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Mundo

De Tarnów a Auschwitz, 80 anos depois

Atividades no complexo de Auschwitz iniciaram em 14 de junho de 1940 com a chegada dos primeiros 728 prisioneiros vindos da prisão de Tarnów, na Polônia ocupada. E não, eles não eram (em regra) judeus. No total, 325 sobreviveriam à guerra

A maioria dos prisioneiros de Tarnów era composta por estudantes do ensino médio e universitários
Por Salus Loch
Foto Divulgação

A ocupação alemã na Polônia, de 1939 a 1945, foi um período marcado por morte e terror. No começo, as ações do III Reich se concentraram em eliminar os esforços das lideranças polonesas - ativistas políticos e sociais pré-guerra, representantes da intelligentsia e do clero, além de combatentes, profissionais liberais e estudantes. Em suma, indivíduos que poderiam organizar e liderar movimentos de resistência anti-nazista.

Para se ter uma ideia, já em setembro de 1939, logo após o exército alemão (Wehrmacht) invadir a Polônia, os grupos de operações especiais (Einsatzgruppen) começaram a realizar prisões em massa e assassinatos, inicialmente de acordo com listas (criadas antes da guerra) daqueles que deveriam ser ‘anulados’.

Nesta toada, e com a violência cada vez mais presente, em junho de 1940 começaram a ocorrer as primeiras deportações para o campo de Auschwitz. Segundo o Museu de Auschwitz, a ‘leva’ inicial de 728 prisioneiros veio da prisão de Tarnów, em 14 de junho de 1940. Em seguida, dois transportes do Distrito de Cracóvia no Governo Geral (GG) saíram de Wiśnicz Nowy (20 de junho de 1940) e da prisão de Montelupich (18 de junho de 1940). Outros 271 prisioneiros foram transportados entre o fim de junho e início de julho de 1940 do campo de trânsito de Sosnowiec, no distrito de Katowice.

A seguir, vamos falar um pouco mais sobre os primeiros prisioneiros de Tarnów, que, há 80 anos, marcaram o início das operações do ‘campo da morte’, local em que, ao longo da Guerra, mais de 1,1 milhão de vidas seriam abreviadas em nome do ódio, preconceito e de um projeto de poder liderado por Adolf Hitler e seguidores que precisa ser conhecido, falado e discutido, para jamais ser repetido.

Papel fundamental

A prisão de Tarnów desempenhou função fundamental no Governo Geral. O espaço servia como espécie de ‘ponto de coleta’ para encarcerados de várias prisões e centros de detenção localizados no sul da Polônia, como Montelupich (Cracóvia), Palácio (Zakopane), ou àqueles localizados nas cidades de Rzeszów, Jarosław, Przemyśl, Nowy Sącz, Sanok e Jasło.

De 14 de junho de 1940 a 1º de julho de 1944, estima-se que mais de sete mil homens e mulheres tenham percorrido, na condição de prisioneiros, os cerca de 150 km entre Tarnów e Auschwitz.

Antes da chegada ao campo, porém, o grupo que inaugurou os transportes passou semanas com fome, sem condições de higiene e inseguros quanto ao futuro. Conforme o Museu de Auschwitz, embora alguns dos carcereiros poloneses permitissem contato limitado com as famílias, os prisioneiros só sobreviveram graças ao contrabando de alimentos, remédios e roupas íntimas ou correspondências (que traziam informações valiosas).

Até 14 de junho de 1940, muitos esperavam ser deportados para trabalhar na Alemanha, enquanto alguns sonhavam com a liberdade. O primeiro transporte para Auschwitz lhes trouxe outro destino.

Quem eram os prisioneiros de Tarnów

Conforme o Museu de Auschwitz, a maioria dos prisioneiros de Tarnów era composta por estudantes do ensino médio e universitários, soldados presos no outono de 1939 e no inverno/primavera de 1940 na Eslováquia e em cidades do sul da Polônia, enquanto tentavam atravessar a fronteira polaco-eslovaca. Os alemães os chamavam de "turistas" ou "homens de fronteira". Juntamente com os "turistas" foram trazidos para Auschwitz membros de organizações que contrabandeavam voluntários para o exército polonês que se formava na Hungria e na França. Esses indivíduos incluíam guias de montanha e vários membros de organizações clandestinas. Atletas olímpicos, esportistas e artistas também engrossavam a lista.

Importante lembrar, ainda, que expressivo número de jovens e intelectuais chegaram ao campo como parte de operação ordenada pelo governador Hans Frank, na 'ação de pacificação' contra a Polônia. Entre os prisioneiros mais velhos aparecem professores; advogados; padres; proprietários de terras; militares; médicos; músicos; e artesãos. Pelo menos 11 presos eram de origem judaica (antes do início do extermínio em massa de judeus, eles eram direcionados a Auschwitz com base nos regulamentos existentes, usando “detenção provisória”).

