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Cultura

Balseiros: aventura da madeira

Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Arquivo

É difícil até imaginar como seria descer o rio Uruguai numa balsa feita com toras de madeira até a Argentina, muito mais, ainda, colocar em prática. No entanto, esta foi a maneira que muitos colonizadores e filhos de imigrantes, já estabelecidos no Brasil, começaram a sua vida na região Alto Uruguai. Dando início e desenvolvendo um dos primeiros ciclos econômicos: a exploração da madeira.

O Alto Uruguai tem uma vegetação muito rica, as árvores têm uma madeira de alta qualidade que podem ser utilizadas na fabricação de móveis, casas, portas, janelas, ferramentas, diversas aplicações. Entre as mais conhecidas estão araucária e os ipês, mas há outras, como a grápia, planta que chega até 35 metros de altura; o cedro, guabirobeira, louro-silvestre, camboatá, corticeira-da-serra, açoita-cavalo, bacatinga, guabiju, canela e angico.

Depois de cortar as árvores, as serrarias beneficiavam ou não as madeiras e depositavam na beira do rio, a espera da enchente. Quando se aproximava a época das chuvas, começava o trabalho de embalsar no Rio Uruguai, nas imediações do Passo Goio-En. Por volta de 1900 iniciou esta atividade e durou quase meio século, se encerrando no final da década de 50, em torno de 1946.

O trajeto percorrido no rio pelas balsas chegava a 690 km até alcançar a cidade de São Tomé ou Libres na Argentina. As viagens demoravam até 12 dias. O retorno dos balseiros era feito de trem, quando havia ferrovia, ou então quando não existia, viajavam a pé.

Depois de colocar as madeiras na borda do rio iniciava a montagem das balsas, o trabalho de embalsar, que devia exigir muita habilidade dos balseiros. Então, se reunia os quartéis de tábua serradas, cada uma das seções da plataforma da balsa. A amarração era feita, no começo, com cipó-imbé, depois de chamuscá-lo no fogo antes de usar. Posteriormente, na falta de cipó se usou arame queimado liso.

Cada balsa tinha de 10, 20 ou até 30 quartéis, medindo até 200 metros de comprimento. Cada uma tinha seu fogão de terra e barraca com dispensa para os mantimentos. Os donos dos principais engenhos (serrarias) acompanhavam todos os trabalhos.

Quando o rio Uruguai enchia e ficava no ponto certo, as balsas eram soltas. Depois daí começava a aventura, em movimento num rio conduzindo toneladas de madeira rumo à Argentina, em busca de um mercado lucrativo. Contudo, tendo que enfrentar todo tipo de perigo e dificuldades como fortes corredeiras, paredão de pedras, rompimento das balsas, sem contar as exigências físicas, mentais e emocionais.

Durante muitos anos Joao Antônio Dalla Rosa, meu avô materno, foi uma destas figuras que desceu o rio Uruguai em balsas para ganhar a vida. Não pude conversar com ele sobre as suas histórias, era muito jovem quando morreu. Era apenas um adolescente que começava a olhar pela janela de casa.        

O balseiro tinha que lidar com a natureza, esta dama repleta de surpresas e indomável. À noite, quando o breu descia sobre suas cabeças e a Via Láctea se desenhava no céu, isolados em lugares estranhos, inóspitos, o que sentiam e pensavam estes desbravadores? Como superavam as dificuldades? Quantos ficaram no caminho, quantos atingiram seus objetivos?   

Hoje, as crianças não sobem mais em árvores e nossas vidas são dominadas e intermediadas por aparelhos tecnológicos. Basta ter um telefone que num click se consegue falar com uma pessoa do outro lado do mundo. O que deixamos de aprender com os balseiros, os nossos antepassados?

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