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Expressão Plural

O enorme fardo de ser

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Everton Ruchel
Por Everton Ruchel
Foto Everton Ruchel

Existir dói de um jeito quieto. Não falo das grandes tragédias nem das perdas que todo mundo consegue enxergar. Essas recebem nome, atenção e até solidariedade. Falo do desgaste silencioso de carregar a própria consciência todos os dias. De acordar sendo exatamente a mesma pessoa que foi dormir na noite anterior, levando junto as dúvidas, os arrependimentos, as promessas adiadas e tudo aquilo que ainda não encontrou lugar dentro de nós.

Há um peso em simplesmente continuar existindo. Porque a vida exige uma presença quase permanente. Não basta respirar, é preciso responder mensagens, tomar decisões, resolver problemas, pagar contas, cumprir horários, lembrar aniversários, parecer emocionalmente disponível. Enquanto isso, a cabeça segue produzindo perguntas para as quais raramente existe resposta definitiva.

Pouca gente admite o quanto isso cansa. Saímos de casa vestidos de funcionalidade. Aprendemos cedo que demonstrar firmeza rende mais do que admitir confusão. Esperam que sejamos produtivos, interessantes, rápidos e seguros. É como se a hesitação fosse um defeito de caráter, quando, na verdade, ela talvez seja apenas a reação mais honesta diante de um mundo complexo demais.

Existe uma pressão constante para parecer pronto. Pronto para liderar, para amar, para decidir e para opinar sobre assuntos que mal tivemos tempo de entender. Quase ninguém está realmente preparado, mas todos aprendem a representar esse papel porque a dúvida costuma ser recebida com impaciência. O vazio e a pausa incomodam. O silêncio também.

Então a gente representa. Sorri na hora certa e ri de piadas que mal ouviu. Concorda em reuniões que acabam sem mudar absolutamente nada e responde "está tudo bem" para quase tudo, porque explicar o que realmente acontece exigiria uma conversa longa demais, e nem sempre existe quem queira ouvir. Às vezes, nem nós conseguimos organizar aquilo que sentimos.

O cotidiano é exaustivo. Não pelo esforço de decorar falas, mas pela obrigação de sustentar uma versão coerente de nós mesmos, todos os dias e para pessoas diferentes, seja no trabalho, em casa, entre amigos ou nas redes sociais. Aos poucos, a energia vai embora não porque vivemos demais, mas porque gastamos uma parte enorme dela tentando parecer menos frágeis do que somos.

E a mente nunca encerra o expediente. Ela reaparece quando a casa silencia e escolhe justamente o momento em que o travesseiro encontra a cabeça para abrir processos antigos. Recupera um comentário infeliz dito anos atrás, reescreve conversas inteiras, imagina futuros improváveis, cria diálogos que nunca vão acontecer e transforma pequenas escolhas em dilemas gigantescos.

Às vezes, o nosso maior adversário conhece exatamente onde machucar. É curioso como conseguimos tratar desconhecidos com mais gentileza do que tratamos a nós mesmos. Perdoamos erros alheios com facilidade, mas mantemos os nossos vivos por anos, como se revivê-los repetidamente pudesse alterar o passado. Não altera, e pior: só prolonga a sentença.

Talvez seja esse o preço da consciência. Perceber que a vida não pode ser terceirizada. Dá para dividir contas, tarefas, responsabilidades, e até culpas. Mas ninguém acorda e sente por nós. Ninguém pode viver a existência que nos coube. Essa parte sempre chega às nossas mãos, queira a gente ou não.

E isso assusta. Porque cada escolha fecha outras portas. Cada "sim" também é uma coleção de "nãos". O tempo passa sem pedir licença, enquanto tentamos descobrir quem somos. Quando finalmente entendemos alguma coisa sobre nós mesmos, o mundo já mudou outra vez.

Existe uma ironia nisso tudo. Passamos anos tentando nos tornar pessoas completas, quando talvez ninguém seja. Talvez a condição humana seja justamente conviver com pedaços inacabados. Há desejos que nunca encontram resposta, perguntas que envelhecem conosco e feridas que deixam de doer sem nunca desaparecer de verdade.

Mesmo assim, seguimos. Não porque sempre exista esperança, nem porque todos os dias tragam um grande motivo para continuar. Seguimos porque a vida tem esse movimento discreto de empurrar a gente para a frente. Um café pela manhã, uma conversa inesperada, um abraço demorado ou um livro que possui exatamente a resposta para a pergunta que carregávamos. Pequenas coisas impedem que o peso se torne insuportável.

Talvez o enorme fardo de ser não seja aprender a suportar tudo sozinho. Talvez seja abandonar a fantasia de que um dia estaremos completamente prontos, completamente seguros ou completamente curados. Aceitar que viver é caminhar com dúvidas, carregar algumas rachaduras sem escondê-las o tempo inteiro e entender que ninguém atravessa a existência sem tropeçar.

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