Passeio no interior de Erechim e visita aos produtores fazem parte da programação da Festa di Bacco
O Alto Uruguai guarda, entre seus vales e plantações, preciosidades que se revelam de forma inspiradora. Mais do que as belas paisagens e o típico aroma do interior, o chamados Vale dos Parreirais, no meio rural de Erechim, tem como principais características a simplicidade e acolhida dos produtores que por ali vivem. É partindo deste contexto que o local tornou-se roteiro dos passeios da Festa di Bacco, realizados todos os anos no período de safra da uva. Nesta edição da festa, o primeiro passeio foi realizado na noite da última terça-feira, tendo como participante um grupo de 30 pessoas que puderam conhecer um pouco mais sobre a produção da fruta protagonista desta época.
Primeira parada: Família Batistela
Passava das 18h30 quando o micro-ônibus responsável por fazer o transporte dos participantes encostou no ponto de partida, no centro de Erechim. O técnico da Emater, Walmor Gasparin, responsável pelo turismo da Festa di Bacco – e guia dos passeios - deu as boas-vindas aos participantes, repassando orientações e adiantando um pouco do roteiro a ser percorrido nas próximas horas pelo Vale dos Parreirais.
Dada a largada, a primeira parada é na propriedade da família Batistela, localizada às margens da BR 480, entre Erechim e Barão de Cotegipe. Logo na entrada, já é possível perceber as roseiras plantadas próximas a um dos parreirais, coberto por uma rede ali instalada com o objetivo de evitar a entrada dos pássaros no local. O ônibus chega no momento em que são descarregadas as uvas que serão transformadas em vinho na fábrica artesanal da família.
Quem recebe os visitantes é o patriarca da família, Olinto Batistela, rodeado pelos animais de estimação da família. A timidez do produtor se mistura à sua simplicidade e simpatia, e vai diminuindo na medida em que ele começa explicar o processo de fabricação do vinho, na cantina lotada de pipas, instalada abaixo de sua residência. Após ouvirem atentamente as explicações do anfitrião e de Gasparin, os participantes são convidados a ir até o parreiral, do lado da casa para conhecer a produção de uvas de mesa e acompanhar as explicações sobre o produto e suas características. O sol ainda está alto quando os visitantes deixam o local para se dirigirem até a próxima parada do roteiro.
Degustação de uvas colhidas diretamente das videiras
Saindo da propriedade da família Batistela, o ônibus retorna alguns metros pela BR 480 até chegar a uma entrada discreta na margem do asfalto, caminho para Linha América, próximo ponto do roteiro. O destino é a propriedade da família Bianchi. Bem humorado e ansioso pela chegada dos visitantes, quem recebe o grupo é o produtor Avelino Bianchi, que faz questão de cumprimentar com um aperto de mão, um a um dos participantes do passeio.
Acompanhado da esposa e do filho, ele faz um breve relato do histórico de sua família na produção de uvas, destacando, entre outros aspectos, que inicialmente foi desejo de seu pai que ele continuasse neste meio. “Ele não quis que eu estudasse. E hoje, eu olho para trás e percebo que talvez se tivesse buscado outro caminho, tivesse ido estudar, não estaria aqui, neste momento, recebendo vocês para mostrar minha propriedade”, destacou.
Espontâneo e divertido, conversou com o grupo relatando que quando ainda era bebê já vivia em meio aos parreirais. “Quando nasci, em vez de ganhar leite, minha mãe me deu vinho”, brincou o produtor, arrancando gargalhadas dos visitantes. Logo em seguida, todos foram convidados a se dirigir até o parreiral da família, onde puderam degustar as uvas produzidas e comercializadas pelos Bianchi. Gasparin salientou ainda o exemplo de sucessão rural da família, que tem no jovem Alex Bianchi a projeção de continuidade da produção de uvas. Antes ainda do pôr do sol, o grupo seguiu o caminho com destino a próxima parada.
Morro do Vicini e o eco da natureza
“Não deixar mais do que pegadas, não tirar mais do que fotos, não levar mais do que saudades”. A placa na entrada do Morro do Vicini - destino seguinte do passeio - é um aviso educado dos cuidados com a natureza. A bela vista que se encontra no local é anunciada ainda no caminho, já que trajeto é marcado pelas as paisagens desenhadas pela mistura das plantações de soja e trigo com as altas árvores e montanhas verdes, formadas por mata virgem. Este conjunto é, talvez, a característica que mais chama atenção no percurso realizado entre as estreitas e sinuosas estradas de chão.
