Erechim é uma das poucas cidades brasileiras que tiveram suas plantas urbanas planejadas, antes de serem implantadas. Projetada para ser o centro urbano da Colônia de Erechim, embalada pelos ideais positivistas, o traçado urbano segue o modelo das capitais como Paris e Washington. O centro urbano na forma de um círculo, cortado por duas diagonais, evidencia o conceito urbanístico “xadrez com diagonais”, que lhe confere a mística de urbe diferenciada, pensada por urbanista seguidor da doutrina positivista, que vê o homem no centro de tudo, notadamente do meio onde ele vive.
Da rótula central nascem dez grandes avenidas que se estendem aos bairros mais distantes. Os poderes constituídos – Executivo, Legislativo, Judiciário – estão no coração da cidade em volta da Praça da Bandeira. Com várias microrregiões, onde as diagonais protagonizam seis entradas e seis saídas, um programa de controle do fluxo de veículos teve que ser aplicado para desafogar as zonas de alto risco de acidentes. Primeiro foram desenvolvidos embriões de rótulas e, mais tarde, devido à pressão dos usuários, foram colocados semáforos. O trânsito passou a ser orientado por sistema misto, semáforos/rótulas.
Um pouco de história sobre o traçado
Um depoimento escrito nos anos 70 pelo primeiro tabelião da cidade, José Maria de Amorim - que viveu em Erechim de 1924, até a data de seu falecimento em 1978 - narra aspectos sobre o desenho da cidade, sua origem e percalços, ainda não registrados na história oficial do município.
Ele afirma que “Depois de formalizados todas as diligências oficiais referentes ao ato de criação, o secretário de Obras Públicas, engenheiro Carlos Torres Gonçalves, ordenou a execução a divisão geodésica da cidade que serviria de sede ao novel município pelos engenheiros e agrimensores da Comissão de Terras, que funcionava no antigo povoado Erechim (hoje Getúlio Vargas). Tomaram, então, como ponto de partida a Estação Ferroviária, sem contudo ter feito, ao que tudo indica, o reconhecimento prévio do terreno”.
Conforme o tabelião, o desenho repetiu a planta da cidade de Belo Horizonte, capital de MG. “(...)também fora inspirado em conceitos urbanísticos usados nos traçados de Washington (1791) e Paris (1850). Aprovado o futuro traçado, iniciou-se de pronto a implantação da cidade com a venda de terrenos e respectivas construções de madeira, surgindo tudo com uma rapidez inédita, principalmente a Avenida José Bonifácio, hoje denominada Maurício Cardoso”.
Em sua dissertação de mestrado, a arquiteta Karla Funfgelt, reforça a que o engenheiro Torres Gonçalves projetou a sede de Erechim seguindo os ideais positivistas vigentes na época, e reforça que foi “visivelmente influenciado pelos conceitos de racionalidade e ordem adotados a partir do urbanismo barroco”. Ela ressalta ainda que o engenheiro, prevendo que o futuro do município se desenvolveria, planejou espaços para uma futura expansão.
No trabalho, ela explica que o traçado adotado foi o de malha xadrez: “quadras de dimensões regulares, entrecortadas por quatro avenidas diagonais à malha principal. A superposição das avenidas diagonais à malha xadrez, resultando em quadras triangulares”. Segundo a dissertação, “A malha xadrez é planejada a partir de uma avenida central, no sentido norte-sul, de onde partem as ruas perpendiculares e paralelas de menor dimensão. As avenidas diagonais são sobrepostas à malha na porção superior da planta, irradiando a partir de uma praça [...]. Nas décadas seguintes são instaladas no entorno da praça, a prefeitura, a catedral e o fórum, ratificando sua função de centro político e religioso”.
No trabalho da arquiteta consta ainda que as quadras foram projetadas seguindo padrões pré-estabelecidos, sendo que suas dimensões variavam apresentando certa hierarquia quanto à localização e dimensionamento dos lotes. “Quadras de maiores dimensões se encontram próximas à avenida central e praças, as quais possuíam maior número de lotes voltado à avenida, reforçando a importância deste eixo”. Ela salienta ainda que a existência da viação férrea na parte norte da cidade proposta, desde a elaboração do plano não interferiu no projeto, que foi sobreposto à linha de trens.
Quem foi Torres Gonçalves
Carlos Torres Gonçalves foi o responsável pela organização da colônia de Erechim. Foi um dos mais destacados apóstolo do positivismo religioso no Rio Grande do Sul. Estudou engenharia civil na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde se aproximou do Positivismo. Aderiu à Igreja Positivista do Brasil em 1899, movimento integrado essencialmente por engenheiros e funcionários públicos estaduais.
Em julho de 1906 foi nomeado diretor de Terras e Colonização do governo do RS e em 1908 planejou e fundou a Colônia Erechim, atendendo aos princípios positivistas para tornar-se modelo de colonização.