Poucos no mundo tem o privilégio de viver um século inteiro, ou mais, com saúde e lucidez. Entre as pessoas que puderam usufruir, deste tempo, estava o centenário, Pedro Avelino Ost, que morreu, na última quarta-feira (14), em Aratiba, na Linha Navegantes, ao completar 102 anos 8 meses e 25 dias de uma vida pautada pelo trabalho, respeito e honestidade. Era o cidadão mais velho de Aratiba e, muito provavelmente, da região Alto Uruguai, estando, também, entre os que mais viveram no Rio Grande do Sul e no Brasil.
"O segredo para chegar a 102 anos é ter uma vida pacata e reservada, conviver em harmonia com a família e a comunidade, uma alimentação saudável, sem esquecer da taça de vinho diária", costumava dizer seu Pedro.
Ele vivia sob os cuidados do filho Aldecir e a nora Noeli, casal sempre muito zeloso e carinhoso, que não media esforços para cuidar dele. Apesar da idade, Pedro Avelino Ost carregava consigo uma serenidade e lucidez inabalável e um sorriso constante.
Como tudo começou
Conforme informações do neto, Adecir Stroher, e relatos dos filhos, netos e do próprio nono Avelino, como era chamado, em vida. Pedro Avelino Ost nasceu em 19 de agosto de 1922, na comunidade de São Roque, Vila Feliz 5º distrito, no município de São Sebastião do Caí. Filho de José Ost e Valentina Kremer Ost, foi batizado na igreja local e teve quatro irmãos, Lúcia, João Severino, Jacob Plácido e Irene. Ainda na infância, seu pai fez uma ampliação na casa em que moravam, e no porão passaram a produzir queijo, feitos por sua mãe Valentina.
Serviço Militar
Pedro Avelino serviu ao exército no 8º Batalhão de Caçadores e 3ºBatalhão Ferroviária em São Leopoldo. Trabalhou em Mato Castelhano pelo exército na construção da estrada de Passo Fundo a Vacaria, foi quando começou a trabalhar com caminhão e fez carteira de motorista. Ao sair do exército voltou a morar com família.
Em 1942, quando Pedro tinha 20 anos, a família recebeu um convite para trabalhar em Rosário do Sul, em uma fazenda. Foi quando o pai de seu Pedro, o senhor José Ost, vendeu a fábrica de queijos e foi para Rosário do Sul com a esposa, o filho Jacob e as filhas Irene e Lúcia. O filho Severino havia casado e mudado para Aratiba na época. Pedro resolveu ficar em São Sebastião do Caí, mas em 1943 foi ao encontro da família.
Novo momento em Aratiba
Sua mãe, Valentina, não falava português e encontrou em uma vizinha que falava o mesmo idioma, o alemão, e fez grande amizade. Quando a vizinha se mudou para a cidade de Aratiba, dona Valentina quis ir residir perto da amiga. Foi assim que a família Ost se mudou para este município, comprando terras na Linha Navegantes, às margens do Rio Uruguai. Depois, Pedro foi residir em Linha Almoço, com sua esposa, que conheceu na lida diária e teve seus dois primeiros filhos. Posteriormente, mudou-se novamente para Linha Navegantes próximo do irmão Jacob.
Quando chegaram, em Aratiba, havia na comunidade uma pequena escola, uma igreja, uma olaria, balsa, alambique e um pequeno comércio. Na Linha Navegantes, a família passou a plantar milho, criar suínos, gado e a produzir leite e queijo, levando esses e outros produtos, como ovos, para vender na cidade, a pé ou a cavalo, onde também compravam o que precisavam.
Casamento e família
Foi no trabalho de puxar cana para fazer cachaça que Pedro Avelino conheceu a sua esposa, Isalina Rosa Brustolin, e em 17 de setembro de 1949 se casaram. Desta união nasceram seis filhos, Jacob Adelino, Adelina, estes nascidos em Linha Almoço, e Adilson, Alcir, Aldecir e Alice, nascidos em Linha Navegantes, os quais deram 15 netos e 19 bisnetos. Como pai e ser humano transmitiu aos filhos força, coragem e a importância da família e do trabalho.