No link, a lista (e o destino, em inglês) dos prisioneiros de Tarnów conduzidos a Auschwtiz:

http://lekcja.auschwitz.org/en_17_deportacje/download/Transport%20of%20Polish%20political%20prisoners%20transfered%20to%20Auschwitz%20from%20Tarnow_eng.pdf

Como Auschwtiz surgiu

Com o avanço nazista, as autoridades policiais do Governo Geral precisavam encontrar uma solução para o problema da superlotação nas prisões de Cracóvia e Tarnów. Inicialmente, a prisão de Wiśnicz Nowy, foi escolhida para receber os presos políticos. Enquanto isso, comandantes seniores da SS e da polícia inspecionavam cinco locais que poderiam ser usados para manter prisioneiros em reclusão: a prisão policial em Welzheim, além de campos em Kislau, Frauenberg e Sosnowiec, e o antigo quartel do exército polonês em Oświęcim (Auschwitz).

Ao final, a SS e do comandante da polícia Heinrich Himmler escolheram Oświęcim, no distrito de Katowice. A razão para a decisão teria sido a existência do antigo quartel do exército, bem como ligações de transporte convenientes com a Silésia e o Governo Geral.

No final de abril de 1940, Rudolf Höss, gerente de campo de Sachsenhausen (nomeado formalmente para o cargo de comandante de Auschwitz, em 4 de maio de 1940) chegou com vários homens da SS a Auschwitz para supervisionar o trabalho que permitiria a chegada dos primeiros prisioneiros poloneses . O prefeito alemão de Oświęcim, então, ordenou que o Conselho Judaico local fornecesse judeus que seriam forçados a fazer esse trabalho.

Em 20 de maio de 1940, um grupo de 30 criminosos alemães - trazidos de Sachsenhausen - chegaram a Auschwitz para atuar como ‘funcionários-prisioneiros’ do campo. O primeiro líder do grupo foi Bruno Brodniewitsch, conhecido por seu sadismo. O restante dos alemães (que receberam números de identificação de 1 a 30), também tinham a incumbência de aterrorizar os presos poloneses, maltratando-os e às vezes matando-os. Infelizmente, foram eficientes em fazer o mal.

Auschwitz seria ampliado em março de 1941. Em setembro do mesmo ano, o campo - antes da implantação da Solução Final, que previa a eliminação de todos os judeus da Europa -, seria cenário do primeiro assassinato em massa de 600 prisioneiros soviéticos e 250 poloneses com o gás Zyklon B (utilizado para fumigação) e, que acabaria escolhido, por sua ação rápida, como instrumento de extermínio no local.

Até à primavera de 1942, Auschwitz foi essencialmente ocupado por polacos não judeus. Nessa altura, começaram a chegar judeus de toda a Europa (com a Solução Final em curso), num afluxo que obrigaria à criação de Auschwitz-II, Birkenau. No complexo, até o fim da Guerra, morreriam um milhão de judeus, 70 mil a 75 mil polacos não judeus, 21 mil ciganos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e dez mil a 15 mil outros prisioneiros, entre os quais resistentes. O campo foi liberado pelo exército soviético em 27 de janeiro de 1945.

Saiba mais

# Conforme o Arquivo Memorial de Auschwitz, dos 728 prisioneiros deportados de Tarnów a Auschwitz, 325 sobreviveram à guerra, enquanto 292 foram mortos. Até hoje, o destino de 111 deles ainda é desconhecido.

# O comboio que partiu de Tarnów, em 14 de junho de 1940, parou em Cracóvia - onde o grupo ficou sabendo da tomada de Paris pelas tropas nazis, que aconteceu no mesmo dia. Um deles, Kazimierz Albin, de 17 anos à época, teria dito que a notícia fez o ‘chão dele desaparecer debaixo dos pés’, pois, antes de serem detidos, o sonho de boa parte era se juntar ao exército polonês na França, país que agora se rendia.

# Antes da Segunda Guerra Mundial, a cidade de Tarnów tinha 25 mil judeus (cerca de 50% da população total). A imensa maioria deles foi morta em campos como Belzec e Auschwitz.

# Após a invasão da União Soviética, em junho de 1941, as unidades móveis de extermínio, e posteriormente os batalhões policiais militarizados, atravessaram as linhas fronteiriças alemãs para realizar operações de assassinato em massa de judeus, ciganos, e autoridades governamentais do estado soviético e do Partido Comunista. As unidades das SS e da polícia alemã, apoiadas pelas unidades da Wehrmacht-SS e das Waffen-SS, assassinaram mais de um milhão de homens, mulheres e crianças judias, além de outras centenas de milhares de pessoas de outras etnias. Entre 41 e 44, as autoridades nazistas alemãs deportaram milhões de judeus da Alemanha, dos territórios ocupados e dos países aliados ao Eixo para guetos e campos de extermínio (seis foram construídos na Polônia ocupada), onde eram mortos nas instalações de gás criadas para cumprir esta finalidade.

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