“Só aprendemos com humildade”, escreveu Marcelo Gleiser em seu livro “A simples beleza do inesperado - Um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida". Suspendi a leitura por um momento: e só ensinamos com humildade também, pensei. Esse é um ponto bem legal e meio misterioso. É como se o conhecimento genuíno, quer dizer, aquele que realmente importa (definido assim no próprio processo, a cada momento dado, por ensinantes e aprendentes), estivesse envolto em uma espécie de feitiço, um tipo de proteção. Uma disposição de espírito de humildade "abre" isso, e um espectro em tese infinito de possibilidades com significado de exploração do mundo, das coisas do mundo e de nós mesmos, se apresenta. Aproximemo-nos dessa ideia com um exemplo.
No episódio piloto da série de televisão "Kung Fu" (1972-1975), "O signo do dragão" (há uma novelização do roteiro desse episódio publicada em livro no Brasil em1974), o noviço Kwai Chang Caine, de onze anos de idade, é incumbido da tarefa de varrer as folhas dos pátios do lendário Templo Shaolin por um tempo que lhe parece insuportavelmente longo. Vemos as estações do ano, ou dos anos, se sucederem e ele lá, varrendo, varrendo, varrendo, perguntando-se uma pergunta cheia de angústia: “Quando irei aprender?” O próprio abade do templo, Mestre Khan, de vez em quando vai vê-lo e indaga: "Há quanto tempo você está aqui, fazendo isso?" Dando vazão à sua inquietação e perturbação acumuladas, o menino responde impacientemente: "Muito, muito tempo."
O mestre aquiesce e a vida continua, até que ele, o noviço, se "esquece" de si mesmo (Mestre Dogen: "Aprender o caminho do Buda é esquecer-se de si mesmo..."), de seu curto passado, de sua ansiedade em tornar-se estudante, receber as vestes correspondentes e aprender Kung Fu e a Doutrina Ch'an, o amálgama de Taoísmo e Budismo característico do Templo Shaolin (Ch'an = mais tarde, Zen), se esquece de suas expectativas e “torna-se um” com a vassoura, com sua tigela de arroz, com as folhas do chão, com as árvores, com os céus acima e seus ciclos, com a neve, com os insetos do verão.
De quando em vez, ele ouve fragmentos de aulas, de mantras entoados, ou trechos de sutras sussurrados do outro lado daquelas portas pesadas - daquele lugar inacessível onde estão todas as pessoas importantes, os iniciados e os doutos. E ele incorpora aqueles lampejos à sua experiência de monge varredor - e o seu varrer é profunda meditação, profundíssimo (des)aprender. Ele está reconhecendo os fundamentos, cultivando os fundamentos, sendo ele próprio os fundamentos. E percebe que o cuidado com a vassoura e com o pátio é a também o cuidado de si, o cuidado dos outros, o cuidado do mundo (quase "As três ecologias", de Félix Guatarri, em uma perspectiva [cósmica?] da ética do cuidado).
Ele agora reside no presente, e um dia a pergunta costumeira de Mestre Khan nem faz mais sentido: "Há quanto tempo mesmo você está aqui?" Ele dá de ombros: "Há não muito tempo, mestre. Há não muito tempo...". E então as portas do templo, da escola, se abrem para ele, que se havia feito estudante ele mesmo, e ele já não sabe se foram as portas que se abriram ou se foi ele quem as abriu. As portas nunca estiveram de fato fechadas - e o templo, afinal, só é templo se não houver um dentro e um fora. Com efeito, suas paredes nunca estiveram ali. E, paradoxalmente, o aprendizado a ser feito está todo à sua frente e ele já aprendeu o essencial que havia para ser aprendido - que brotou do silêncio do pátio, do silenciamento de sua mente. Em um nível simbólico, sua compreensão de que afinal não estava ali há muito tempo constrói ela mesma o templo, o templo para ele (a escola para ele, paulo-freireanamente), um templo (sem tempo) interior.
Seja o mongezinho que varre as folhas caídas no outono do pátio do templo. Cultive os primeiros passos (são sempre os primeiros passos, se tu ainda não notaste), a mente de principiante, esse lugar anterior ainda àquele em que bate o “coração de estudante”. Aprenda a aprender, aprenda e ensine, ensine e aprenda, e não guarde nada para si. Ajude e encoraje os companheiros/as. Ouça. Lute. Viva. Não tem erro. E, quando terminar de varrer, guarde a vassoura, esse artefato pedagógico, mágico, com cuidado e atenção plena.