Ao chegar no local, o ônibus estaciona na estrada e os participantes do passeio se deslocam a pé até o ponto mais alto do morro, onde também está instalado um pórtico formado por duas garrafas e cachos de uva. Já é quase noite, mas ainda assim é possível visualizar toda a paisagem ao redor, enquanto o sol ainda não se põe por completo. Lá de cima, o guia Walmor convida todos a participarem do que já é um ritual do passeio: o chamamento ao Bacco, deus italiano do vinho.
Antes, ele explica: “Lá embaixo mora o Maurício Vicini, produtor de uvas e já conhecido em nossa festa por interpretar Bacco nos desfiles que realizamos. Se chamarmos bem alto, ele nos ouvirá”, esclarece. Dito isso, ao aviso final, todos juntos gritam “Bacco”, som que é respondido pelo eco distante, resultado da quebra do silêncio costumeiro àquela hora no local. Já é noite quando o grupo retorna ao ônibus para se dirigir ao ponto final do passeio.
Mesa farta e simplicidade
O passeio da Festa di Bacco encerra no café colonial da Cantina Andreolla, às margens da RS 420, marcado pela arquitetura rústica. Todos os visitantes são recebidos pelo casal Ivo e Maribel Andreola que recebem o grupo com mesa farta formada por dezenas de pratos doces e salgados. O proprietário do local explica que todos os pratos são produzidos pela agroindústria da família. Do cardápio que vai desde os tradicionais queijo e salame frito, passando pela polenta brustolada, grostoli, morcília até bolos de maracujá, coco e abacaxi, o grupo pode degustar um pouco da gastronomia italiana, antes de retornar ao centro da cidade.
“Experiência única”
Vinda de São Paulo para uma consultoria em uma cooperativa de crédito em Erechim, a administradora Beatriz Freitag estava no passeio, que durou pouco mais de três horas. Blogueira nas horas vagas, ela escreve sobre culinária em seu blog, intitulado “Desafios Gastronômicos”. Questionada sobre o passeio, ela o resumiu como uma “experiência única”. “Quando nos convidaram a conhecer ficamos muito interessados, pois já havíamos achado Erechim uma cidade linda, portanto, ter a oportunidade de conhecer o interior da cidade nos chamou a atenção, principalmente em razão do blog, além do fato de que meu marido é um apreciador de vinhos”, destacou ela. “Já conhecemos vários locais e vinícolas ao redor do mundo, porém, temos pouca experiência no Brasil, principalmente no interior”, complementou.
Entre os aspectos que mais lhe chamaram a atenção estão, além da culinária, a natureza abundante do Vale dos Parreirais e Vale do Dourado e o trabalho familiar nas propriedades. “Na cidade estamos sendo afogados pelo cinza dos prédios, quase não vemos o verde. Para nós foi muito interessante ter este contato com o meio rural, além de conhecer a produção das uvas de mesa, que não conhecíamos ainda. Aqui as coisas são feitas com simplicidade, pelo amor à terra, à história das famílias que ainda trabalham juntas. Isso é muito específico daqui e o que torna este local diferente”, pondera. “A gente torce para que as famílias possam manter isso e passar às próximas gerações, para que não se perca esta característica que torna tudo tão especial”, completa.
Beatriz salienta ainda a importância de valorizar as atividades familiares e os produtos produzidos nas propriedades. “Estamos acostumados com tantas coisas industrializadas, a não vermos mais a origem dos produtos que ingerimos. Poder visualizar esse processo de produção e a maneira como as coisas são feitas foi muito bacana. Colher a uva diretamente da videira, sem dúvidas, ficará marcado para a gente”, finaliza.
Passeios: informações e valores
Os passeios turísticos pelo Vale dos Parreirais são realizados pela prefeitura de Erechim e pela Emater e costumam ser realizados nas tardes das quintas-feiras, das 14h às 18h; e nas sextas-feiras com saída às 18h30 e retorno às 22h30. O custo por pessoa é de R$55,00. Estão inclusos o transporte, degustação de uvas e café colonial. Mais informações no Departamento de Turismo através do telefone (54) 3522-3822.