Muita coisa mudou a partir da Copa do Mundo de 1982. A escolha da Espanha como sede foi feita pela FIFA ainda em 1966, o que lhe garantiu 16 anos de organização, o maior intervalo já concedido a um anfitrião na história. Esse período permitiu um projeto amplo, refletido no recorde de 17 estádios em 14 cidades de nove comunidades autônomas, integrando mais da metade do país ao evento.
A edição também teve uma mudança estrutural. Pela primeira vez, a Copa contou com 24 seleções, ampliando em oito o número de participantes. O novo regulamento previa uma primeira fase com seis grupos de quatro equipes, classificando-se os dois primeiros de cada grupo. Em seguida, os 12 classificados foram divididos em quatro grupos de três seleções, com os líderes avançando às semifinais.
A ampliação refletiu na distribuição de vagas. A Europa passou a contar com 14 seleções: além da Espanha, classificaram-se Itália, Alemanha Ocidental, França, Inglaterra, União Soviética, Bélgica, Polônia, Hungria, Escócia, Irlanda do Norte, Áustria, Tchecoslováquia e Iugoslávia. A América do Sul subiu para quatro: Brasil, Argentina, Chile e Peru. As Américas do Norte e Central garantiram duas vagas, com El Salvador e Honduras, enquanto a África também teve dois classificados, Argélia e Camarões. Ásia e Oceania completaram o quadro com Kuwait e Nova Zelândia.
Outros marcos históricos foram registrados. Na fase de grupos, a Hungria fez a maior goleada da história das Copas, por 10 a 1 sobre El Salvador. Na semifinal, também houve pela primeira vez uma decisão por pênaltis, apesar de o recurso existir desde 1970. Alemanha Ocidental e França protagonizaram a disputa, com vitória alemã por 5 a 4 após empate em 3 a 3 na partida.
No Brasil, o otimismo estava alto. A equipe de 1982 era a melhor desde 1970, sendo a que mais permaneceu no imaginário do torcedor desde então. O time reunia talento e personalidade, sob o comando de Telê Santana e com nomes como Zico, Sócrates e Falcão, em um time técnico, ofensivo e identificado com a ideia do futebol-arte.
Na primeira fase, os brasileiros estrearam vencendo a União Soviética por 2 a 1. Depois, golearam a Escócia por 4 a 1 e encerraram com outra goleada por 4 a 0 sobre a Nova Zelândia. A seleção avançou para a segunda fase como a maior candidata ao título. Na estreia dessa nova etapa, reencontrou a Argentina, campeã em 1978, e venceu por 3 a 1, eliminando os argentinos do torneio.
Enquanto isso, a Itália atuava cercada por desconfiança. O país ainda se recuperava do impacto do escândalo do Totonero, revelado em 1980, que envolveu manipulação de resultados no futebol italiano. Um dos envolvidos foi Paolo Rossi, suspenso por dois anos e retornando à seleção às vésperas da Copa.
A campanha italiana começou irregular. Na primeira fase, empatou com Polônia, Peru e Camarões, avançando apenas porque fez um gol a mais que os camaroneses. No entanto, na abertura da segunda etapa contra a Argentina, a Itália venceu por 2 a 1, iniciando uma surpreendente virada de desempenho.
A superação total veio no confronto entre italianos e brasileiros, no estádio Sarrià, em Barcelona. O Brasil jogava pelo empate, mas encontrou uma Itália eficiente. Paolo Rossi marcou três vezes, explorando erros defensivos, enquanto o Brasil, fiel ao seu estilo ofensivo, marcou dois gols, mas não controlou o jogo. A derrota por 3 a 2 eliminou a seleção brasileira e transformou a partida em um símbolo da discussão entre arte e resultado.
A Itália seguiu. Na semifinal, venceu a Polônia por 2 a 0. Na final, no estádio Santiago Bernabéu, em Madri, superou a Alemanha Ocidental por 3 a 1 e conquistou seu terceiro título mundial.