A infecção pelo HIV (vírus da imunodeficiência humana) segue presente na vida de milhões de pessoas no mundo e acompanha, todos os anos, a gestação de milhares de mulheres no Brasil. Estima-se que cerca de 7,5 mil gestantes vivendo com o vírus sejam acompanhadas anualmente no país.
Apesar do impacto inicial do diagnóstico, os avanços na terapia antirretroviral e no acompanhamento pré-natal mudaram de forma significativa esse cenário. Hoje, com tratamento adequado e adesão correta, a gravidez pode ocorrer com segurança e risco muito baixo de transmissão do vírus ao bebê. O principal objetivo é manter a carga viral indetectável, condição que praticamente elimina a possibilidade de transmissão vertical.
Pré-natal e acompanhamento especializado
A prevenção da transmissão do HIV da mãe para o bebê depende de cuidados iniciados ainda no pré-natal. Nesse período, a gestante realiza testagem, monitoramento da carga viral e, quando necessário, inicia ou mantém a terapia antirretroviral de forma contínua.
O acompanhamento ideal envolve equipe multiprofissional, com obstetra, infectologista e, em alguns casos, neonatologista. Essa integração permite ajustes ao longo da gestação e melhora os desfechos para mãe e bebê.
Entre os principais indicadores monitorados estão a carga viral, avaliada em diferentes momentos da gravidez, e a contagem de linfócitos T CD4+, que refletem a saúde do sistema imunológico. Após o nascimento, o recém-nascido também recebe medicação antirretroviral preventiva, reduzindo ainda mais o risco de infecção.
Os principais fatores associados à transmissão vertical continuam sendo o diagnóstico tardio e a baixa adesão ao tratamento.
Parto e amamentação
As decisões sobre o tipo de parto são baseadas principalmente na carga viral da gestante. Quando ela está indetectável e o tratamento foi seguido corretamente, o parto vaginal pode ser realizado com segurança. Já em casos de carga viral elevada ou desconhecida, a cesariana pode ser indicada para reduzir riscos.
Durante o parto, também são adotadas medidas para minimizar o contato do bebê com o sangue materno, como o clampeamento adequado do cordão umbilical.
No Brasil, a recomendação oficial é que mulheres vivendo com HIV não amamentem, independentemente da carga viral. A orientação segue diretrizes do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria. Em substituição, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece fórmulas infantis e acesso a leite humano pasteurizado por meio de bancos de leite.
Brasil recebe certificação da OMS
Em 2025, o Brasil recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. O reconhecimento foi concedido após o país manter taxas inferiores a 2% e incidência menor que 0,5 caso por mil nascidos vivos.
O resultado reflete a ampliação do diagnóstico precoce, a oferta de testagem no pré-natal e o acesso ao tratamento antirretroviral, fatores que vêm reduzindo de forma consistente a transmissão do vírus.
Maternidade, direitos e redução do estigma
Mulheres vivendo com HIV têm o direito de engravidar e formar família. Com planejamento e acompanhamento adequado, a gestação pode ser segura. O ideal é que a gravidez seja programada, garantindo uso regular da terapia antirretroviral e controle da carga viral antes da concepção.
Em casais sorodiferentes, os avanços científicos também ampliaram as possibilidades. Quando a pessoa com HIV está com carga viral indetectável, o risco de transmissão sexual é considerado nulo, permitindo a concepção natural em segurança. Em alguns casos, pode ser indicada a profilaxia pré-exposição (PrEP) ao parceiro HIV-negativo.