O dia 24 de agosto é intitulado o Dia da Infância. No Brasil, os direitos infantis são reconhecidos por lei, incluindo o direito ao afeto, à proteção e ao pleno desenvolvimento. Um marco relevante é o Marco Legal da Primeira Infância, que reforça a importância dos primeiros anos de vida na formação emocional, cognitiva e social.
A forma como as crianças são cuidadas desde os primeiros anos pode deixar marcas profundas, tanto positivas, quanto negativas, para o resto da vida.
Vínculos afetivos são a base da saúde mental
Para a psicóloga e psicanalista Cristiane Deon, que atua com crianças, adolescentes e adultos, além de seu trabalho como psicóloga escolar, os vínculos afetivos são pilares fundamentais na formação psíquica da criança.
“Os vínculos afetivos são fundamentais para a constituição psíquica, pois oferecem segurança emocional, mediação com a realidade e suporte para o desenvolvimento do eu”, explica.
Segundo ela, a presença de um cuidador estável e responsivo favorece o desenvolvimento da confiança, o brincar simbólico e a capacidade de criar, além de proteger contra ansiedades intensas. Ainda antes do nascimento, já se iniciam as bases desse vínculo, que se aprofunda no contato com o outro após o nascimento.
“Os pais ou cuidadores funcionam como um espelho para a criança. Ao responder ao choro, sorrir, acolher ou nomear sentimentos, ajudam a organizar o mundo interno da criança e suas emoções”, pontua Cristiane.
Quando os vínculos falham os impactos emocionais são duradouros
A ausência ou instabilidade de vínculos afetivos na infância pode trazer prejuízos importantes ao desenvolvimento emocional.
“A ausência ou instabilidade de vínculos afetivos pode gerar inseguranças, dificuldades na formação do eu e na regulação das emoções”, afirma Cristiane.
Entre as consequências estão comportamentos regressivos, baixa autoestima, dificuldade para confiar, ansiedade e prejuízos na capacidade de brincar, que é um elemento essencial na elaboração psíquica infantil.
“Um vínculo seguro permite energia psíquica para brincar, para a curiosidade e o fantasiar, vias essenciais no desenvolvimento emocional”, destaca.
Traumas na infância
Cristiane alerta para os principais traumas emocionais que podem impactar a vida adulta como negligência afetiva, separações traumáticas, violência física ou psicológica, abuso sexual, adultização ou erotização precoce, morte de pessoas próximas e convivência com brigas frequentes em casa.
“Esses eventos podem deixar marcas importantes, influenciando a forma como o sujeito se relaciona consigo mesmo e com os outros ao longo da vida”, ressalta.
Ela complementa com um olhar psicanalítico: o trauma não é apenas o evento, mas a forma como ele é vivido e interpretado subjetivamente.
“Essas experiências traumáticas podem retornar no futuro em forma de sintomas como angústia, depressões, compulsões, fobias, dificuldades de criar e confiar nos vínculos”, exemplifica.
Como identificar que algo não vai bem com a criança
Crianças nem sempre conseguem expressar o que sentem em palavras. Por isso, o corpo, o comportamento e o brincar se tornam canais de expressão.
Mudanças no sono, na alimentação, alterações no humor, regressões (como voltar a urinar na cama), isolamento, agressividade, dores sem explicações médicas ou dificuldades escolares podem ser sinais de sofrimento.
“Não significa que esses sinais evidenciem um trauma diretamente, mas indicam que algo não foi simbolizado”, explica. “O modo como o ambiente lida com a criança determinará se essas experiências serão vividas como conquistas ou como traumas”, completa.
É possível curar traumas da infância?
Embora não seja possível apagar o passado, a psicoterapia pode ajudar a dar novos sentidos às experiências traumáticas. É na escuta analítica que o sujeito pode transformar o que antes era vivido como dor em algo simbolizado.
“A função não é ‘apagar’ o passado, mas saber o que fazer com ele. É ‘desaprisionar’ o sujeito do seu sofrimento (não todo), e encontrar outras saídas possíveis”, diz Cristiane.
A psicoterapia é, segundo ela, um espaço de interrogações mais do que de respostas prontas. Um espaço para compreender o que se repete, o que retorna e o que pode ser ressignificado.
A infância e a construção da autoestima
A autoestima começa a ser moldada desde cedo, nos primeiros vínculos com os adultos. É o olhar do outro, o reconhecimento, o afeto e os limites que ajudam a criança a construir uma imagem positiva de si mesma.
“Autoestima é algo que vai sendo construído por meio da relação, do olhar e do discurso com o outro”, explica. Mas ela também alerta para os excessos. “Limites e frustração são estruturantes e saudáveis. Há um risco quando os adultos vivem compensando a criança o tempo todo”, salienta.
Atitudes que fortalecem a autoestima das crianças
Pais e cuidadores podem adotar posturas que contribuem para o fortalecimento da autoestima infantil, como validar sentimentos e conquistas, estar presente com afeto e escuta atenta, oferecer limites com respeito, separar o comportamento da identidade (ex.: “você errou” e não “você é ruim”), evitar comparações e incentivar a autonomia.
“Somos como espelhos para as crianças. A forma como nos comunicamos e nos comportamos com elas terá efeitos mais ou menos saudáveis na autoestima”, pontua Cristiane.
Educação emocional como ferramenta de prevenção
Aprender a lidar com as emoções desde cedo é fundamental. A criança não nasce sabendo nomear ou compreender o que sente, por isso precisa da ajuda de um adulto para organizar seus afetos.
“Ao ensinarmos desde cedo a falar sobre seus sentimentos, damos à criança ferramentas para transformar o excesso em algo simbolizado, diminuindo as chances de sintomas”, afirma a psicóloga, que acredita que a educação emocional é um fator de proteção contra o sofrimento psíquico e pode ajudar a prevenir transtornos mentais no futuro.
Primeiros espelhos do mundo
O ambiente emocional vivido na infância influencia profundamente o bem-estar mental ao longo da vida. Os vínculos familiares funcionam como uma “primeira cena” onde se estruturam as bases do mundo interno da criança.
“Quando a criança percebe que seus sentimentos são acolhidos e que o ambiente é confiável, ela desenvolve confiança básica que se estende para outras relações ao longo da vida”, afirma.
Ao final, Cristiane resume a importância desses primeiros anos com uma frase da escritora gaúcha Lya Luft: “A infância é um chão que se pisa a vida toda”, ou seja, tudo que acontece na infância tem reflexos mais ou menos saudáveis na vida adulta.