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Expressão Plural

Desconexão, suspensão, colisão

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo Pessoal

A mudança climática existe: ponto. Ela é um efeito do aquecimento global, mas não é o único. A crise ecológica que estamos experienciando, e em substancial medida causando, afeta o sistema-Terra de muitos modos: a crescente escassez de água doce, aquilo que os cientistas chamam de mudança no ciclo de nitrogênio, a acidificação dos oceanos, o aumento nas taxas de perda em termos de biodiversidade, entre outros, muitos dos quais, talvez, nem mesmo percebidos ainda – trata-se do “desmoronamento de [inúmeros] processos biofísicos da Terra”, não diretamente relacionados ao clima (Alyne Costa).

            A mudança climática, portanto, além de existir (e ponto), não é o único efeito do aquecimento global. É, porém, possivelmente, o mais evidente para o cidadão/ã comum: nós o sentimos na pele, nas “crônicas de água e fogo” em que se transformou a vida brasileira em 2024. É o sintoma da crise – catástrofe? - ecológica mais geral que menos precisa da mediação da ciência para ser percebido. Teríamos – cidadania e governos – de ligar os pontos e alcançar uma compreensão mais precisa do tamanho da crise. No entanto, não temos nem mesmo consenso social e político sobre as causas e a própria existência da crise – ainda que consenso científico exista. Qual é o problema? Alyne Costa traz três autores/as para entendermos isso.

            Para Bruno Latour, “a humanidade se encontra em uma situação de desconexão no que se refere à crise ecológica e civilizacional de nosso tempo. Por que nossas ações coletivas não refletem o conhecimento que possuímos? Segundo o autor, esta desconexão decorre em grande parte do fato de que parece impossível que nós, meros humanos que ocupamos o planeta durante uma fração de tempo ínfima em comparação com o tempo de existência da Terra, que nada podemos contra as forças supremas da natureza, tenhamos alguma responsabilidade sobre a situação de colapso ambiental que já começamos a vivenciar. Em outras palavras, somos incapazes de conceber que nossas ações enquanto humanos – as quais julgamos insignificantes e efêmeras, se comparadas à magnitude dos fenômenos naturais e analisadas à luz do tempo geológico do planeta – possam ter alguma interferência na situação de crise ecológica em que nos encontramos. E, ainda pior, no caso de sermos afetados emocionalmente pelas evidências da crise e de sua origem antrópica, é preciso acrescentar, também como consequência dessa desconexão, a angústia por saber que ‘nós somos responsáveis’, porém sem nos sentirmos responsáveis individualmente (o que exatamente eu fiz de errado?) e sem tampouco sabermos apontar quem é esse ‘nós’ que seria o causador de tudo isso. Essa desconexão talvez seja a marca mais relevante do Antropoceno, nome proposto em 2000 por Paul Crutzen e Eugene Stoermer para designar a época geológica que adentramos, possivelmente, desde o início da Revolução Industrial.”

            Isabelle Stengers também salienta essa desconexão, e acrescenta um desnorteamento que estaríamos vivendo, trazido pelo fato de estarmos “suspensos entre duas histórias”: uma, hegemônica e que, apoiada nos valores da competição, do crescimento econômico e do progresso infinito, desconhece ou deliberadamente ignora a crise ecológica; e outra que tem plena consciência da catástrofe ambiental que se aproxima, mas que ainda é dividida e/ou “não suficientemente clara” sobre o que fazer.

            Dipesh Chakrabarty, por sua vez, propõe que o Antropoceno constitui o momento em que três histórias que se desenvolviam em tempos diferentes colidem: a dos sistemas planetários, a biológica (da vida na Terra, incluindo a humana) e a do modo de vida industrial.

            Temos, na formulação de Alyne Costa, portanto, desconexão, suspensão e colisão.

“Há mundo por vir”, é certo; mas há também um desamparo estupefaciente.

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