O inverno de 1955 chegava ao final. O ano fora marcado por enchentes no norte do Rio Grande do Sul. Campinas do Sul, antiga Vila Oungre elevada a distrito de Campinas (e pertencente a Erechim) possuía áreas rurais de difícil acesso, distantes e enormes – onde era criado gado de corte, por isso o nome ‘Campinas’.
Os estragos causados pelas chuvas fizeram com que o prefeito de Erechim José Mandelli Filho, no último ano da primeira administração, visitasse a região castigada pelo transbordo das águas do Rio Passo Fundo, próximo ao trecho que delimitava a divisa com o município de Sarandi, hoje Ronda Alta. Naquele tempo, o distrito de Campinas era produtor de arroz como cultura de verão e trigo no inverno.
A visita do prefeito foi feita de avião, eis que ele decidiu sobrevoar as áreas alagadas a fim de verificar 'in loco' os prejuízos e suas consequências.
Mas aí, conforme conta o advogado Manoel A. Gomes, ocorreu o que se pode chamar de ‘primeiro acidente com aeronave em Campinas do Sul’.
Com uma pane – não se sabe se elétrica ou devido à falta de combustível -, o piloto começou a pedir socorro pelo rádio amador da aeronave.
O rádio mais próximo a interceptar o contato, e que veio auxiliar no pouso, foi o de Ulrich Hermann Hôschele, conhecido como Germano Hoscheler que vivia em Vila Vera Cruz, hoje município de Cruzaltense, próximo ao local do sobrevoo.
Como era descendente de alemães, o colonizador, madeireiro e visionário da época, Hoscheler pegou seu veículo ano 1948 e na companhia do filho (entre os oito e dez anos de idade) dirigiu-se até a Fazenda Santa Paulina, na época de propriedade dos Irmãos Gomes (Faustino, Luís e Antônio Manoel Gomes).
Chegando à sede da propriedade, encontrou Antônio Gomes (Antoninho) e logo informou que precisava de um local plano e de campo bruto para ‘encaminhar’ o pouso do avião que conduzia o prefeito.
Trágica perda
Dirigiram-se ambos, Germano Hoscheler (junto com o filho) e Antônio M. Gomes, cada um com seu veículo, até os fundos da fazenda, onde havia uma região de campo bruto. Garoava, e seu Germano, com um pano improvisado em um galho, bandeirou facilitando o pouso da aeronave, enquanto seu filho aguardava de bruços na parte traseira dentro do veículo, apreciando o avião que fascinava qualquer criança, ainda mais naquela época.
A tensão aumentou - e o improvável se deu.
A aeronave conseguiu pousar e, ao taxiar, se aproximou do veículo de Germano. Todavia, com a grama molhada, o piloto não teria conseguido parar a tempo e abalroou o carro no para-brisas traseiro, atingindo com a hélice a criança que ali estava.
Foi fatal, foi trágico!, conta Manoel, que é filho de Antônio Gomes, testemunha ocular do fato.
‘No meio do nada, num fundo de fazenda, estavam prefeito e piloto a salvo da pane seca, mas aquele que se deslocou para auxiliar o pouso perdera seu filho na estrada de chão batido da fazenda Santa Paulina’, narra Manoel, que completa: apesar da realização de inquérito policial, não teria sido efetivado processo judicial, eis que o entendimento das investigações teria registrado ‘acidente involuntário’. 'Além disso, não soube de mais nada', encerra o advogado.
Saiba mais
A história ocorrida nos anos 50 era contada pelo proprietário da fazenda onde ocorreu o acidente, Antônio M. Gomes, que faleceu recentemente - e teve grande repercussão à época, levando muitas pessoas até o local. Hoje, a área é destinada à lavoura de soja, no verão, e trigo ou pastagem, no inverno.
Detalhe: a propriedade ainda pertencente à família Gomes e não foi atingida pelo alagamento da barragem do Rio Passo Fundo, nos anos 70.