Há cerca de 17 meses, Eduardo Mokwa Glaner, 19, deixou Carlos Gomes, na região Alto Uruguai, para estudar História na Universidade Jagielloński (a 2ª mais antiga da Europa Central, fundada em 1364), em Cracóvia/Polônia – realizando o sonho de conhecer a terra de seus antepassados, onde, aliás, pretende seguir morando depois de formado, daqui a 4 anos.
Nesta entrevista, o jovem – que veio passar as férias na casa dos pais, em Carlos Gomes, e é fã dos pratos típicos pierogi e da sopa żurek, além de não abrir mão de churrasco e chimarrão – fala da vida no velho mundo, sai em defesa do governo polonês, aborda o conflito envolvendo Rússia e Ucrânia, além de comentar sobre o holocausto. Confira:
Por que estudar na Polônia? Pretende seguir por lá?
Escolhi estudar história na Polônia, pois essa sempre foi minha área de interesse e era meu sonho conhecer a terra de meus antepassados. A qualidade e as oportunidades promovidas nos estudos históricos também me levaram a escolher o país para estudar e seguir carreira. Pretendo continuar morando por lá devido às oportunidades de emprego e valorização profissional, principalmente da área em que estudo e trabalho. Além da qualidade de vida no país ser excepcional.
Quando você se forma? Como é estudar História na Uniwersytet Jagielloński?
Me formo daqui a 4 anos. No meu curso, abordamos bastante a história polonesa e europeia de diversos modos, mas também existem matérias dedicadas a outras áreas e regiões do mundo, além de ser trabalhada a questão dos poloneses e sua imigração no Brasil. Na minha especialização, tenho matérias voltadas a pesquisa e ao trabalho em museus, arquivos e instituições históricas.
Você já esteve no campo de extermínio de Auschwitz? Qual foi sua sensação? Como a Polônia lida com a memória do holocausto no presente?
Sim, já estive em Auschwitz e foi uma experiência impressionante, ver de perto como os alemães cometeram seus crimes na Polônia. Existe uma impressão de que os poloneses participaram do holocausto, mas, na verdade, foram suas principais vítimas, porque 90 % da população judaica polonesa foi eliminada assim como 10% da população total do país. A nação que mais sofreu com o holocausto e com os crimes de guerra alemães é acusada de colaboracionista nos crimes de guerra. Isso é bastante discutido na Polônia e muito ofende o povo polonês, que até hoje espera um pedido de desculpas do governo alemão. O governo polonês e as universidades incentivam bastante a pesquisa e a publicação de materiais sobre esse período, assim como mantém inúmeros museus em vários campos de concentração. Dos países ocupados pelos alemães, a Polônia era o único aonde qualquer pessoa que ajudasse judeus sofria a pena de morte no ato.
Sob seu ponto de vista, não houve poloneses colaboracionistas durante a 2ª Guerra?
O que eu, assim como meus colegas e professores condenamos, é colocar a Polônia como aliada do governo alemão durante a guerra e a fala muito comum de que existiram campos de concentração poloneses. Assim como em outras nações europeias durante o conflito, houveram pessoas que venderam seus vizinhos por dinheiro, assim como membros da Resistência polonesa, inclusive judeus, que arriscaram sua vida para proteger a si próprios e a seus compatriotas. Durante a guerra, ajudar judeus era punido com a morte somente na Polônia. Em outras nações europeias, a punição era a prisão e a perda de bens. Muitos poloneses ajudaram judeus de forma organizada como membros da Resistência Polonesa ou como heróis individuais, mas também houveram pessoas covardes durante a guerra que trocaram a ajuda por dinheiro. A nação polonesa não colaborou e não existiram campos de concentração poloneses, mas sim campos de concentração nazistas na Polônia. A maioria das histórias de sobreviventes e salvamentos no Holocausto envolvem cidadãos poloneses. A Polônia antes da guerra era uma sociedade que abrigava inúmeras etnias que conviviam entre si, entre elas 3 milhões de judeus. Quando a guerra estourou, todos se uniram para defender sua pátria, porque os judeus também eram cidadãos poloneses. Mas assim como a maioria não mediu esforços para lutar, também houveram pessoas que trocaram sua honra por vantagens.
Quais podem ser as consequências para a Europa da atual invasão russa à Ucrânia? E, especificamente, à Polônia?
Não imagino consequências severas para a Europa em relação à situação na Ucrânia, porque a forte presença da Otan desencoraja ações por parte da Rússia e porque (o presidente russo Vladimir) Putin quer apenas estabelecer um escudo com governos aliados na Ucrânia e na Bielorrússia, servindo de proteção para a Rússia contra a Otan e a União Europeia. Em relação à Polônia, creio que ela, por fazer parte da União Europeia e Otan, não deverá ser afetada pelo conflito na vizinha Ucrânia, apesar do número de refugiados que o país está recebendo.
Qual sua leitura a respeito da União Europeia? Qual foi a importância da entrada da Polônia para o Grupo?
A União Europeia trouxe benefícios e malefícios aos países membros, mas vejo que a organização perseverará devido à importância e a integração econômica que promove. A Polônia recebeu inúmeros benefícios econômicos quando entrou para a UE, mas acabou cedendo parte de sua soberania em prol da União.
Após agir sobre o judiciário e a mídia, o governo polonês, tido por alguns analistas como ultraconservador, quer ampliar o controle sobre sistema educacional, com objetivo, em tese, de "despolitizar" a sala de aula. Críticos temem restrição à educação sexual e sobre direitos LGBTQ. Qual sua opinião?
O governo polonês, ao contrário do que a mídia promove no ocidente, apenas quis defender sua soberania judiciária e política sobre as leis da União Europeia, assim como já tinha feito outras nações membros da UE, como a Alemanha e a França. O governo polonês não é ultraconservador, como pessoa inserida no sistema educacional polonês não vejo isso. A Polônia viveu muitos anos de ocupações e de governos não democráticos e apenas quer promover sua história e seus valores culturais e patrióticos para as próximas gerações terem orgulho do lugar em que vivem e das lutas de seus antepassados. A Polônia é um país europeu como muitos, que valoriza sua cultura e seus valores tradicionais, entres eles a religião e a fé que sempre tiveram papel importante para o povo polonês. Não vejo nenhum cerceamento de direitos no país, que funciona como qualquer democracia europeia, como lugar para todas ideologias, filosofias e pensamentos políticos e culturais. O preconceito não está no Estado polonês, mas sim é responsabilidade de cada cidadão. Assim como no Brasil, qualquer discriminação é punida por lei.