Os armênios no Alto Uruguai
De meados do século XIX a princípios do século XX, as condições para a permanência fixa de imigrantes armênios no Rio Grande do Sul podem ser entendidas em uma justaposição da mentalidade de grupos migratórios e particularidades associadas aos próprios sujeitos envolvidos. Esta constatação orbita o por que que até os dias atuais exista uma família de origem armênia no Alto Uruguai: os Asturian, radicados em Viadutos. A fonte mais fidedigna que consegue dar um ponto de partida para entender tal presença está em um livro, publicado na década de 1940, de autoria de um padre apostólico armênio, Yeznig Vartanian. Em seu monumental trabalho de mapeamento, Vartanian conseguiu relatos de que em 1890 o professor Martiros (‘‘Martins’’) Nechoian e ‘‘Simão’’ Portugalian, dois armênios oriundos da aldeia de Khas, tinham uma loja em Cruz Alta.
Martins era tio de um jovem da cidade de Mush, Mekitar (‘‘Mkhitar’’) Asturian, órfão de pai, e que em 1912 nutria dois principais desejos: reencontrar seu irmão Markos, que a esta altura vivia junto a Martins em Taboão (cerca de cinco quilômetros de Capo-Erê); e escapar do aumento exponencial da perseguição aos armênios viventes no Império Otomano. Este segundo fator é relevante de ser ressaltado, uma vez que Mekitar chegou a senti-lo na pele: durante sua vida, um dos poucos relatos que compartilhou com seus filhos sobre sua terra natal era o de que, ainda criança, teria sido espancado por um soldado turco enquanto voltava da escola.
A jornada até o Alto Uruguai
Assim, no mesmo ano de 1912, por volta dos 17 anos de idade, Mekitar tomou um navio em Trebizonda, na atual Turquia, atravessou os estreitos de Bósforo e Dardanelos, e após uma longa viagem, com paradas na França e na Itália, chegou ao continente sul-americano. Após desembarcar na Argentina, utilizou-se do território uruguaio para cruzar a fronteira com Sant’Ana do Livramento e finalmente adentrar o Rio Grande do Sul. Segundo entrevista concedida por seu filho Adilson, ao descer na estação de trem em Capo-Erê, Mekitar precisou do auxílio linguístico de outro armênio, vindo com ele da Argentina, para conseguir se comunicar e entender como chegar até Taboão, onde Martins tinha estabelecido um comércio e onde, presumivelmente, reencontraria seu irmão. Foi apenas após entrarem em uma bodega e negociarem o pagamento de meia garrafa de cachaça a um indígena sabedor do caminho que levava até Martins, que Asturian reencontrou seu tio. Contudo, Markos não estava mais lá: seu irmão decidira retornar ao Império Otomano, mas acabou não conseguindo entrada e estabeleceu-se em Los Angeles, local de forte presença da diáspora armênia. Os irmãos nunca mais se veriam.
A vida e legado de Mekitar Asturian
Tudo indica que após se estabelecer em Taboão, Asturian tenha auxiliado seu tio na atividade comercial. Esta é uma suspeita corroborada pela sua certidão de casamento com a descendente de italianos Ernestina Rigotti, que o nomeia como ‘‘comerciante’’. De todo modo, Adilson sustentava que seu pai chegou a ter seu próprio comércio em Capo-Erê antes de adentrar o funcionalismo público. O ano em que isto aparenta ter ocorrido foi 1924, conforme revela despacho de 07 de agosto de 1939, assinado pelo então prefeito da atual Erechim, Henrique Córdova. De 1924 a 1939, porém, as atribuições variaram: desde comissário do ‘‘Povoado de Capo-Erê e seus arredores’’, passando por arrecadador de impostos, e culminando na posição de subdelegado e subprefeito do 10º Distrito de Erechim, hoje Viadutos. Ademais, é possível que Mekitar, aos 28 anos, tenha servido como membro da Cruz Vermelha na região da ‘‘Grande Erechim’’ durante a Revolução de 1923, a guiar-se pelas lembranças que Adilson detinha de relatos que seu pai compartilhou sobre seu serviço durante o conflito entre maragatos e chimangos.
Asturian se naturalizaria brasileiro em 1941. É mais indicado, tendo em vista as laudas pertencentes ao seu processo de naturalização, que este reconhecimento concedido pelo governo Vargas esteja atrelado à comprovação de tempo de serviços prestados e de residência no Brasil. Contudo, considerando apenas o relato familiar, Mekitar também teria se engajado militarmente em prol de Getúlio. Segundo Adilson, na altura da Revolução Constitucionalista de 1932, insurgência paulista contra o governo provisório varguista, seu pai foi nomeado segundo tenente do 8º Corpo Provisório da Brigada Militar, acabando por recrutar cerca de 30 homens em Capo-Erê e dirigir-se, junto a estes, a São Paulo.
Mekitar faleceria em 1986, no local que escolheu para viver até o fim da vida: a já emancipada Viadutos. Seu legado deixaria uma marca na cidade que superaria sua própria existência e se materializaria na acepção mais literal do verbo: hoje, ‘‘Mekitar Asturian’’ é nome de rua municipal, como resultado de um projeto de lei aprovado em 1988 pela Câmara de Vereadores local.
Os armênios e sua história de sobrevivência
Apesar de hoje existir um país nomeado ‘‘Armênia’’, na época em que Mekitar chegou ao Brasil o antiguíssimo povo armênio vivia dividido entre três impérios: otomano, russo e persa. Majoritariamente cristãos, a maioria destes estava concentrada no leste do território do que hoje se nomeia ‘‘Turquia’’. Desde o século XIX, esta minoria étnico-nacional vinha sofrendo perseguições e extermínios crescentes no Império Otomano e, com a virada do século, e a ascensão de um triunvirato ditatorial turco altamente armenofóbico, este clima de ‘‘ebulição’’ desembocou no chamado ‘‘Genocídio Armênio’’, ocorrido entre 1915 a 1923. O resultado foi 1,5 milhão mortos, cerca de 2/3 da população armênia vivente no império. Ademais, deportações em massa, trabalhos forçados, destruição de vilas também marcaram este grande crime que até hoje é negado pela República da Turquia.
Ainda que tenha deixado o Império Otomano antes do Genocídio começar, Mekitar Asturian sentiu os efeitos por este provocado. Suas consequências levaram ao aumento da diáspora armênia pelo mundo, sendo muitas famílias eternamente separadas, ao passo que muitos arriscaram suas vidas tentando cruzar a fronteira leste com o Império Russo durante os massacres – vale lembrar que Mekitar era natural de Mush, cidade próxima desta, convertida em um centro de controle de deportação durante o genocídio. Sua irmã, ‘‘Maria’’, conseguiu se refugiar na França e sua mãe, ‘‘Margarida’’, faleceu na atual Rússia em 1919.