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De mãe para filha: um legado que o tempo não apaga

No Dia Internacional da Mulher, uma história de amor, trabalho e sucessão que eterniza Tia Lú na memória de Erechim

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Por Carlos Silveira
Foto Arquivo pessoal

 O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é feito de muitas histórias. Histórias de luta, de coragem, de reinvenção. Mas também é feito de amor. Amor que atravessa gerações. Amor que ensina, que inspira e que permanece, mesmo quando a presença física se transforma em saudade.

 Há mulheres que marcam o mundo. Outras marcam uma cidade. E há aquelas que marcam pessoas para sempre. Em Erechim, falar de crepes é falar de afeto. É falar de Tia Lú. (Lucy Antonieta Teimer Monauar).

 Conhecida por gerações, primeiro como professora dedicada no magistério e depois como empreendedora incansável, Tia Lú construiu mais do que um ponto de venda. Construiu vínculos. Do modesto carrinho instalado na esquina da antiga Ouro Preto ao furgão Food Truck estacionado em frente ao Sicredi, ela transformava massa e recheio em algo maior: encontros, conversas, acolhimento.

 Seu trabalho era diário, de verão a verão, com simplicidade, responsabilidade e um sorriso que fazia diferença. A crepeira aquecia, mas era o seu jeito que aquecia as pessoas.

 Sua trajetória foi tão significativa que ultrapassou o tempo, tornando-se imortal na memória da cidade, inclusive com a denominação de uma rua que carrega seu nome. Um reconhecimento que eterniza quem já era eterna no coração dos erechinenses.

 Mas toda grande história também é feita de continuidade. Ao seu lado, desde cedo, estava Rafa (Rafaela Monauar Rodrigues). Filha, aprendiz, parceira de jornada. Desde pequena ajudava os pais, comerciantes por vocação. Quando a família chegou a Erechim, vinda de Bagé, Rafa tinha apenas nove anos. O pai iniciava na produção de algodão doce, com cerca de 30 vendedores. Vieram depois os carrinhos de picolé, sorvetes, sucos e lá estava ela, sempre presente. “Desde sempre ajudamos. A gente abaixava a cabeça e trabalhava”, recorda.

 Mais tarde, conciliando o trabalho com os estudos, formou-se em Matemática e construiu uma carreira de quase 20 anos no magistério. Durante a semana lecionava. Nos finais de semana, especialmente aos domingos, assumia o furgão para dar descanso à mãe. “Sempre trabalhei com isso e sempre gostei.”

 Quando Tia Lú partiu, não houve dúvida. A sucessão não foi apenas empresarial. Foi afetiva. “É uma honra ocupar o lugar da mãe, mesmo sabendo que ela é insubstituível. Muitos clientes chegam e falam da saudade dela. Ela conversava sobre tudo, acolhia todo mundo. Eu me sinto muito honrada. Me exonerei da escola e assumi o furgão sem pensar duas vezes.”

 Ser mulher empreendedora, trabalhando na rua, enfrentando desafios diários, nunca foi motivo de medo para Rafa. “Nunca tive medo. Nunca aconteceu nada. É desafiador, mas o importante é trabalhar naquilo que a gente gosta.”

 Hoje, além do ponto tradicional, a estrutura cresceu. Vieram os eventos corporativos, aniversários, formaturas, casamentos. Carrinhos de churros gourmets,

 algodão doce no palito e no bastão de LED. A marca se fortaleceu. O sonho se expandiu. “Minha paixão hoje são os eventos.”

 Mas há outro papel que caminha junto: o de mãe. Com duas filhas e o apoio do marido, Rafa vive o desafio diário de conciliar família e empreendedorismo. “É difícil. Muito difícil. Mas a gente dá conta.” E talvez seja essa a maior herança de Tia Lú: a força.

 No Dia Internacional da Mulher, Rafa deixa uma mensagem que ecoa como ensinamento de geração em geração: “Não podemos esperar pelos outros. Se temos vontade, precisamos dar o primeiro passo. A mulher tem uma força muito grande dentro dela. Muitas vezes ela só aparece diante dos desafios, mas somos capazes.”

 Entre crepes, conversas e memórias, a história de Tia Lú e Rafa é mais do que uma sucessão comercial. É a prova de que o verdadeiro legado não está apenas no que se constrói, mas no que se inspira.

 E enquanto houver alguém saboreando um crepe e lembrando da professora sorridente que transformava trabalho em carinho, Tia Lú continuará presente.

 Porque algumas mulheres não partem. Elas permanecem, nas ruas que levam seu nome, nos negócios que continuam firmes e, principalmente, nas filhas que seguem adiante, honrando cada ensinamento.

 Neste 8 de março, Erechim celebra todas as mulheres. Mas também celebra essa história que prova: quando uma mãe ensina pelo exemplo, a filha não apenas continua, ela perpetua.

 

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