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Geral

80 anos depois, o que nos aproxima dos dinamarqueses? E o que nos separa dos nazistas?

O resgate dos judeus da Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial é uma das passagens mais nobres, e menos discutidas, do Holocausto

judeus da Dinamarca
Por Salus Loch
Foto National Museum of Denmark from Denmark

Há 80 anos, em maio de 1940, a Alemanha Nazista invadiu a Dinamarca, que em apenas duas horas se rendeu a Hitler. Todavia, ao contrário do que aconteceu em outros países, a ação de ocupação alemã foi menos drástica ou violenta. Tanto é que o rei dinamarquês Cristiano X, membros do governo e parlamentares não abandonaram sua nação. A rendição veio acompanhada da assinatura de um acordo pelo qual a administração local se comprometeu a fazer concessões e cooperar com o Terceiro Reich - mantendo fluxo regular de produtos agrícolas e munições -, recebendo em troca relativa liberdade.

Pelo tratado, os alemães, que acreditavam na “pureza e superioridade” dos povos nórdicos, considerados “arianos”, controlariam a política externa e o rei Cristiano X não seria deposto. Igualmente, o governo poderia continuar trabalhando dentro da “normalidade possível”. O acordo também garantiu proteção política, social e jurídica aos 7,5 mil judeus (incluindo 1,4 mil refugiados), que moravam no país e representavam 0,2% da população total.

Nos anos que se seguiram, mesmo em meio a Segunda Guerra Mundial, a vida na Dinamarca, com raras exceções, seguiu um fluxo mais favorável do que na vizinha Holanda, e, especialmente, menos cruel do que nos países do Leste, onde a ocupação nazista dizimou minorias. Aliás, neste período, a maior parte das nações sob jugo de Adolf Hitler ora agiu passivamente, ora colaborou com a morte, entre outros, de seis milhões de judeus durante o Holocausto.

Em meados de 1943, no entanto, o Reino da Dinamarca foi confrontado com sua história e valores - e, mesmo podendo repetir a escolha de outros países, optou pela luz ao invés das trevas. É essa história que vamos contar a partir de agora.

 

O resgate dos judeus da Dinamarca

No início de setembro de 1943, em razão do aumento da resistência armada no país, que levou a imposição de ações mais repressivas/punitivas pelos alemães e a consequente renúncia do governo dinamarquês, a população do país escandinavo - ao tomar conhecimento de que os nazistas pretendiam deportar os judeus residentes para campos de extermínio na Polônia - deu uma das mais robustas provas de humanidade e decência da história da Segunda Guerra, na qual a neutra Suécia também tomou parte.

Antes de seguirmos, é importante lembrar que os judeus da Dinamarca tiveram seus direitos mantidos sem prejuízo em relação a propriedades e bens entre maio de 1940 a setembro de 1943. Não houve, no período, demissões, restrições à movimentação ou a obrigatoriedade do uso da Estrela de Davi; regra nos demais países ocupados. Neste contexto, foram fundamentais a recusa do governo em adotar medidas discriminatórias e o apoio aberto do rei Cristiano X à comunidade judaica.

Os alemães, por seu turno, periodicamente questionavam o status dos judeus dinamarqueses, ao que o governo respondia: “não temos nenhum problema judaico”. Na Dinamarca, os judeus eram cidadãos como os demais e assim foram tratados.

Conforme a revista Morashá, em texto de 2012, perante o firme posicionamento, Hitler sabia que não seria “oportuno” atacar a pequena comunidade judaica local, pelo menos enquanto o governo se mantivesse cooperativo.

 

Mudança de cenário

Com o fim do governo (e da cooperação), em agosto de 1943, os alemães impuseram, em todo o país, a lei marcial e o toque de recolher, prendendo os membros das forças armadas dinamarquesas. Os judeus seriam as próximas vítimas.

