Irmã salvatoriana Gladis Lando, nascida em Aratiba relata sua missão de 23 anos no Moçambique
Depois de passar 23 anos em missão no Moçambique, a irmã salvatoriana Gladis Maria Lando carrega consigo muitas histórias e lembranças do choque de realidades que vivenciou neste período. Há alguns dias em Erechim na casa de familiares, ela recebeu o Bom Dia para uma entrevista, onde relatou a experiência de mais de duas décadas no país africano, trabalhando como enfermeira e evangelizadora.
Nascida no interior de Aratiba, ela lembra que sua vocação para se tornar irmã se manifestou ainda na infância, quando recebeu o convite de uma tia que era irmã franciscana. Primogênita entre seus 10 irmãos, não teve a autorização do pai tão cedo para seguir seu objetivo. “Eu tinha muitos irmãozinhos e nossos pais precisavam que ajudasse com o cuidado deles e também na roça”, explica. O convite da tia, no entanto, nunca foi esquecido. “Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça, eu lembro apenas que não tinha gostado muito do hábito marrom das irmãs franciscanas”, brinca. Mais tarde, influenciada por outras colegas que tinham se tornado irmãs, tomou a decisão e informou ao seu pai. “Era Natal de 1958 e eu avisei meu pai, que se não fosse aquele ano, eu não iria mais”.
Com 15 anos foi para a congregação das irmãs do Divino Salvador, em Santa Catarina. Mais tarde estudou enfermagem, passou pelos municípios de Videira e Joaçaba, por quase duas décadas viveu em Passo Fundo, onde fez faculdade de Enfermagem, retornou a Videira e, no ano de 1992, com quase 50 anos de idade, foi convidada para ir ao Moçambique. Com os pais já idosos, ela lembra da difícil decisão, já que não pode mais ver sua mãe viva depois de ter partido ao país africano. “Quando retornei pela primeira vez, três anos depois, minha mãe já havia falecido”, recorda emocionada.
Dificuldades no período pós guerra
Gladis chegou ao Moçambique em um período pós guerra, já que o acordo de paz depois da guerra civil moçambicana foi assinado somente em 1992. Somava-se a isso um período de seca de quase dois anos. “Não tinha chuva, não tinha comida, eram muitas doenças, muitas crianças desnutridas e eu como era enfermeira já fui atuando nesta parte. Nunca tinha visto nada parecido. Antes de ir fiz uma preparação de um mês em Brasília com africanos, mas não era nem metade do que eu iria encontrar. Foi uma realidade triste, em primeiro lugar pela falta de água, era preciso buscar água a 20 quilômetros de casa, o que fazíamos duas vezes por semana, e em segundo pela falta de comida, que não tinha no país e só conseguíamos encontrar no Zimbabue”, recorda.
Junto com outros missionários, Irmã Gladis atuou na realocação de famílias refugiadas do campo. “Acompanhávamos nas comunidades essas pessoas, auxiliando na reconstrução das vidas para que pudessem viver, ou seja, organizando minimamente as propriedades. Para isso, passávamos dias, até semanas. Nesse período dormíamos onde podíamos, em grupos, dentro de sacos de dormir, embaixo das árvores”, recorda ao citar as dificuldades de comunicação em razão da língua, já que apenas os homens falavam português.
Passado esse período de assentamento das famílias, quando estas já estavam conseguindo produzir alimentos, a irmã afirma que começaram a ser trabalhados projetos que iam desde alfabetização, passando por corte e costura, até saúde. “No início nos reuníamos embaixo das árvores para dar aulas, ensinar, com o passar do tempo a Unicef financiou a construção de galpões. Lá ensinávamos tudo que era de formação humana e religiosa. Os grupos que participavam quase sempre eram grandes, acima de 50 pessoas”, pontua ela, ressaltando que trabalhou principalmente a questão da saúde com as mulheres e com as mães.
Entre as lembranças doloridas, Gladis cita as inúmeras mortes que presenciou em razão da desnutrição e de doenças como a Aids, que afeta uma parte expressiva da população, além das perseguições políticas que ainda ocorrem no país. A desigualdade que assola o Moçambique também está no relato da irmã, que lamenta a falta de condições que condenam o local. “Nos últimos anos muitas coisas melhoraram, mas ainda vai um longo tempo até que os moçambicanos possam viver bem”, ressalta.
Nos últimos anos Irmã Gladis atuava em um centro de terapias alternativas, onde cultiva plantas medicinais. Sua atuação já foi, inclusive, tema de uma reportagem especial exibida no Programa Globo Repórter. “Era onde eu sempre me senti bem, pois estava em meio ao campo e às pessoas”.
Diferenças que “machucam”
A cada vez que retorna ao Brasil, Irmã Gladis explica que percebe o quanto as realidades são contrastantes. “Agride a alma ver o quanto se desperdiça, o quanto se valoriza o supérfluo por aqui, sendo que quando chegamos lá, é tudo tão escasso, desde o básico”, comenta, ao relatar que muitas vezes arrecadava itens como garrafas e potes de iogurte para que as famílias utilizassem como copos. Gladis elenca ainda uma diferença cultural dos moçambicanos em relação aos brasileiros. “Eles não planejam o futuro, para eles, o importante é o agora, é se alimentar hoje, sobreviver hoje”, destaca.
No Brasil desde dezembro, Irmã Gladis afirma que agora se dedicará a cuidar de sua saúde e afirma que não sabe se retorna ao país africano. “Sinto falta de lá, de estar em meio às pessoas, aqui é tudo diferente, é como se eu fosse uma estranha. Preciso ir me adaptando aos poucos”, completa.
Algumas imagens do arquivo pessoal da Ir. Gladis:







