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Expressão Plural

Desaprender oito horas por dia

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Gerson Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

Há duas semanas, três semanas, eu havia trazido em dois textos uma problematização sobre um excerto de Eduardo Giannetti – excerto que reponho aqui: “Quanto mais subimos na encosta do que a ciência nos faculta conhecer, a superfície das coisas, mais descemos na gruta do que mais importaria saber - o porquê e o para quê de tudo. Que sabe a aranha da Via Láctea ou o tamanduá do cogito cartesiano? E, no entanto, vivem - como nós.” Minha problematização, entre outras coisas, trazia dois tipos de “solução” para o paradoxo: um deles, chamei de “o caminho da experiência. Hoje, apresento o que chamei de “o caminho do sábio” – e, para expô-lo, irei me socorrer do escritor e filósofo taoísta sino-americano Deng Ming-Dao, editando três de seus textos.

“Os animais não precisam de escola. São perfeitos, sem nenhuma necessidade de longa instrução. Sabem o que fazer por instinto e exemplo. (...) ‘Esqueça o saber’, dizem os sábios taoístas, mas o que não acrescentam é que você deve primeiro aprender antes de poder esquecer. (...) O intelecto é um dos problemas mais espinhosos. Não podemos dispensá-lo – na verdade, ele é essencial – e, não obstante, não podemos permitir que domine totalmente. O intelecto deve ser plenamente desenvolvido antes de ser levado a um ponto de neutralidade. A menos que isso seja feito, ele atuará como um bloqueio.”

Segue-se: “O saber escolar é, assim, um primeiro passo importante. A educação é um meio de conseguir acesso ao mundo convencional, satisfazer nossa curiosidade e evitar tendências supersticiosas. Não se pode falar em mergulhar nos mistérios filosóficos se ainda não satisfizemos sequer nossa curiosidade a respeito da natureza, da civilização, da matemática e da língua. Mas, assim que o cultivo mental é alcançado, devemos nos concentrar integralmente em uma parte da mente que está muito além do acadêmico.” Deng Ming-Dao, caro leitor/a, está falando de Meditação – simples assim.

“O intelecto usa a discriminação, a categorização e distinções dualistas de modo altamente refinado. Por outro lado, [a Meditação] não envolve discriminação, categorização nem dualismo e, portanto, tem pouca necessidade do saber intelectual. É ação pura, que necessita de envolvimento puro, não de mero estudo. O uso adequado do intelecto é dar-lhe liberdade de ação, desenvolvê-lo a um grau extraordinário e, não obstante, deixá-lo para trás quando a ação [espiritual] for exigida. Um sábio sabe como equilibrar e combinar ambos.”

Há, no “caminho do sábio”, um “depois” do intelecto, portanto. E um outro paradoxo: o de esquecer depois de aprender. Como uma forma de assimilação orgânica. Quem foi mesmo o escritor francês que definiu cultura como aquilo que sobra depois que esquecemos tudo? Não me lembro agora... Deng Ming-Dao enfatiza esse ponto:

“Alguns dizem que não devemos ter ambições; igualam estas à cobiça e à concupiscência. Contudo, algumas ambições são resultado da curiosidade e do desejo interno. (...) Seja o que for que você quiser fazer, faça-o plenamente. Existem apenas algumas condições. Primeiro, você deve perceber que nada existe para sempre. Você pode atingir seus objetivos e descobrir que não são mais importantes para você. Tudo bem. Isso significa que você esgotou seu interesse e agora está livre para se dedicar a outra coisa. Segundo, suas ambições não devem determinar sua vida. Antes de tudo, você é um ser humano, e seus ‘objetivos’ são adjuntos de sua busca básica como pessoa.”

Há, como se vê, todo um trabalho antes do trabalho de esquecer. Antes de se começar a, como formulou Manoel de Barros, “desaprender oito horas por dia” – para Ming-Dao, uma condição para a realização como pessoa. Em clave semelhante, Luís Nenung escreveu: “A ciência assim como a linguagem procuram organizar o possível para compreendermos e nos aproximarmos desse mundo mágico e intraduzível.”

Não sei bem se tudo isso resolve o problema trazido por Giannetti – mas sei que tudo isso deve estar na fervura do caldeirão.

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