Com a chegada do fim do ano, os prazos acumulados, a pressão no trabalho, as compras e a expectativa por encerramentos e planejamentos futuros colocam em alta a ansiedade e, junto com ela, os casos de bruxismo por estresse podem aumentar. A condição, que envolve uma atividade repetitiva dos músculos da mastigação, vai muito além do ato de ranger os dentes e pode afetar até quem já não possui dentição.
Bruxismo não é só ranger os dentes
O bruxismo é caracterizado por movimentos involuntários de apertar ou ranger os dentes, mas não depende necessariamente deles. “É também esse apertamento, por isso que a pessoa, mesmo edêntula, ainda assim pode ter bruxismo”, explica a cirurgiã-dentista, mestranda em endodontia, Dra. Ana Carolina Tres.
Os sinais são variados, desgaste nos dentes, trincas, dores musculares na face, rigidez ao acordar e até relatos de parceiros que escutam o barulho durante a noite. Hoje, a classificação não se baseia mais em “noturno” e “diurno”, mas em bruxismo do sono e bruxismo de vigília, já que os padrões de sono das pessoas nem sempre seguem horários tradicionais.
Apesar disso, a especialista reforça que os indícios isolados não fecham diagnóstico. “Esses sinais não são o suficiente para a gente fechar o diagnóstico, que tem que fazer todo um questionário, porque existem vários tipos de bruxismo também”, pontua.
Primário x secundário
O bruxismo pode ser primário, normalmente ligado ao estresse, ou secundário, quando surge como resposta fisiológica a outros problemas.
“Quando ele é o primário é o vilão da história mesmo, o bruxismo de origem multifatorial, muito relacionado a estresse”, explica a dentista. Já o secundário aparece como uma reação do corpo. “Tem algum outro problema um pouco mais grave acontecendo e o bruxismo entra como um meio de proteção”.
Um exemplo comum é o paciente com refluxo. O corpo aumenta a produção de saliva para proteger o estômago, e o ranger dos dentes estimula essa produção. Em casos de apneia do sono, o movimento da mandíbula ajuda a desobstruir a via aérea e, por isso, usar placa em pacientes com problemas respiratórios pode até piorar a situação. “Nem sempre a solução para o bruxismo é necessariamente a gente fazer uma placa. Tem muita coisa envolvida”, alerta.
Assim, os desgastes e trincas nos dentes são apenas “cicatrizes”. A investigação precisa ser ampla e muitas vezes inclui outros profissionais, como médicos e psicólogos.
Bruxismo de vigília
O bruxismo de vigília está diretamente ligado ao estresse e à ansiedade, fatores que tendem a se intensificar no final do ano, período que concentra prazos, pendências e pressão emocional.
Segundo a dentista, “os principais fatores relacionados ao bruxismo de vigília são o estresse e a ansiedade, que estão muito relacionados a esse final de ano. Então, muita gente com muito prazo, muita pendência para resolver, tem que descontar isso na mordida mesmo”.
A condição costuma ocorrer enquanto a pessoa está concentrada em uma tarefa, no computador ou sob pressão. É um dos tipos mais difíceis de tratar, exigindo abordagem multidisciplinar. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a intervenção que apresenta melhores resultados, segundo a literatura e a experiência clínica. Há também influência hormonal, o que faz o bruxismo ser mais comum em mulheres.
Bruxismo do sono
O bruxismo do sono ocorre durante o descanso e pode ser ranger ou apertar os dentes. É comum também em pacientes com condições neurológicas, como paralisia cerebral, e nem sempre está ligado ao estresse.
Nesses casos, o uso da placa rígida acrílica ajuda a proteger os dentes, mas não trata a origem do problema. “Na verdade, a placa não é um tratamento efetivamente para o bruxismo. Ela ajuda a prevenir que o bruxismo afete os dentes”, reforça a dentista.
Qual é o tratamento mais indicado?
Depende da causa. “O tratamento para o bruxismo é cuidar da etiologia dele. Então, se a etiologia é o estresse, é encaminhar esse paciente para uma psicóloga, para um psiquiatra e fazer esse tratamento”, afirma.
A placa, apesar de útil para evitar danos, não relaxa a musculatura de forma permanente. “A placa só previne que os dentes sofram desgaste ou que trinquem”, explica. Em casos severos, o paciente chega até a furar o acrílico.
Alerta para o fim do ano
Se você tem sentido dor na mandíbula, acorda com rigidez no rosto, percebe trincas nos dentes ou nota que aperta a arcada enquanto trabalha, é importante procurar avaliação profissional.
O fim do ano intensifica os gatilhos emocionais e fisiológicos do bruxismo, e identificar a origem é fundamental para um tratamento eficaz.
A investigação correta evita uso inadequado da placa e previne que problemas maiores, como apneia, refluxo ou transtornos psicológicos, passem despercebidos.