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Brasileirão de futebol volta hoje, 78 anos depois do ‘jogo da morte’

Ao longo da história, o futebol teve diferentes ‘funcionalidades’, que foram além das quatro linhas. Até em tempos de guerra e barbaridades, a pelota seguiu rolando

Brasileirão de futebol volta hoje, 78 anos depois do ‘jogo da morte’
Brasileirão de futebol volta hoje, 78 anos depois do ‘jogo da morte’
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Em meio à pandemia de coronavírus, que já fez quase 100 mil vítimas no país (e segue ceifando, em média, mais de mil vidas por dia), teremos, neste sábado, 8 de agosto, o início do Campeonato Brasileiro de futebol. 
Diferente das edições anteriores, a competição que envolve as principais equipes do esporte bretão não contará com torcida nas arquibancadas ou aglomerações no entorno dos estádios/arenas. Ao mesmo tempo, veremos reforçado o necessário sistema de controle sanitário (entre atletas e comissões técnicas). 

Em suma, a mensagem é de que, assegurados os patrocínios de TV e outros - zelando dentro do possível pela saúde das estrelas -, o ‘show não pode parar’, movimentando valores que garantam os ganhos de tudo o que envolve o espetáculo. Afinal, precisamos ‘viver o novo normal’, dizem - entregando um pouco de pão, circo e bola para uma população carente de esperanças e repleta de incertezas a respeito do futuro.

 

78 anos do ‘jogo da morte’

Ao longo da história, o futebol teve diferentes ‘funcionalidades’, que foram além das quatro linhas. Até em tempos de guerra e barbaridades, a pelota seguiu rolando.

Uma dessas ocasiões aconteceu justamente há 78 anos, em 9 de agosto de 1942, no chamado ‘jogo da morte’. É disso que trataremos a seguir.   

Entre outras fontes, me socorro do livro ‘Dínamo - defendendo a honra de Kiev’, do escritor e jornalista britânico Andy Dougan. Na abertura o autor traz frase emblemática - dando conta de que a paixão do casal Valentina e Alexei era tão evidente que “um cego em um cavalo galopante podia ver isso”.
Evidente - até para cego ver - também era o objetivo dos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, de aniquilar qualquer resistência nos países ocupados, exterminando judeus, comunistas e outros 'inimigos' do regime em busca dos 1000 de dominação do III Reich e da prevalência da ‘raça ariana pura’.

Dynamo

Neste contexto, em 1942, no ponto central da guerra, a então União Soviética (URSS) concentrava as atenções de Hitler. Na Ucrânia, uma das repúblicas sob a alçada de Stalin, porém, aconteceria um evento extraordinário; não no campo de batalha, mas em um estádio municipal de Kiev, a capital do país. 
Quando Hitler iniciou a Operação Barbarossa, em junho de 1941, a URSS foi pega de surpresa. Os exércitos alemães varreram extensas áreas, massacrando forças mal preparadas e exterminando levas de ‘opositores’. Ganhos militares robustos foram alcançados em poucos meses,incluindo a Ucrânia e sua capital, cercada, agredida e invadida. 

Entre os defensores da cidade estavam muitos dos membros do time de futebol do Dynamo, considerados 'de elite' na Europa antes da guerra. 

Cidade faminta

Kiev capturada era uma cidade faminta cuja população estava sendo exterminada ou deportada em grande número para executar trabalho escravo. No entanto, um homem apaixonado pelo futebol, Iosif Kordik, decidiu salvar não apenas os jogadores sobreviventes da equipe do Dynamo, mas também atletas do Lokomotiv - lhes oferecendo abrigo e emprego em sua padaria.

Ali, inspirada pelo carismático goleiro Trusevich, a equipe do Dynamo foi reformada como o FC Star e uma série de jogos foram realizados. Embora afetados pelos efeitos da guerra, os jogadores mantinham sua excelência e qualidade; resultado: a equipe mostrou-se impecável nas pelejas que disputou, vencendo a maioria dos jogos por larga margem, inspirando os espíritos de Kiev. 

A ‘final’

A série de vitórias, ao passo em que empolgava uma nação abatida e em desconstrução, chamava a atenção dos nazistas - que decidiram, representados pelo seu time Flakelf, constituído por membros da brigada antiaérea da Luftwaffe (a força aérea germânica), encarar o FC Star dentro das quatro linhas. No primeiro embate, em 6 de agosto de 1942, os ucranianos não pouparam o adversário e golearam pelo placar de 5 a 1. Os alemães quiseram a revanche - naquele que veio a ser chamado o ‘jogo da morte’, disputado três dias depois.

Momentos antes do confronto, o vestiário do FC Start recebeu a visita do árbitro que apitaria o confronto, um membro da SS (a força paramilitar nazista). Dali, veio a primeira ordem: "Cumprimentem o adversário do nosso jeito". Pelo ‘nosso jeito’, entenda-se a saudação "Heil Hitler", que atormentava os habitantes das terras invadidas pelos nazistas na Segunda Guerra.
A determinação, todavia, foi solenemente ignorada. Em substituição ao "Heil Hitler", o que se ouviu teria sido o grito: ""FitzcultHura", uma mistura de "fitzcultura" - culto ao corpo - e urra, que queria dizer "longa vida ao esporte" e era tradicional na então União Soviética.

