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Expressão Plural

A cobrança da natureza

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Everton Ruchel
Por Everton Ruchel
Foto Arquivo pessoal

Em um certo dia no ano de 1977, no Rio de Janeiro, o mar estava mais agitado que o normal. A força da água era tanta, que as ondas estavam mais altas que o costumeiro, invadindo as praias e as ruas próximas. Nesse mesmo dia, Raul Seixas passeava com seu carro pela orla do bairro do Leblon, quando foi atingido por uma das ondas. O impacto foi tão forte que amassou a lataria do veículo. Quando a imprensa soube do incidente, foi rapidamente ao local. Eis que Glória Maria, então uma jovem e promissora repórter da TV Globo, perguntou a Raul o que ele pensava sobre aquela ressaca do mar. E sua resposta foi simples: “A onda tá certa! O que tá errado é esse negócio de aterro!”.

Quarenta e sete anos depois dessa entrevista e mais de 1.500 quilômetros ao sul do Brasil, aconteceu algo muito pior que uma simples ressaca. O Rio Grande do Sul sofreu o maior e mais duro golpe desde sempre. A chuva caiu por dias e dias sem parar, enchendo os rios do Estado, transbordando-os e levando tudo o que estava pela frente: casas, pontes, pessoas. A água violenta passou pelas pequenas cidades, destruiu quase tudo e foi até o Rio Guaíba, ou Lago Guaíba, que saltou de dois para mais de cinco metros de altura e engoliu boa parte de Porto Alegre e Região Metropolitana. Uma tragédia nunca vista antes no Brasil, sem exagero. E no momento em que escrevia este texto, a chuva voltava a cair.

Não consigo imaginar outro motivo para tal que não seja a natureza cobrando sua conta. Afinal, já fazem séculos que a humanidade causa desmatamentos e queimadas de florestas, assoreamentos de rios e poluição do ar. Várias espécies inteiras de animais foram extintas, e junto com cada uma delas morreu também um pouco de nós. É um caminho que parece sem volta, a não ser que um estado de consciência coletiva tome de assalto um por um.

Por outro lado, como é lindo e confortante ver o espírito de solidariedade aflorando nas pessoas. As pilhas e toneladas de roupas, comida e água potável, a multidão de voluntários que largaram suas rotinas para auxiliar os refugiados, além dos altos valores doados em campanhas me fazem pensar que sim, é possível desviarmos dessa estrada sem retorno.

Vai demorar um pouco, mas a água do Guaíba (e de Porto Alegre, Canoas, Eldorado…) vai baixar. Quem sabe ela também não leva embora nossa indiferença com o planeta?

Até queria escrever mais coisas neste espaço, mas realmente não vem mais nada em meu pensamento para acrescentar ao que já coloquei acima. Aliás, prometo trazer assuntos mais leves e otimistas nas próximas semanas. Talvez fale um pouco de futebol, como já fiz outras vezes e é o tema que mais domino. Semana que vem eu volto.

 

Errata: no meu texto do dia 04 de maio - “Os dias mais longos” -, escrevi que um ano para um adulto de 30 era equivalente a 0,33% de vida. Na verdade, o correto é 3,33% de vida.

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