Em 8 de setembro, o alto escalão nazista estabelecido em Copenhague enviou telegrama a Berlim delineando planos para deportação dos judeus, solicitando um navio e que lhes fossem enviados mais homens para executar a operação. A informação, contudo, ao chegar ao adido da missão alemã, Georg Ferdinand Duckwitz, acabou nos ouvidos de lideranças social-democratas dinamarquesas, com quem Duckwitz tinha relações.

No dia 28 de setembro foi dada a “aprovação” para a deportação dos judeus, a ser iniciada em 1º de outubro - durante os dias de penitência entre Rosh Hashaná e Yom Kipur.

Ao tomar conhecimento dos fatos, Georg Duckwitz voltou a contatar os social-democratas, na figura de Hans Hedtoft, também membro do movimento de resistência dinamarquesa - que, imediatamente, fez chegar a ‘bomba’ ao líder da comunidade judaica C. B. Henriques.

No dia 29 de setembro, durante os serviços matutinos, o rabino Marcus Melchior, que se tornaria rabino-chefe da Dinamarca, tratou de compartilhar os planos nazistas com os presentes, pedindo a toda a comunidade judaica que se escondesse imediatamente. Ele também anunciou o cancelamento dos serviços das Grandes Festas.

Nesse meio tempo, o bispo luterano de Copenhague, Hans Fuglangs-Damgaard, passou a pedir abertamente aos dinamarqueses que protegessem os judeus. Ele ainda mandou uma carta de protesto às autoridades alemãs na qual afirmou, conforme reprodução da Revista Morashá:

“Onde quer que perseguições sejam efetuadas por razões raciais ou religiosas contra os judeus, é dever da Igreja Cristã protestar, pois a perseguição dos judeus é irreconciliável com o conceito do amor humanitário ao próximo (…). Raça e religião não podem jamais ser razões para privar o homem de seus direitos, liberdade ou propriedade (…). Nós devemos lutar para continuar a garantir aos nossos irmãos e irmãs judeus a mesma liberdade que preservamos mais do que a vida”.

A carta, lida pelo clero luterano em todos os púlpitos do país, no dia 3 de outubro, se alastrou como pólvora dando início a uma mobilização nacional. Para os dinamarqueses, a perseguição era uma violação à sua integridade. Na vizinha Suécia, a reação foi semelhante: o país abriu as fronteiras para acolher os judeus e divulgou pelo rádio sua decisão, encorajando, assim, o êxodo dos judeus dinamarqueses através da estreita faixa de mar que separa as nações.

 

Compatriotas em ação

Conforme narra o livro Compatriotas, de Bo Lidegaard, quando, no dia 1º de outubro, os nazistas deram início à operação, a maioria dos judeus havia desaparecido ou estava escondida pronta para ser levada à costa.

O que começou como um movimento popular espontâneo transformou-se em uma ação organizada pelo Movimento de Resistência Dinamarquês. Gilleleje, um grande porto pesqueiro situado no ponto ao norte da Ilha de Zealand, serviu como local de fuga de mais de um quinto da população judaica. Em menos de três semanas, 7,2 mil judeus e 700 familiares não judeus escaparam para a Suécia escondidos em barcos de pesca.

Contratempos aconteceram, mas foram poucos. Na própria Gilleleje, a Gestapo conseguiu capturar 80 judeus escondidos sob o telhado de uma igreja. Em razão das patrulhas alemãs, a viagem de apenas duas milhas também tinha seus riscos.

Estimativas indicam que a operação custou 12 milhões de coroas dinamarquesas, sendo que os judeus arcaram com 50% dos valores. O restante foi obtido com doações particulares e públicas. Cada judeu chegou a pagar em média entre 1.000 a 2.000 kronen, mas alguns chegaram a desembolsar 50 mil kronen, uma verdadeira fortuna.

No total, segundo o Yad Vashem, de Israel, os nazistas prenderam 482 judeus. A Dinamarca não se esqueceu deles e pressionou o Terceiro Reich, conseguindo que o grupo fosse deportado para o campo de concentração de Theresienstadt, na Boêmia (Tchecoeslováquia) - evitando, assim, os campos da morte, como Auschwitz-Birkenau. Durante a Shoá, no total, 120 judeus dinamarqueses morreram vítimas de perseguições, sendo 52 em Theresienstadt.

