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Saúde

Taxa de suicídio na região é 131% superior à média nacional

Em 2016, de cada 100 mil habitantes, 13,4 cometeram suicídio. No Brasil, o índice foi de 6,13 em igual período. Especialistas alertam: é preciso falar sobre o assunto, com responsabilidade e sem preconceito

Deixar o preconceito de lado, buscando o tratamento adequado é fundamental para que a pessoa supere
Por Salus Loch
Foto Divulgação

A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo, em uma média de 800 mil casos por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 2016, só no Brasil, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, 11.433 pessoas tiraram a própria vida - sendo 1.166 delas no Rio Grande do Sul, o que corresponde a taxa de 11,0 suicídios por 100 mil habitantes (17,8 para homens e 4,5 para mulheres), colocando o Estado na ponta deste (triste) ranking nacional. Para se ter uma ideia, no mesmo período, o índice de suicídios no Brasil foi de 6,13.

O Alto Uruguai, por sua vez, apresentou, em 2016, mais mortes do que a média estadual: 13,4 suicídios a cada 100 mil habitantes - 131% acima do registrado no país.

A estatística, além de acender um 'sinal amarelo' (cor, aliás, que endossa o mês de prevenção ao suicídio, em setembro) obriga que lideranças - da saúde e de outras áreas - analisem com cuidado as estatísticas, promovendo a necessária reflexão e a consequente tomada de atitude buscando encontrar caminhos para evitar que mais vidas sejam interrompidas.

A importância da prevenção

O suicídio é um fenômeno complexo, multifacetado e com diversas determinações, podendo afetar pessoas de distintas origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero.

Tratado pela OMS como questão de saúde pública, não deve ser simplificado, pois se trata do desfecho de uma série de fatores que se acumularam na história da pessoa. Antes de tudo, é preciso buscar informação.

A boa notícia é que o suicídio pode ser prevenido. Saber reconhecer os sinais de alerta em si mesmo ou em alguém próximo é o primeiro e mais importante passo. Por isso, fique atento(a) se a pessoa demonstra comportamento suicida e procure ajudá-la. Conforme a cartilha "Suicídio: informando para prevenir", produzida pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), existem dois fatores de risco principais para o suicídio:

·    Tentativa prévia: Pessoas que já tentaram tirar a própria vida têm de cinco a seis vezes mais risco de tentar outra vez. Estima-se que metade daqueles que se suicidaram já haviam tentado antes.

·    Doença mental: A maioria dos indivíduos que se mataram tinha algum transtorno mental, em regra, não diagnosticado, não tratado ou não tratado de forma adequada.

Sinais de alerta

Os sinais de alerta não devem ser considerados isoladamente, justamente porque não há uma receita para detectar seguramente quando uma pessoa está vivenciando uma crise suicida, nem se tem algum tipo de tendência. Entretanto, um indivíduo em sofrimento pode fornecer alguns sinais, que devem chamar a atenção de familiares e amigos, sobretudo se muitos se manifestam ao mesmo tempo, tais como:

- Aparecimento ou agravamento de problemas de conduta ou de manifestações verbais durante pelo menos duas semanas: Tais manifestações não devem ser interpretadas como ameaças nem como chantagens emocionais, mas sim como avisos de alerta para um risco real;

- Preocupação com sua própria morte ou falta de esperança: Pessoas sob risco de suicídio costumam falar sobre morte e suicídio mais do que o comum, confessam se sentir sem esperanças, culpadas, com estima baixa e visão negativa da vida. Tais ideias podem estar expressas de forma escrita, verbal ou por meio de desenhos.

- Expressão de ideias ou de intenções suicidas mais comuns: "Vou desaparecer"; "Vou deixar vocês em paz"; "Eu queria poder dormir e nunca mais acordar"; "É inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar".

- Isolamento: As pessoas com pensamentos suicidas podem se isolar, não atendendo a telefonemas, interagindo menos nas redes sociais, ficando em casa ou fechadas em seus quartos, reduzindo ou cancelando atividades sociais, principalmente aquelas que costumavam e gostavam de fazer.

- Outros fatores: Exposição ao agrotóxico (com forte incidência no Alto Uruguai), perda de emprego, crises políticas e econômicas, discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, agressões psicológicas e/ou físicas, sofrimento no trabalho, diminuição ou ausência de autocuidado, conflitos familiares, perda de um ente querido, doenças crônicas, dolorosas e/ou incapacitantes, entre outros podem ser fatores que deixam as pessoas mais vulneráveis.

Diante de uma pessoa sob risco de suicídio, o que se deve fazer?

Quem responde é o psiquiatra e mestre em Psicologia Clínica, Ramiro Ronchetti, que atende no CAPS-II, em Erechim. Segundo o médico, o ideal é encontrar um momento apropriado e lugar calmo para ouvir a pessoa com atenção, respeitando o que ela tem a dizer. De igual modo, é fundamental 'garantir a consulta', incentivando - e se necessário - marcando atendimento junto a serviços de saúde. Se possível, coloque-se a disposição para acompanhá-la.
Importante: se você acha que a pessoa está em perigo imediato, não a deixe sozinha. Procure ajuda de profissionais e entre em contato com alguém de confiança. Caso vocês vivam juntos, assegure-se de que ele(a) não tenha acesso a meios para provocar a própria morte (por exemplo, pesticidas, armas de fogo ou medicamentos).

