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Expressão Plural

Machado, Robbie, as estrelas

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Gerson Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

Quando a gente pensa em um célebre encerramento de livro, é comum lembrarmos de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis: "Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria." Essa passagem, inclusive, tornou-se, nas últimas semanas, um “trend” no TikTok em razão de uma booktuber estado-unidense, Courtney Novak, que recentemente descobriu Machado de Assis. Mas o fim de "Quincas Borba" – e isso lembro eu - é bárbaro, também: "Chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro (...) está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens."

Nesses últimos dias, andei às voltas com Machado de Assis, e esses dois finais de livro, por tratarem de filhos e estrelas, gravaram-se em minha mente ao chegar às páginas conclusivas de “Deslumbramento”, de Richard Powers. O autor, a linhas tantas, estabelece relações entre Astronomia e infância, estrelas e infância: “Astronomia e infância têm muito em comum. Ambas são viagens por enormes distâncias. Ambas buscam fatos além da compreensão. Ambas teorizam descontroladamente e deixas as possibilidades se multiplicarem sem limites. Ambas são menosprezadas de tempos em tempos. Ambas operam na ignorância. Ambas são assoladas pelo tempo. Ambas estão sempre começando.” Bem legal, não é mesmo?

A narrativa, que se passa em algum ponto próximo-futuro do século XXI – e que super indico para quem está em busca de uma leitura –, conta a história de Theo, um astrobiólogo, e de seu filho de nove anos de idade, Robbie. A esposa e mãe, Alyssa, uma respeitada ativista defensora da vida selvagem em um planeta à beira da catástrofe ecológica (e social, e política...), morreu em um acidente de automóvel há dois anos, e Theo e Robbie levam a vida como podem. Robbie é uma criança hiper sensível e com um especial talento para a ciência e para a exploração e o estudo da vida natural – mas que possui problemas psicológicos graves. Seu trabalho de elaboração do luto, que vai de mal a pior, é marcado por um profundo desejo de reconexão com a memória de sua mãe – reconexão que ele faz, de modo indireto, por meio de seu interesse pela vida vegetal e animal do planeta, envolvendo, inclusive, uma precoce formação política.

Robbie e Theo, toda noite antes de dormir, dizem em voz alta uma oração ensinada pela mãe: “Que todos os seres conscientes fiquem livres do sofrimento desnecessário.” Trata-se de um “rezo” claramente inspirado na meditação/mantra do budismo tibetano denominada Mettabhavana, e que dá um toque para o leitor/a de que, possivelmente, é um elemento que escapa à visão científica do pai o que precisamente conecta filho e mãe e sua visão do mundo natural: a compaixão.

Antes do rezo, ainda, todas as noites, o desejo de ligação com a mãe e de interesse pela ciência levam a que Robbie peça que o pai lhe conte histórias de outros planetas e da possibilidade de vida nesses planetas, bem como de contato conosco. O pai, que vem fazendo seu próprio trabalho de luto e segurando a onda da família, é ao mesmo tempo sonhador e cético: “Quais eram as possibilidades de qualquer contato terminar bem? Toda a história humana respondia a essa pergunta. (...) Em mais de trinta anos de leitura de dois mil livros de ficção científica, não havia lugar mais estranho do que aqui.”

No fim do livro, em meio a uma crise que cresce de modo dramático e um tanto melancólico, como cresce a própria crise do planeta, Robbie muda o rezo da mãe - “Que todos os seres – todos...” – e pede para o pai que fiquem acampados em uma floresta, em meio à natureza e contemplando as estrelas, até “entendermos os seres humanos”. Não darei spoilers, mas direi que Powers contraria Machado de Assis e suas estrelas indiferentes: todas as estrelas do Cosmos olhavam de volta para aquela criança perdida, irremediavelmente perdida. E para nós, em nossa miséria.

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