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Ainda Estou Aqui segue em cartaz

Filme brasileiro, que concorre ao Oscar, resgata parte da memória da ditadura militar no país

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Filme é protagonizado por Fernanda Torres (D), no papel de Eunice Paiva (E)
Por Marina Oliveira com supervisão de Carlos Silveira
Foto Divulgação

Qual a função da memória? Esse processo, psicológico, neurológico ou cronológico, tem relação direta com a história, o passado, o presente e, consequentemente, com a construção do futuro. Conhecer e reconhecer a memória coletiva é o que pode garantir que a história não seja negada, porque lembrar é também sobre compreender a si mesmo, a sociedade e o mundo. Tal resgate não é simples, lembrar pode ser doloroso.

Recentemente, com o lançamento do filme brasileiro Ainda Estou Aqui, baseado na autobiografia homônima de 2015 escrita por Marcelo Rubens Paiva, o mundo teve acesso ao resgate do episódio da ditadura militar no Brasil, regime que durou de 1964 a 1985. O período foi marcado pela tortura e morte de pessoas consideradas opositoras ao sistema, censura à imprensa e artistas, e restrição de direitos políticos.

Dirigida por Walter Salles e protagonizada por Fernanda Torres e Fernanda Montenegro como Eunice Facciolla Paiva em diferentes fases, além de Selton Mello no papel de Rubens Paiva, a obra retrata como a vida de uma mulher “comum”, casada com um político brasileiro, muda drasticamente após o desaparecimento de seu marido, capturado pelo regime militar.

 

E quem está aqui?

“Saí de casa com 15 anos, vivi 7 anos no colégio interno de freiras, no Seminário de Marcelino Ramos, onde eu trabalhava e morava, e estudava no Colégio Cristo Rei, na cidade. O golpe aconteceu quando eu tinha 17 anos. O que lembro desta época é que recebemos as ordens das irmãs para não comentar nada sobre o que estava acontecendo no governo, do contrário, seríamos levados para o ‘sétimo céu’. Esse lugar era um campo de futebol que ficava acima do nível da cidade, onde eram levados os que eram contra o governo. O que acontecia lá, na época, nunca soubemos, só muito muitos anos depois”, relata Cleci Miotto Miola, de 77 anos, que estava e ainda está aqui.

A aposentada conta que, ao ver o filme, reviveu o período em questão, mas destaca a sutileza da obra ao retratar o período, que não escancara as torturas cruéis, e sim “retrata a história de uma mulher e mãe que, para proteger os filhos da verdade cruel sobre o que aconteceu com o pai e marido, lutou com coragem, ousadia, resistência e, acima de tudo, dignidade, até o fim da vida. É um filme sobre memória, que falta neste país”, aponta Cleci.

Ela lembra ainda que, seguindo os estudos, foi para Porto Alegre para cursar enfermagem e, ao retornar à casa dos pais no interior, ficou sabendo da existência do Grupo dos Onze. “Eram pessoas que se organizavam contra o governo muito discretamente, porque havia infiltrados, delatores, que entregavam quem era contrário ao regime. Esses eram trazidos para o presídio de Erechim e aí a gente não tinha mais notícia”, detalha Cleci, e completa "a reflexão que fica é sobre memória: 'Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça".

 

Do luto à luta

Para quem não estava na época, mas está aqui agora, a memória daqueles que viveram importantes períodos históricos, como a ditadura militar no Brasil, auxilia na percepção social.

A livreira Márcia Bocchi Simon, de 38 anos, acompanha a história da família Paiva desde o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho. Márcia conta que, logo que o livro Ainda Estou Aqui foi lançado, no ano de 2015, ela se interessou pela obra que, de forma mais detalhada que o filme, aborda a história da mãe do autor e a questão da doença de Alzheimer, ao mesmo tempo que faz um recorte da história do Brasil.

“Há quem diga que precisa ter anistia para golpista, né? Então eu acho que esse filme faz um trabalho social e histórico muito importante no país também. E a visibilidade que ele tem, não só no Brasil, mas principalmente fora dele, acho que é muito, muito importante para que a história seja reconhecida e conhecida, e não seja negada como ela foi por tanto tempo”, afirma Márcia.

Cassiano G. Zanella, de 29 anos, é cineasta e assistiu ao filme na Mostra de São Paulo, em outubro do ano passado, a primeira sessão de Ainda Estou Aqui em solo brasileiro. “O filme é muito competente em mostrar como o horror da ditadura invade a vida cotidiana, a vida banal, afetando a rotina de uma família comum que poderia ser a minha, a sua. Merece toda a aclamação que está tendo, principalmente a de Fernanda Torres que tem que carregar toda a tensão e medo da personagem sem se deixar abalar por isso”, analisa.

Até o momento, o filme já conquistou os prêmios de melhor roteiro no Festival de Veneza, o Globo de Ouro e o Satellite Awards de melhor atriz para a protagonista Fernanda Torres. Além disso, Ainda Estou Aqui coleciona indicações em outras premiações, e fez história ao receber três indicações no Oscar 2025, nas categorias Melhor Atriz, Melhor Filme Internacional e Melhor Filme.

 

Em cartaz

Ainda Estou Aqui está em cartaz no Movie Arte Cinemas de Erechim e, dos dias 6 a 12 de fevereiro, os ingressos estão com preço promocional de R$ 10, devido a campanha Semana do Cinema.

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