Quando você pede ajuda, você tem o direito de:

·    Ser respeitado e levado a sério;

·    Ter o seu sofrimento levado em consideração;

·    Falar em privacidade com as pessoas sobre você mesmo e sua situação;

·    Ser escutado;

·    Ser encorajado a se recuperar.

Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?

CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde); UPA 24H, SAMU 192, Pronto Socorro; Hospitais; psiquiatras e psicólogos; além do Centro de Valorização da Vida - 188 (ligação gratuita).

Realidade regional

A fim de tentar os motivos que fazem com que a média de suicídios na região represente mais do que o dobro dos índices nacionais, o Bom Dia contatou com psiquiatras, psicólogos e servidores da área de segurança pública. Embora o conjunto de profissionais diga ser difícil identificar apenas uma causa, foi possível perceber algumas tendências - com destaque aos elementos culturais e até mesmo religiosos, que remetem à origem europeia, acarretando dificuldade de 'abertura/discussão' sobre o tema, especialmente por parte dos homens - que representam a maioria das mortes. "Precisamos fazer com que as pessoas entendam o problema como uma questão de saúde, e não de caráter", observa o psiquiatra Ramiro Ronchetti, para quem a busca pelo tratamento pode ser decisiva na recuperação. "É fundamental que as pessoas saibam que há tratamentos disponíveis e que muitos que já passaram por este cenário melhoraram", diz o psiquiatra.

Conforme o coordenador regional do Instituto Geral de Perícias (IGP), Ricardo Telló Dürks, responsável por atender 151 municípios no Norte do RS, embora o IGP não entre no detalhe das mortes em seus exames, é possível observar que os casos de suicídios na região afetam todos os gêneros, idades, raças e classes sociais - em regra ligados a quadros depressivos. Geralmente, diz Ricardo, a pessoa mora sozinha e não tem relacionamentos com amigos e família; tem alguma doença grave; problemas financeiros; ou, ainda, complicações no relacionamento amoroso.

Em Erechim, só no Centro de Atenção Psicossocial II (CAPS II), espaço voltado a atender pessoas acima dos 18 anos com transtornos mentais severos e persistentes com plano de tratamento individualizado, ao menos uma pessoa por semana procura o serviço com 'ideação suicida', também chamado de 'desejo de morte'. O número é semelhante ao encontrado no CAPS AD (Álcool e Droga), coordenado pela psicóloga Bethania Flores da Silva.  

Conforme Andresa Almeida, psicóloga e coordenadora do CAPS II, apesar da crise econômica dos últimos anos ter feito com que muitos trabalhadores perdessem o emprego em Erechim (provocando aumento na procura do serviço pelos homens), em regra, de 70% a 80% dos atendimentos se dá em relação a mulheres. "Percebemos que a mulher consegue falar mais a respeito de seu sofrimento, buscando saídas para o que lhes aflige", observa Andresa.

Para a psicóloga, uma das principais formas de reverter os números é acabar com o preconceito e o medo de falar de doenças como a depressão, além do incentivo a políticas públicas de prevenção. Andresa Almeida, todavia, salienta que alcoolismo, drogas ilícitas, ansiedade, esquizofrenia e a Síndrome de Borderline (caracterizada por instabilidade de humor, de comportamento e de relacionamento) também devem merecer a atenção dos profissionais da área e dos governos.

Saiba mais:

# Pesquisadores analisaram dados de 15 mil pessoas que tiraram a própria vida em todo o mundo, entre 1959 e 2001. A conclusão: o maior percentual dos casos estava ligado à depressão (35,8%). Em segundo lugar apareceram transtornos decorrentes do abuso de substâncias lícitas, como o álcool e o cigarro, e também das ilícitas.

# De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, os transtornos mais comuns incluem, além da depressão, transtornos bipolar, de personalidade e esquizofrenia, alcoolismo e abuso/dependência de outras drogas. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas têm um risco aumentado, ou seja: quanto mais diagnósticos, maior vulnerabilidade. Existem ainda fatores desencadeantes, como desesperança, impulsividade, isolamento social e falta de um sentido na vida.

# A depressão, embora não seja a única, é a principal causa de suicídio - sendo que a doença está cada vez mais presente. Segundo a OMS, desde 2005, houve um aumento de 18,4% nos casos globalmente. Até 2020, será a enfermidade mais incapacitante em todo o mundo. No Brasil, em 2016, 75,3 mil trabalhadores foram afastados pela Previdência Social em razão do mal. Hoje, o País é considerado o campeão de casos na América Latina, com 5,8% da população depressiva.

# Em 2016, o suicídio foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo.

# Em setembro do ano passado, o ministério da Saúde divulgou dados sobre tentativas e óbitos por suicídio no país. O levantamento apontou que a intoxicação exógena (exposição a substâncias químicas) foi o meio utilizado por mais da metade das tentativas de suicídio notificadas. Com relação aos óbitos, a intoxicação foi a segunda causa, com 18%, ficando atrás das mortes por enforcamento, que atingiram 60% do total. À época, a diretora do Departamento de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis e Promoção da Saúde (DANTPS) do Ministério da Saúde, Fátima Marinho, destacou que a análise dos dados era fundamental, considerando que as mortes por suicídio têm se agravado no País.

# Conforme o coordenador regional do IGP, Ricardo Telló Dürks, os casos de suicídios registrados no interior do RS em 2018 (sem contar a região Metropolitana, Vale dos Sinos e Litoral Norte), chegaram 848 - sendo 62 na área de Passo Fundo; 18 em Frederico Westphalen e 33 na região de Erechim (mantendo uma média aproximada a 2016).

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