de Israel (Yad Vashem) estabeleceu, inclusive, um título aos não-judeus que lutaram contra a perseguição do povo judaico durante o Holocausto. Eles são os ‘Justos entre as Nações’.

Na lista dos Justos, que soma 27.362 nomes (conforme a última atualização, realizada em 1 de janeiro de 2019), há apenas dois brasileiros: o diplomata Luiz Martins de Souza Dantas, que emitiu, na França, vistos para que judeus pudessem emigrar para o Brasil entre 1940 e 1942, e Aracy de Carvalho Guimarães Rosa.

É a respeito da história de Aracy, também chamada de ‘O Anjo de Hamburgo’, que vamos falar neste artigo.

Virtude

O que faz com que consigamos manter os valores humanos em meio ao caos e à aparentemente derrocada da civilização? Por que arriscarmos nossa posição social, emprego ou a vida em nome do próximo quando seria mais simples ficarmos passivos, assistindo a tudo?

O grego Aristóteles, nascido em 384 a.C., em seu ‘Ética a Nicômaco’, observava que, para vivermos em situação de bem-estar e felicidade (o que classificou de eudaimonia), devemos desenvolver virtudes (ele elenca 11 delas, que seriam do que a ‘mediana’ entre eventuais excessos e faltas). Com isso, atingiríamos a excelência de caráter.

Enquanto a maioria pergunta “o que devo fazer?”, Aristóteles nos faz pensar a respeito de “que tipo de pessoa devo ser?”

Eudaimonia não significa, contudo, ter uma vida fácil. Continuamos enfrentando problemas, provações e desafios. A diferença é a forma de encará-los como caminho à felicidade. Para Aristóteles, ser virtuoso é fazer a coisa certa, na hora certa, da forma certa.

Exatamente por isso, o legado de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa merece ser ampliado. Aracy, a virtuosa, fez o certo, na hora certa e, ao seu modo, da forma que julgou mais correta.

Vida e trajetória

Nascida em 1908, no município de Rio Negro, no Paraná, filha de pai brasileiro e mãe alemã, Aracy Moebius mostrou-se desde cedo à frente de seu tempo. Numa época em que o preconceito contra a mulher era latente, ela se separou do primeiro marido em 1934 e decidiu ir para a Alemanha com o filho de cinco anos. Ali, Aracy já mostrava uma das 11 virtudes de Aristóteles, o respeito próprio.

Fluente em alemão, inglês e francês, conseguiu emprego no consulado brasileiro em Hamburgo. Chocada com a perseguição aos judeus promovida pelo nazismo, especialmente depois da “Noite dos Cristais” (novembro de 1938, quando sinagogas, residências e lojas foram destruídas na Alemanha e na Áustria e cerca de 90 pessoas foram assassinadas), Aracy - invocando outras duas virtudes aristotélicas, a justa indignação e a agudeza de espírito - ignorou a Circular Secreta nº 1.127, editada pelo presidente brasileiro Getúlio Vargas, que proibia a entrada de “hebreus” em terras tupiniquins.

Com discrição e coragem (outra virtude destacada pelo sábio grego), Aracy colocava vistos de judeus sem o infame “J” no passaporte entre os papéis a serem assinados pelo cônsul-geral.

Ela, além de fornecer guarnições e todo o tipo de ajuda (inclusive financeira), também transportava clandestinamente judeus no carro da embaixada - deixando evidente mais duas virtudes: generosidade e gentileza. Comprometida em salvar o maior número possível de vidas - característica de sua agudeza de espírito (ou grandeza da alma), Aracy, contudo, em determinados momentos deixava de lado a ‘temperança’ e a ‘prudência’ (ambas reconhecidas como virtudes por Aristóteles), quando, por exemplo, batia boca com oficiais da temida Gestapo.

Nomeado cônsul-geral em Hamburgo em 1938, o escritor João Guimarães Rosa (com quem Aracy viria a se casar, em 1940) teve pleno conhecimento das transgressões da jovem, tendo dado total apoio. Em 1942, quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha - e por interesses passou a perfilar ao lado dos Aliados -, Guimarães Rosa e Aracy foram confinados até serem trocados por diplomatas alemães no Brasil.