 

Volta para casa

A ocupação alemã da Dinamarca terminou em 5 de maio de 1945 e os refugiados que viviam na Suécia puderam voltar para casa. Diferente de outros judeus europeus, eles não foram recebidos com hostilidade. A maioria, aliás, descobriu que inventários de suas casas e negócios haviam sido feitos e suas propriedades protegidas. No geral, lares, animais, jardins e pertences haviam sido preservados pelos vizinhos. As igrejas que haviam guardado Sefarim e outros objetos de culto, devolveram-os à comunidade.

 

Justos entre as Nações

O Yad Vashem classificou como ‘excepcional’ a operação de resgate promovida pela resistência dinamarquesa devido ao esforço que envolveu, ainda, boa parte da população do país - de intelectuais a padres, policiais, donas de casa e médicos.

Se é verdade que alguns dinamarqueses eram simpáticos a Hitler (havia 12 mil filiados ao partido nazista à época, entre os quais aqueles que se juntaram à SS Waffen, participando de crimes de guerra), a maioria do povo jamais abriu mão de valores democráticos e humanistas.

Para prestar homenagem a tal feito, uma árvore foi plantada na Avenida dos Justos, em Israel. A Resistência não chegou a receber o título de ‘Justo entre as Nações’ (entregue àqueles que realizaram atos de heroísmo para salvar os judeus durante o Holocausto), eis que o reconhecimento é concedido apenas a pessoas; não a grupos.

O próprio Yad Vashem diz que este era um ‘desejo do Movimento’, que atuou em caráter coletivo, e não individual. No entanto, 22 dinamarqueses, cujos atos de resgate foram igualmente marcantes, receberam o título.

 

Por que na Dinamarca foi diferente?

Até hoje, muitos se questionam: por que a historia da Shoá na Dinamarca foi diferente? Talvez seja difícil encontrarmos uma uma resposta única ou ‘definitiva’. Quiçá, não precisamos disso - o importante é que foi feito, dizem os próprios daneses.

Particularmente, creio que há uma somatório de elementos que compõem o ‘grande quadro’. A começar pelo caráter do povo, eis que, ao serem perguntados por que agiram daquela forma, dinamarqueses de todos os níveis sociais e culturais disseram que nada fizeram além de tratar os judeus como compatriotas, vizinhos, amigos. E, segundo eles, ninguém pode deixar que o inimigo que ocupa seu país maltrate, deporte ou mate um vizinho, um compatriota, um amigo.

Há, também, importante participação dos governantes, sob a liderança do rei Cristiano X que, conforme suas possibilidades (apesar de contestações contemporâneas), preferiu não se omitir, deixando clara, a partir de ações, sua posição de defesa à comunidade judaica.

 

E hoje?

Voltando ao presente, trago o feito dinamarquês para análise em meio ao atribulado e incerto 2020 - ano em que vivemos sob a ameaça da covid-19, ondas massivas de refugiados e cenários sanitários, sociais e econômicos que podem atingir pontos críticos sem precedentes na história recente.

Reconhecendo as diferentes circunstâncias/contextos proponho refletirmos sobre:

- Como cada país está cuidando de sua população, em geral, e de suas minorias, em específico?

- Estamos construindo alternativas para que os mais vulneráveis sobrevivam às ameaças?

- Procuramos, realmente, agir em conjunto (enquanto nações e indivíduos), promovendo caminhos que possam pavimentar um futuro mais digno? Ou, estamos fazendo valer o ‘cada um por si’, considerando os meus ‘interesses acima de tudo’, e que os mais fracos fiquem pelo caminho, num contexto de eugenia pandêmica?

Enfim, 80 anos depois, o que nos aproxima dos dinamarqueses e o que nos separa dos nazistas? Pensemos...

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