Participação social
Sempre atuante na comunidade, seu Pedro ajudou na construção da nova escola e da nova igreja, iniciativa que herdou do pai seu José, homem de muita fé que, enquanto teve forças, fazia rotineiramente a limpeza da igreja. Durante a tradicional procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, realizada sempre no primeiro domingo de fevereiro — da igreja até o rio, onde seguia em balsa sobre as águas —, seu Pedro fazia questão de participar ativamente, carregando a imagem da santa com devoção enquanto tinha forças e pedia aos filhos que assumissem este gesto de fé em seu lugar, quando a idade já não permitia.
Outro momento marcante era o leilão do grande bolo festivo, tradição nas celebrações da comunidade, onde nono Avelino, como era conhecido por todos, era o leiloeiro oficial, animando a festa com entusiasmo e carisma, deixando memórias inesquecíveis entre amigos e familiares.
Seu Pedro Avelino ajudava sempre nas festas da comunidade, assava carne, comemorava com os amigos e sobrava um tempo para beber um chopp e comer uma carne bem gorda, que apreciava muito.
Balsas
Algumas enchentes dos anos 60, 70 e 80 danificaram as propriedades próximas ao rio Uruguai e causaram prejuízos. Seu Pedro sempre ajudava os atingidos na reconstrução, também foi um dos que participou da construção das balsas amarradas, com cipó e arame, que eram transportadas pelo rio Uruguai até a Argentina, em épocas de enchentes. Seu irmão Jacob participou de algumas destas viagens até a Argentina.
Esposa e irmão
Em 2016, Pedro sofreu dois golpes duros, primeiro, com a perda da esposa, Isalina, em 27/02/2016, e, segundo, dois meses depois, com a morte do irmão Jacob em 24/04/2016.
102 anos de história e legado
Pedro Avelino viveu grandes momentos em sua vida, fez parte da história de Aratiba e quando completaria 103 anos de vida veio a falecer.
Conforme o neto, Adecir, o vô foi um exemplo de pessoa a ser seguido. “Estava sempre calmo e tranquilo e com bons conselhos para todas as situações, principalmente, aos jovens, que dizia, trabalhem honestamente para construir uma família e ter uma vida digna”, relata.
Nas horas de lazer, o nono Avelino gostava de ouvir rádio, seu companheiro diário, principalmente, nos horários de jogos de futebol. Torcedor fanático do Inter, colorado de coração, também ouvia com muita fé as missas retransmitidas pelo rádio. Jogava bocha com os amigos na comunidade enquanto a idade permitiu.
Referência familiar
Sua casa sempre foi ponto de referência para os encontros da família. Ele deixa como legado o exemplo de uma vida de trabalho, honestidade, serenidade e muita fé. Sua dedicação à comunidade e à família são marcas que ficarão registradas para sempre nas memórias e corações de quem conviveu com ele.
E o relato dos familiares mostra exatamente isso. Adelina comenta que não importavam as dificuldades, o nono Avelino sempre estava otimista e dizia que tudo ficaria bem. Adelino lembra da devoção dele em carregar a santa na procissão, e depois que não conseguia mais, pedia a ele se tinha ajudado. Adilson destaca que, com o pai, aprendeu o valor da educação, com as pessoas que vinham até a casa dele, e a importância de cumprir com os compromissos assumidos com as pessoas e com a comunidade. Alcir aprendeu a importância do respeito e consideração com todos.
Para Aldecir, ele deixou um legado de coragem e a importância da família e do trabalho. Segundo Alice, o pai lembrava que a Sexta-Feira Santa era sagrada e não podia fazer barulho, nem trabalhar, apenas podiam tratar os animais, ninguém podia comer carne vermelha. “E mantendo a tradição cristã, sempre participar da Via-Sacra”, disse ela.
Segundo Nora Noeli, o nono Avelino era como um pai de coração, e o sentimento era recíproco, pois ele a considerava como uma filha. “Ele sempre transmitia tranquilidade e serenidade, era contagiante, e inabalável”, afirma Nora.