O tratamento de uma doença, seja ela física ou mental, exige muita força de vontade, paciência, acompanhamento e auxílio de profissionais. No caso da dependência química, esse esforço é compartilhado, muitas vezes, com outros sentimentos, tais como: angústias, inseguranças e muitos desafios. Contudo, há espaços que podem contribuir muito nesse processo de busca da cura: as comunidades terapêuticas.
Na região de Erechim, um exemplo é a Crade que foi fundada em 1996 e já recebeu muitas pessoas que, independente da droga usada, almejavam a mesma conquista: a libertação por parte dessa que é uma doença e por isso, merece atenção especial e tratamento.
Em entrevista à reportagem do Bom Dia, a psicóloga da Crade, Paula Valéria Servo, explica que a entidade foi fundada por um grupo de pessoas da Igreja Assembleia de Deus que se reuniu, identificou a demanda e resolveu criar uma instituição que atendesse pessoas que enfrentavam o problema do alcoolismo (naquele período era a preocupação social mais expressiva no que diz respeito à dependência química).
A primeira sede logo ganhou um novo espaço, que é onde está até hoje, localizada no Bairro Peccin. Na época o terreno foi doado pelo Estado.
"Conforme surgiam as resoluções e normativas de fiscalização e vigilância sanitária, a instituição também foi se adequando conforme as exigências legais. Na época a capacidade era em torno de 10 pessoas. Atualmente a legislação permite que sejam oferecidos 24 leitos e uma equipe técnica", relata.
A Comunidade atende pelo Sistema Único de Saúde e também por meio de convênio com a prefeitura, sendo que recebe pessoas do sexo masculino e acima de 18 anos.
Antes de chegar à Crade, o paciente normalmente tem a identificação da dependência por parte dos familiares e após, por um serviço como o posto de saúde, a UPA, o Caps AD (porta de entrada à Comunidade Terapêutica).
"Após o contato com o Caps, ele será atendido com um médico e profissional da área de psicologia. Logo na sequência de uma avaliação, a equipe identifica se há necessidade de uma desintoxicação e encaminhamento para uma comunidade terapêutica", explica.
Paula alerta que a Crade é uma comunidade e não clínica. Por isso os pacientes chegam de forma voluntária e não de forma compulsória (por ordem judicial).
Atividades na Comunidade Terapêutica
Durante todo o dia as pessoas que estão em tratamento devem seguir a normas e regras específicas da casa. Por isso há uma cronograma semanal de atividades. "Eles tem tempo livre, para participar de oficinas (música, trabalho informativo - citando as consequências que a droga traz -, cuidados da horta, entre outras).
O tratamento na Comunidade está vinculado especialmente à espiritualidade e não à religião.
O período de permanência no local é de no mínimo seis meses podendo ser prorrogado por mais três meses. "Há pacientes que têm a necessidade de um tratamento a longo prazo. É nesse sentido que atuamos, para oferecer um ambiente específico, seguro", reforça.
Geralmente as pessoas saem da Comunidade já empregados e com atendimento familiar.
A Crade conta com uma área de 9.192 m² e o trabalho de monitores, um auxiliar de serviços gerais, uma responsável técnica e psicóloga. Há também uma estagiária em psicologia e um profissional de Educação Física.
Recursos para ampliação
Recentemente a Crade recebeu uma doação (doador oculto) e agora está buscando auxílio na mão de obra para realizar a ampliação e melhorias na entidade.
Conforme o presidente Vanderlei Ribeiro, a ideia é ampliar os atendimentos e organizar melhor a estrutura, visando um atendimento mais qualificado a todos. "A partir dessa reforma também pensamos em investir na profissionalização dos pacientes. A ressocialização é importante e não somente no âmbito familiar, mas no campo profissional também".
Vanderlei cita que atualmente são recebidos dependentes químicos em todas as drogas, via encaminhamento de um serviço de saúde. A Crade atende pacientes via SUS de todos os municípios que integram a 11ª Coordenadoria de Saúde.
A Crade aceita doações para que sejam realizadas ampliações e colocados em prática outros projetos. Os interessados em colaborar com a ação social podem contatar pelos telefones: 99172 8389/ 99172 2187 ou e mail: casacradeerechim@gmail.com
"Se a pessoa quer, ela volta a ser digna da sociedade"
Quem vê o senhor WK (para preservar a identidade do entrevistado) conversando, sorridente, calmo e sossegado, não imagina que a alguns meses ele passava um grande sufoco pelas ruas de Erechim.
Ele está na Crade há 10 meses, sendo que neste último começou a atuar como auxiliar na Casa de reabilitação. Confira a seguir o relato que WK concedeu à reportagem do Bom Dia:
"Sou um ex-morador de rua, me envolvi com o álcool e outras drogas e cheguei a situações deprimentes. Já fui casado, tinha uma situação financeira boa e quando me envolvi com o álcool, coloquei tudo fora.
Um dia um senhor me pediu se eu queria ajuda e eu aceitei. Cheguei aqui machucado, debilitado. Com o tratamento da equipe, fui me recuperando. É tratada a parte física, mental e espiritual.
Estou aqui há 10 meses e me apeguei muito na questão espiritual.
A Casa fornece essa estrutura. É fundamental que tenhamos vontade de sair da dependência. É um trabalho fundamental. Se a pessoa quer, ela volta a ser alguém digno da sociedade novamente".