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Expressão Plural

O teu dia, os nossos dias: uma lição

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Há um verso de uma canção de Mauro Moraes, o filósofo milongueiro da música sul-rio-grandense de base folclórica, em que o “eu lírico” sente-se confortado apenas por possuir “um catre bueno, curtido, pros dias que não enfreno.” Isso ecoa Robbie Robertson, em “The Weight” (O Peso), canção dos anos 60, em que o eu lírico, encontrando-se exausto em uma estrada e chegando a uma estalagem um tanto fantasmagórica, pergunta ao homem do balcão: “O senhor sabe de um lugar onde se possa ter uma cama?” O homem responde: “Não.”

Se pusermos os dois versos em perspectiva, podemos chegar à conclusão terrível de que o descanso – o restaurarmos-nos “final”, inteiramente satisfatório – não é possível nesta vida. Só é possível darmo-nos uma pausa. Proponho, porém, que apanhemos por ora só uma parte do primeiro verso: a dos “dias que não enfreno”. Pense: isso existe, não é mesmo? Os dias em que tudo parece estar errado, meio fora de lugar, desafinado; pesado. Dias em que a vida, o mundo, nos ultrapassam, e em que nos sentimos estagnados, “fora de fase” com o que acontece em qualquer escala; em que o que a mídia nos traz não faz sentido, e o que as redes sociais nos mostram, menos ainda. Dias em que figuramos estar à esquerda do zero, longe do zero, e nossos amigos/as e conhecido/as, como em Fernando Pessoa, são “campeões de tudo”, o tempo todo e sempre. Dias em que “o extraordinário é demais”.

 Bem: nesses dias é importante ter um “catre bueno, curtido”, mesmo que o homem da estalagem diga que não, mesmo que o mundo diga não. E é super importante, e mesmo anterior, reconhecer os “dias que não enfreno” – o momento da pausa, o tempo de dar um tempo. Na vida como ela é, entretanto, nem todo mundo consegue pausar a vida e ficar na cama numa segunda-feira, por exemplo, ou pela duração que for necessário (isso, passado um dia, pode mesmo nem ser tão legal). É aí que os budistas vêm em nosso socorro: seria preciso incluir a nós mesmos na ideia e na prática do nutrir compaixão por todos os seres. Ou, como cantam Zeca Baleiro e Chico César, “não pira, respira". Com um toque taoísta – e aí vem um "pulo do gato” -, temos que é possível construir um “catre bueno, curtido” simbólico, interior. Tu fazes isso com atenção plena a tudo o que estiver contido em um dia – os dias (Deng Ming-Dao) podem ser concebidos como estando inseridos em uma longa série de contas de oração: não dá para “saltar” nenhuma delas. Posicione a si mesmo e a seu dia em um “lugar” recuado em relação à dualidade “aborrecido” ou “espetacular”. No fim desse dia, ou de todos os dias, escreva um pequeno poema – como este, do escritor e filósofo sino-americano citado:

 “O que fiz hoje?/ Exercitei-me/ Despedi-me de um amigo que partia/ Fui ao mercado, fiz minhas refeições/ Caminhei. Levei o lixo para fora/ Li um pouco. Meditei. Dormi/ Essa foi minha mandala”. Atenção à "mandala", portanto, à qualidade do dia, por simples e "insignificante" que o teu dia pareça – especialmente em um momento ruim. Tu não precisas de nenhuma medalha de ouro, e muito menos de uma por dia. O super básico está bem, viu? Um dia por vez, como contas de um japamala, ou de um terço, e “a repetição transforma-se em resistência.”

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