Conforme revela reportagem da Folha de São Paulo, escrita em 2001, os torcedores alemães, que ocupavam os melhores lugares do estádio em Kiev, foram surpreendidos. Mais irritados ficariam depois, quando o Start deixaria o gramado com nova vitória, desta vez por 5 a 3 - embora, durante o intervalo, tenham recebido nova ‘visita’ no vestiário, desta vez, determinando que entregassem o jogo (que àquele altura já estava 3 a 1 para os soviéticos).

Apesar da pressão (dentro e fora do campo), o time de Kiev não se acovardou, jogou melhor e saiu vitorioso. Nas arquibancadas, sua torcida foi agredida pelas tropas alemãs, embora os jogadores tenham saído ilesos. Ao menos, naquele 9 de agosto.

Na semana seguinte ao jogo contra os alemães, o Star realizou sua derradeira partida, vencendo o Rukh por 8 a 0. Pouco tempo depois, a Gestapo (política de Hitler) invadiu a Padaria número 3 prendendo e torturando os jogadores da equipe sob a alegação de que pertenceriam a forças do governo russo. Um dos presos, Mykola Korotkykh, morreu sob tortura. O restante foi enviado ao campo de trabalho de Syrets, onde Ivan Kuzmenko, Oleksey Klimenko e o goleiro Mykola Trusevich foram executados em fevereiro de 1943. Entre os poucos sobreviventes após a guerra estavam Fedir Tyutchev, Mikhail Sviridovskiy e Makar Goncharenko, que se tornariam responsáveis por propagar na cultura popular soviética a história de sua partida contra os nazistas - transformando o Start em um mito poderoso, que infla tanto o nacionalismo ucraniano quanto a resistência da URSS, dependendo do ponto de vista de quem quiser contar, ou ver, a história.

Saiba mais

O ‘jogo da morte’ inspirou filmes como o estadunidense ‘Fuga para a vitória’ (Escape to victory), de 1982. Dirigido por John Huston, a película teve no elenco Pelé, Bobby Moore e até Silvester Stalone (que era goleiro) - protagonistas do Star.

Bola também rolou em Dachau e Auschwitz

Conforme o portal de notícias DW, em matéria assinada por Gerd Wenzel, o futebol também era prática em alguns campos de concentração e extermínio. Em Dachau, na Alemanha, a bola rolava pelo menos uma vez por semana, normalmente aos domingos. 

Ferdinand Hackl, combatente na Espanha e comunista austríaco, foi prisioneiro em Dachau. Em sua biografia, ele fornece detalhes: "Na praça central do campo, onde os presos eram atormentados diariamente e muitas vezes torturados até a morte, aos domingos era permitido jogar futebol." O privilégio da prática, diz Wenzel, era concedido aos que eram utilizados como trabalhadores pela indústria bélica ou química. Bastava ter algum tipo de formação técnica para fazer parte desse grupo.

Conforme a historiadora Veronika Springmann esses operários qualificados tinham direito à uma melhor ração alimentar, além de não serem obrigados a trabalhos pesados. Afinal, eles eram necessários à cadeia produtiva do regime nazista e, tal qual animais úteis, obtinham recompensas, como por exemplo, jogar futebol aos domingos. 

No campo de concentração de Auschwitz, as partidas se realizavam em frente a um crematório e a uma câmara de gás, conta Gerd Wenzel. Desse modo, o jogo transcorria sob os pés da morte, eis que durante uma partida, diante dos seus olhos, outros prisioneiros eram levados à câmara de gás e em seguida, incinerados. A fumaça saindo da chaminé dos crematórios e o odor de corpos queimados impregnavam o campo de futebol, feito com um piso de cinzas humanas. 

Em Auschwitz, o jogo entre poloneses e alemães era o maior clássico. Membros uniformizados da SS torciam freneticamente pelos seus compatriotas e ameaçavam ferozmente os jogadores poloneses.

Igor Fischer, sobrevivente do Holocausto e ex-jogador da seleção austríaca, se lembra bem: "Jogar contra os alemães era perigoso. Seu adversário poderia matar você, não no campo de futebol, mas mais tarde, na câmara de gás."
Uma pesquisa do jornalista Thomas Urban, também trazida pela DW, aponta que, somente em Auschwitz, 40 jogadores do futebol de elite da Polônia foram assassinados. No campo de concentração Theresienstadt (conhecido como gueto de Terezin), o alto comando da SS permitiu, de 1942 a 1944, a organização de uma Liga de Futebol com diversas divisões. Havia jogos praticamente todo domingo com maciça presença de público, que algumas vezes chegava a 3.500 espectadores. A Liga Terezin gozava de grande popularidade. 

Os nazistas logo perceberam todo potencial do futebol – tanto para propaganda quanto para os próprios prisioneiros. Para esses, o esporte acabou funcionando como um tipo de terapia ocupacional, cujo objetivo maior era evitar eventuais revoltas dentro do próprio campo de concentração.

Em 1944, sob os auspícios do ministério da propaganda de Joseph Goebbels e com a guerra já se aproximando do fim, ainda foi produzido um documentário sobre o cotidiano de Theresienstadt, considerado pelos nazistas um campo exemplar. Três minutos do filme foram dedicados aos prisioneiros jogando futebol sob os olhares da torcida. Poucos dias depois,  porém, Gerd Wenzel lembra que muitos jogadores e espectadores mostrados no filme foram deportados para Auschwitz, onde acabaram exterminados.

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