Erechim continua convivendo com um vazio político em Brasília que já dura mais de 2,5 décadas. Desde o fim do mandato de Waldomiro Fioravante, em 1999, o município não elegeu mais nenhum deputado federal. Na sua eleição, a votação ainda era em cédula de papel e a internet insipiente (discada).
Na prática, isso significa que Erechim atravessou todo o século XXI e o novo milênio (iniciado em 1º de janeiro de 2001), sem um representante próprio na Câmara dos Deputados.
Reflexo dessa ausência
O reflexo dessa ausência aparece, de forma bastante concreta, na divisão dos recursos das emendas parlamentares. Em 2025, Erechim recebeu cerca de R$ 17 milhões em emendas parlamentares de deputados federais e senadores. São recursos importantes e que ajudam a viabilizar investimentos em áreas como saúde, assistência social, agricultura, obras e desenvolvimento do município.
Análise do cenário completo
Mas quando se olha o cenário completo, o número chama atenção pela baixa representatividade. Somando as emendas individuais dos 31 deputados federais do Rio Grande do Sul, os recursos destinados por três senadores e ainda as emendas coletivas da bancada gaúcha, o total disponível no ano passado chegou a R$ 1,89 bilhão. Desse montante, os cerca de R$ 17 milhões destinados a Erechim representam apenas 0,9% do total possível. Um percentual pequeno para um município que tem peso econômico relevante no norte do Estado.
Peregrinação por gabinetes
Sem um deputado federal próprio, lideranças políticas e institucionais da cidade acabam enfrentando uma rotina conhecida em Brasília. A peregrinação por gabinetes em busca de recursos.
A diferença entre aliados e representante próprio
Deputados e senadores de outras regiões, ao longo dos anos, acabaram adotando Erechim em suas agendas e encaminhando emendas importantes para o município. Muitos deles mantêm relação política sólida com a cidade e contribuíram para viabilizar investimentos relevantes. Ainda assim, a diferença entre ter aliados e ter um representante próprio é evidente.
Os valores que cada um tem direito
Hoje, cada deputado federal gaúcho dispõe de cerca de R$ 37,2 milhões em emendas individuais, o que totaliza aproximadamente R$ 1,15 bilhão. Já cada senador tem R$ 68,5 milhões, somando R$ 205,5 milhões entre os três. A bancada gaúcha ainda conta com R$ 530 milhões em emendas coletivas.
35 mil pessoas nasceram e não elegemos deputado
É nesse universo de recursos que Erechim tenta garantir espaço. A ausência de um deputado federal eleito na cidade já chega a 26 anos. Nesse intervalo, segundo dados do Censo 2022 do IBGE, aproximadamente 35 mil pessoas nasceram em Erechim sem que o município tivesse um representante próprio na Câmara dos Deputados. É um hiato político que atravessa gerações.
A força da reeleição
O cenário também não é simples para quem tenta romper essa barreira. Dos 31 deputados federais eleitos pelo Rio Grande do Sul na última eleição, 23 conquistaram a reeleição, o que representa 74,2% das cadeiras. Apenas oito nomes chegaram à Câmara sem buscar um novo mandato.
As emendas explicam esse fenômeno
A força das emendas parlamentares ajuda a explicar esse fenômeno. Deputados em exercício têm maior capacidade de destinar recursos para suas bases eleitorais, fortalecendo vínculos políticos e ampliando suas chances de permanecer no cargo. Na prática, candidatos que disputam pela primeira vez largam em desvantagem.
Votos divididos
A eleição passada também mostrou outro retrato da política local. Dos 554 candidatos a deputado federal, 345 receberam votos em Erechim. Entre os 10 mais votados no município, metade não possui domicílio eleitoral na cidade. O ranking ficou assim:
Anacleto Zanella (PT) – 10.198 votos
Jackson Arpini (PSDB) – 8.728 votos
Anax Pezzin (Republicanos) – 4.986 votos
Marcos Lando (PL) – 4.211 votos
Marcel Van Hattem (Novo) – 2.643 votos
Rogério Pizzatto (Patriota) – 2.209 votos
Sanderson (PL) – 1.928 votos
Giovani Cherini (PL) – 1.041 votos
Maurício Marcon (Podemos) – 1.016 votos
Marlon Santos (PL) – 997 votos
A pergunta que fica
Com nova eleição se aproximando, o debate volta inevitavelmente à mesa. Erechim recebe recursos, sim. Mas poderia receber muito mais, considerando seu peso econômico e regional no Rio Grande do Sul.
A questão central é política. Sem representação direta em Brasília, a cidade continua dependente da boa vontade de parlamentares de outras regiões.
No fim das contas, a decisão passa pelo eleitor. A pergunta que fica é simples. Erechim quer, de fato, eleger um deputado federal?