No município de Quatro Irmãos os fatos referentes à imigração judaica são os pontos mais fortes, considerando que os primeiros imigrantes chegaram entre 1911 e 1913. Contudo, ao contrário de municípios como Áurea, por exemplo, a presença dos responsáveis por desbravar a localidade não pode ser facilmente identificada, sendo que muitos imigrantes judeus já não residem mais no município que hoje agrega diferentes etnias.
A população, de modo geral, divide-se quanto à importância da colonização feita pelos judeus. Muitos chegam a comentar que os colonizadores chegaram à localidade, exploraram potenciais, especialmente no comércio, e depois de reunir riquezas, foram desbravar outras áreas. Porém, o legado da colonização judaica está presente na agricultura do município, setor com significativa participação na economia do município.
A história de Quatro Irmãos é marcada por dois importantes símbolos. Um deles é o antigo hospital, transformado em um memorial da imigração judaica e que foi revitalizado em 2012 com a participação da Federação Israelita do RS.
O outro ponto é o Cemitério Israelita que em 2017 completa 20 anos de seu tombamento como patrimônio histórico.
A história
No ano de 1990 um grupo começou a se organizar para emancipar Quatro Irmãos. A primeira eleição ocorreu em 2001 e a partir disso, a localidade começou novamente a se estruturar. “Éramos distrito de Erechim e naquele tempo a situação era outra, havia mais dificuldades, o acesso à saúde e à educação era precário. Depois houve um avanço. A imigração judaica, depois de vários representantes terem saído daqui, voltou com o objetivo de tentar restaurar os patrimônios, o que aconteceu em 2011 e 2012 através do Memorial”, pontuou o prefeito municipal Adilson De Vale.
Conforme o chefe do Executivo, para algumas pessoas essa parte da história não é bem vista pois segundo relatos históricos, eles chegaram à região, exploraram as araucárias e depois que não havia mais madeira e, desse modo, renda, acabaram indo embora. “Por isso, muitos veem com uma imigração que só pensou em usar os bens e recursos na região. Contudo, relembramos a história da imigração com pontos positivos, pois é importante resgatar os fatos que marcaram essa história de mais de 100 anos. A cidade era uma das mais bem estruturadas, tínhamos ferrovia. Vale lembrar do período da imigração judaica, que, por falta de conhecimento, tecnologias, as pessoas não conseguiram explorar a agricultura. O campo possui uma terra bastante ácida e na maioria das vezes pouco produtiva se não for realizada correção e tratamento”, comenta.
Naquela época a madeira foi o referencial e o que propiciava riquezas. “Tínhamos cinema, fábrica de óleo, de celulose, era uma cidade estruturada e daqui saíam produtos que iam para exportação”, salienta o prefeito, citando que depois desse ciclo, os judeus foram embora e ficaram somente os funcionários.
Sobre a importância de preservar a história do município, Adilson enfatiza que como Quatro Irmãos está em formação, ainda não há condições de realizar investimentos significativos nessa área, mas que a prefeitura procura manter os pontos que traçam as características importantes. “Temos o objetivo de investir e tornar os espaços mais atrativos em relação ao turismo. Também recebemos muitos judeus que vieram de outros países. Temos participado muito sobre essas questões de turismo, pois podemos trazer mais desenvolvimento para a região”, relata.
Tempo que traz saudades
Na opinião do aposentado e agricultor Cláudio Kasprovicz, de 72 anos, há um potencial, uma riqueza cultural no município. “Várias são as recordações, muitas coisas que havia e depois se perderam. Havia médicos que vinham de outros países. Muitas são as histórias de superação do município que contava com várias empresas. Enquanto Erechim só tinha um estabelecimento no ramo de cereais, Quatro Irmãos tinha empresa de óleo, de cadeira, de madeira, farmácias. Era um tempo bonito, que tinha de tudo e aos poucos foi acabando”, comenta com saudosismo.
“Armazém de memórias”
Conforme o secretário de Urbanismo, Aljucir Quadros o memorial conta sobre a chegada do povo judeu no país e na colônia Quatro Irmãos. O hospital, por exemplo, era uma referência na época, com médicos vindos da Europa. “Quando passamos pelo memorial, observamos a importância desta localidade para a região. O povo que passou por aqui marcou a história, possibilitou desenvolvimento. Se não existisse Quatro Irmãos talvez Erechim não tivesse essa estrutura. A colônia abrangia em torno de 93 mil hectares desde o município de Erebango até Entre Rios do Sul”, relata.
Através de uma visita guiada, as pessoas podem conhecer melhor a história desde 1891 com a chegada da Jewish Colonization Association (ICA) – companhia colonizadora da época, a qual tinha a sede aonde hoje é a prefeitura.
O espaço pertence à Federação Israelita e a prefeitura faz a conservação e divulgação. No local, cada espaço faz uma homenagem e determinados períodos da história e traz registros de documentos, objetos e obras. “O povo judeu tinha uma vida integrada ao povo que já residia na região”, pontua.
Em outro espaço específico, a administração busca resgatar mais objetos que fizeram parte do hospital. Alguns já foram doados e o objetivo é ampliar o local que já recebe a visita de muitas pessoas.
O cemitério israelita é outro ponto que atrai visitantes de várias regiões.