Do lado de fora, uma multidão aguardava. Uns cantavam. Outros choravam. Do outro lado da grade de entrada do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, o corpo sem vida de Belchior reencontrava a família que havia deixado para trás quando sumiu. Morto na noite do último sábado (29), em Santa Cruz do Sul, Belchior voltou para o Estado natal para ser velado e sepultado. Depois do velório em Sobral, município a 240 km de distância de Fortaleza, onde o músico nasceu e viveu até os 16 anos, o corpo foi transportado até a Fortaleza. Às 15h, chegou ao Dragão do Mar e foi recebido por familiares próximos. Por 40 minutos, a família teve seu tempo para reencontrar o parente.
O corpo de Belchior foi recebido sem pompas. Foi montado um caminho para que o público pudesse prestar suas homenagens - a família teve um espaço reservado para eles. Do lado de fora do Dragão do Mar, diante da sua entrada principal, fãs se apertavam para serem os primeiros a encontrarem o músico. A fila seguia por metros, extensa, serpenteando pelo espaço externo do centro cultural. Logo que os portões foram abertos e o público, liberado para entrar, uma confusão teve início e os poucos seguranças presentes precisavam conter a briga. Logo, empurra-empurra foi resolvido e o público seguiu, em fila indiana, em direção à sala onde está Belchior.
No caminho, duas caixas de som tocavam canções de Belchior e um telão exibia imagens do cantor. O corpo permaneceu no Centro Cultural Dragão do Mar até a manhã de ontem (2), quando foi levado em cortejo pelas ruas de Fortaleza no carro do Corpo de Bombeiros até o cemitério Parque da Paz. Repetindo as homenagens prestadas durante os velórios que reuniram milhares de pessoas, fãs e amigos cantaram seus maiores sucessos no cemitério. O Parque da Paz é o mesmo local onde o pai e a mãe de Belchior - que morreram durante o período em que ele ficou recluso - estão enterrados. O sepultamento foi restrito aos parentes.
Belchior morreu com 70 anos
Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, conhecido simplesmente como Belchior, faleceu em sua casa, com 70 anos. Era cantor e compositor, tendo sido um dos primeiros cantores de MPB do nordeste brasileiro a fazer sucesso nacional, em meados da década de 1970. Seu álbum Alucinação, de 1976, é considerado por vários críticos musicais como o mais revolucionário da história da MPB e um dos mais importantes de todos os tempos para a música brasileira. Ganhou o primeiro lugar no IV Festival Universitário de 1971 com a música "Hora do almoço", interpretada por Jorge Melo e Jorge Teles. Entre os seus maiores sucessos estão Apenas um Rapaz Latino-Americano, Como Nossos Pais, Mucuripe e Divina comédia humana. Outras composições de Belchior de grande sucesso foram "Paralelas" (gravada por Vanusa) e "Galos, noites e quintais" (regravada por Jair Rodrigues).