A solidariedade de Aracy, traço comum da amizade, outra virtude descrita por Aristóteles, não se limitou à época do nazismo. Em 1964, ela e Guimarães Rosa teriam dado refúgio no  Rio de Janeiro ao escritor Franklin de Oliveira, perseguido pelos militares. E, em 1968, em pleno AI-5, Aracy (o marido morrera um ano antes) deu guarida ao cantor e compositor Geraldo Vandré perseguido pela ditadura por causa da canção “Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores)”. No prédio, próximo ao Forte de Copacabana, moravam vários oficiais. Enquanto a repressão caçava Vandré, ele compunha no sofá de Aracy, revela a jornalista Eliane Brum. Depois, o neto do ‘Anjo de Hamburgo’, Eduardo Tess Filho, teria levado Vandré para São Paulo numa Kombi. E de lá para o exílio.

Nas telas

Discreta, sob a virtude da magnificência, ela jamais fez publicidade de seus atos. Embora a história da brasileira tenha sido retratada no livro ‘Justa. Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil’, de autoria de Mônica Raisa Schpun, e no documentário Esse Viver Ninguém Me Tira (2014)’, de Caco Ciocler, a caminhada de Aracy ainda é desconhecida da maioria dos brasileiros. Talvez por isso, a Globo promete lançar em breve a minissérie ‘O Anjo de Hamburgo’. De acordo com a assessoria de comunicação da emissora, a série é inspirada no livro de Mônica Schpun e será a primeira produção da emissora totalmente em inglês, em parceria com a Sony Pictures.

Os dez capítulos foram gravados em Buenos Aires e no Rio de Janeiro e tem direção artística de Jayme Monjardim e roteiro de Mario Teixeira, contando com elenco de diferentes nacionalidades como o brasileiro Tarcísio Filho, Peter Ketnath (Alemanha), Sivan Mast (Israel) e Izabela Gwidzak (Polônia) como Margarethe Levy. Sophie Charlotte será Aracy de Carvalho e o ator Rodrigo Lombardi, o escritor João Guimarães Rosa.

 

Homenagens
Aracy morreu em fevereiro de 2011, aos 102 anos, em São Paulo. Foi enterrada no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, ao lado de Guimarães Rosa.

Questionada sobre os motivos que a fizeram arriscar a vida para salvar a de outras pessoas, ao que respondeu: “porque era justo”.

 

Justos entre as Nações

O Yad Vashem, com sede em Israel, foi criado em 1953 para perpetuar a memória das seis milhões de vítimas judias do Holocausto. Entre os compromissos da instituição, conforme a lei que lhe deu constituição, está transmitir a gratidão do Estado de Israel aos não-judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto.

Assim, em 1963, a Autoridade da Lembrança embarcou em um projeto mundial para conceder o título de ‘Justo entre as Nações’ aos que, colocando os valores humanos acima de seus medos, dificuldades e até eventuais vantagens (advindas da complacência), ajudaram os judeus no momento mais sombrio de sua história.

Para tanto, o Yad Vashem criou uma Comissão Pública, chefiada por um Juiz da Suprema Corte, que examina cada caso e é responsável pela concessão do título. Os reconhecidos recebem uma medalha e um certificado de honra e seus nomes são comemorados no Monte da Lembrança em Jerusalém.

 

Saiba mais:

# A jornalista Eliane Brum conta que conheceu Aracy quando escreveu a reportagem ‘A Lista de Aracy’. A matéria traz relatos do que aconteceu com homens e mulheres que puderam tecer uma vida – e gerar uma descendência que não existiria sem o comprometimento e a veracidade dos propósitos (outra virtude aristotélica) defendidos pela brasileira. Um deles, Günter Heilborn, deu o nome de Aracy à primeira filha. Há um mundo inteiro que só existiu porque Aracy agiu. E teve a coragem de fazer o certo – contra quase todos.

# Em dezembro de 2019, os Correios do Brasil colocaram em circulação 54 mil selos especiais com a imagem de Aracy para homenageá-la.

# O escritor e marido, João Guimarães Rosa, dedicou seu maior sucesso literário "Grande Sertão: Veredas", publicado em 1956, a Aracy, com a seguinte menção na abertura do livro: "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro".

# Entre 1933 e 1942, 23.445 judeus conseguiram entrar legalmente no Brasil. Dezenas, talvez centenas deles (não há um número ‘oficial’ e definitivo), com a colaboração de Aracy, a virtuosa.

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